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O que estou lendo | Fotografia entre memória, espera, jogo e cultura

12 de ago.
3 min de leitura

Um videogame construído em torno do ato de fotografar, imagens pouco vistas de Saul Leiter, estradas americanas transformadas em projeto autoral, quase sete horas esperando uma leoparda e uma fotografia feita em Sergipe premiada internacionalmente.



Esta edição de O que estou lendo vai para direções bastante diferentes. E talvez seja justamente isso que torne a seleção interessante.


A fotografia aparece como mecânica de um jogo, como obra descoberta décadas depois, como forma de interpretar um território, como exercício radical de paciência e como registro de uma manifestação cultural brasileira que atravessa fronteiras.


Quando fotografar vira a própria mecânica de um videogame

TOEM 2 transforma a fotografia em parte central de uma aventura ambientada em um universo monocromático. A câmera serve para observar o cenário, descobrir situações, interagir com personagens e avançar pelo jogo.


O que chama atenção é ver elementos tão associados ao ato fotográfico (observar, procurar, enquadrar e decidir o que merece ser registrado) convertidos em uma experiência de entretenimento. É mais um sinal de como a linguagem da fotografia continua aparecendo muito além do mercado de câmeras.


Saul Leiter e uma Nova York que ainda estava escondida

A Leica Gallery Frankfurt apresenta uma retrospectiva de Saul Leiter reunindo trabalhos conhecidos e imagens menos vistas. Leiter fotografou durante décadas as ruas de Nova York com uma linguagem marcada por reflexos, vidros, cores, sombras e cenas cotidianas que frequentemente se aproximam da abstração.


Existe também uma história fascinante sobre reconhecimento. Enquanto trabalhava profissionalmente com moda, Leiter manteve sua produção pessoal durante décadas sem buscar grande exposição pública. Quando morreu, em 2013, deixou milhares de fotografias, slides e pinturas; parte desse enorme arquivo continua sendo organizada pela Saul Leiter Foundation.


É uma lembrança importante de que projeto pessoal, coerência visual e trajetória autoral nem sempre obedecem à velocidade da visibilidade contemporânea.


Quando a estrada vira uma ideia

Na série End of the Road, Helene Havard fotografa diners, motéis, postos de gasolina e outros espaços encontrados nas rodovias do oeste americano. Sua paleta suave e as composições quase suspensas no tempo ajudam a transformar lugares reais em algo próximo da memória.


Havard parte também de uma questão interessante: antes mesmo de conhecer pessoalmente esses lugares, já os conhecia por meio da fotografia, do cinema e da arte. O oeste americano existia primeiro como imaginário. O projeto passa então a explorar a distância entre esse repertório construído e a experiência de finalmente estar diante daqueles espaços.


É um ótimo exemplo de como um projeto pode começar em um assunto aparentemente simples e ganhar força quando existe uma ideia consistente por trás das imagens.


6 horas e 45 minutos esperando uma fotografia

O fotógrafo e biólogo brasileiro Bruno Sartori encontrou uma impala presa nos galhos de uma árvore no Parque Nacional Kruger, na África do Sul. Pela situação, percebeu que um leopardo provavelmente havia deixado a presa ali e decidiu permanecer no local.

A espera durou 6 horas e 45 minutos. No fim da tarde, uma leoparda retornou à árvore e Sartori conseguiu registrar o animal subindo até a presa e se alimentando. A fotografia foi feita em 29 de julho.


Em uma época marcada por velocidade, automação e produção quase instantânea de imagens, a história lembra de outra dimensão da fotografia: conhecimento do assunto, capacidade de antecipação e disposição para esperar.


Uma fotografia feita em Sergipe ganha o mundo

Soul Beneath the Paint, de Cesare Simioni, venceu a categoria preto e branco do Pure Street Photography Awards 2026. A fotografia foi realizada durante o Lambe-Sujo e Caboclinhos, manifestação tradicional de Sergipe ligada à memória da escravidão, dos quilombos e das relações históricas entre populações negras e indígenas.


No centro da fotografia está um menino cercado pelos participantes da manifestação. A mesma imagem já havia recebido reconhecimento em outra premiação e agora volta a circular internacionalmente.


O caso é interessante também pelo caminho que uma fotografia pode percorrer. Uma manifestação profundamente ligada a uma cultura e a um território específicos encontra audiência internacional por meio da imagem. Fotografia de rua, documento, memória e interpretação acabam se encontrando no mesmo quadro.


E para quem vive da fotografia

Essas cinco histórias mostram caminhos muito diferentes para a fotografia. Linguagem, projeto pessoal, cultura, tecnologia, repertório e especialização continuam abrindo possibilidades em um mercado que muda rapidamente.


Para quem está justamente revendo posicionamento, oferta, preço e direção profissional, no dia 1º de setembro acontece em São Paulo o primeiro Mapa R.U.M.O. Presencial. Um dia de trabalho em grupo, com poucas vagas, para sair da dispersão e transformar decisões em um plano mais claro para os próximos meses.


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