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Por que filmar uma perseguição de carros em película ainda faz sentido em 2026

Ao apostar no VistaVision em uma cena de ação extrema, One Battle After Another reacende o debate sobre fisicalidade, risco real e o papel da câmera em um cinema cada vez mais digital.

Cena do filme One Batle After Another. Concorrendo a melhor direção de fotografia. Cena de tirar o fôlego
Cena do filme One Batle After Another. Concorrendo a melhor direção de fotografia. Cena de tirar o fôlego

Em um cinema acostumado a resolver velocidade, perigo e escala dentro do computador, One Battle After Another fez uma escolha pouco óbvia. A perseguição de carros que se tornou uma das cenas mais comentadas do filme não foi pensada para ser “corrigida depois”. Ela foi captada em VistaVision, um formato de película de grande área que carrega peso, custo e limitações físicas reais.



O filme de Paul Thomas Anderson acompanha Bob, um ex-revolucionário vivido por Leonardo DiCaprio, forçado a voltar à ação após o sequestro da filha. Mas o que chama atenção não é apenas a narrativa. É a decisão de construir uma sequência de alta velocidade sem recorrer à lógica dominante do cinema contemporâneo, baseada em extensões digitais, correções agressivas e cenas que só ganham forma definitiva na pós-produção.


A perseguição acontece em um trecho de terreno ondulado conhecido como Texas Dip. Ali, os carros desaparecem e reaparecem no horizonte, não por efeito visual, mas porque a paisagem permite isso. A geografia vira dramaturgia. O relevo passa a comandar o ritmo da cena.


Essa escolha faz a diferença. Quando o carro some atrás de uma elevação, o espectador não está apenas vendo uma imagem. Está antecipando o retorno. Existe tempo morto, espera, tensão real. Algo raro em cenas de ação que hoje costumam ser desenhadas para não deixar o olhar descansar nem por um segundo.


Segundo o diretor de fotografia Michael Bauman, a opção por lentes extremamente longas comprimiu o espaço entre os veículos, criando a sensação de que eles estavam perigosamente próximos mesmo quando não estavam. Mas o ponto central não é a lente. É a recusa em suavizar o risco. O VistaVision não perdoa vibração, erro de foco ou instabilidade. Ele registra.


Ao montar câmeras projetadas para uso estático em carros em movimento, a equipe aceitou trabalhar dentro de limites físicos claros. Não havia a promessa de que “dá pra ajustar depois”. O que fosse captado ali seria, em grande parte, o que iria para a tela.


Esse tipo de decisão, que privilegia processo, intenção e leitura de cena acima da correção infinita, é exatamente o tipo de discussão que levamos para o encontro presencial do dia 25/2, onde falamos sobre imagem, cinema, fotografia e escolhas reais em tempos de excesso tecnológico.


Outro aspecto pouco discutido é o impacto disso no espectador. Em um ambiente audiovisual cada vez mais “perfeito”, a imperfeição controlada da película devolve textura ao movimento. O grão, a resposta da luz, a forma como o sistema reage à velocidade ajudam a criar a sensação de que algo está realmente acontecendo, não sendo simulado.


Não se trata de defender película contra o digital. Trata-se de entender o que se perde quando tudo vira reversível, ajustável e seguro. A perseguição de One Battle After Another funciona porque existe risco. Técnico, físico e narrativo. A câmera não está apenas acompanhando a ação. Ela está exposta a ela.


Esse movimento dialoga com algo maior que o cinema. Em fotografia, vídeo e imagem em geral, cresce o incômodo com soluções que resolvem tudo, mas esvaziam a experiência. Quando cada frame pode ser refeito, a pergunta deixa de ser “como isso foi captado?” e passa a ser “por que isso importa?”.


O uso do VistaVision aqui não é fetiche técnico. É um lembrete. A imagem ainda pode carregar consequência. E talvez seja isso que esteja faltando em boa parte da produção visual atual.


Dentro da comunidade Fotograf.IA + C.E.Foto, esse tipo de leitura continua com profundidade, conectando cinema, fotografia, tecnologia e mercado, sempre com foco em quem vive da imagem e precisa decidir como quer trabalhar daqui para frente.

 
 
 

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