O que estou lendo: menos equipamento, mais fotografia e um mercado que continua surpreendendo
- há 2 dias
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Steve McCurry simplifica o kit, a fotografia sustenta os lucros da Fujifilm, os bastidores do Tour de France Femmes e outras leituras que chamaram minha atenção.

Algumas leituras recentes sobre fotografia, mercado, tecnologia e trabalho profissional.
Steve McCurry usa uma lente em 95% do trabalho
É curioso porque estamos em um mercado que continua oferecendo câmeras, lentes e acessórios novos o tempo todo, mas Steve McCurry segue na direção contrária.
Hoje, aos 76 anos, ele conta que realiza cerca de 95% do trabalho com uma Leica Vario-Elmarit-SL 24-90mm f/2.8-4 e um único corpo. Sem bolsa. Leva cartões e baterias no bolso.
A simplificação não significa indiferença ao equipamento. Quando migrou da Nikon para a Leica, McCurry diz ter feito testes cuidadosos, inclusive comparando retratos e resultados em estúdio. O critério que parece mais interessante, porém, aparece depois: a impressão.
Ele imprime praticamente todos os dias no estúdio e avalia a qualidade pensando em livros e exposições. A câmera e a lente entram como meios para chegar ao resultado final.
Também chama atenção quando ele diz que não tenta recriar artificialmente o visual do Kodachrome. A intenção é aproximar a imagem do que viu, mantendo cor, emoção e narrativa a serviço da fotografia.
Fotografia virou uma máquina importante de lucro para a Fujifilm
Outro dado interessante para quem gosta de dizer que “fotografia acabou”.
No primeiro trimestre fiscal da Fujifilm, a divisão Imaging faturou 168,8 bilhões de ienes e gerou 43,4 bilhões de ienes de lucro operacional. A margem ficou em 25,7%.
Mais importante: a fotografia não é apenas uma atividade nostálgica dentro de um conglomerado gigantesco. Ela é um dos negócios mais rentáveis da empresa.
Existe uma nuance importante. O crescimento está sendo puxado principalmente pelo Consumer Imaging, com forte desempenho da linha Instax. A receita dessa área cresceu 25% em relação ao ano anterior. Já a área profissional, que inclui X Series e GFX, cresceu 6% em receita e teve queda de 4,6% no lucro operacional.
Ou seja: parte relevante da força atual da fotografia talvez esteja justamente na capacidade de transformar imagem em experiência, objeto, diversão e produto físico, e não apenas na venda de câmeras profissionais.
Fotografar o Tour de France Femmes é muito menos sobre apertar o botão do que parece
Gostei especialmente do perfil de Anouk Flesch acompanhando o Tour de France Femmes.
Ela produz milhares de imagens por dia trabalhando para equipes como EF Education-Oatly e Lidl-Trek. Mas a reportagem mostra que o trabalho envolve deslocamento, antecipação, leitura da prova, trânsito, barreiras, segurança, mudanças de plano e decisões tomadas em segundos.
Em um dos momentos relatados, Flesch percebe que pode perder a passagem das atletas, muda rapidamente a rota, sai do carro carregando duas Nikon Z8, fotografa e volta quase imediatamente.
A fotografia que depois aparece em redes sociais como um instante espontâneo é resultado de uma estrutura invisível de logística, experiência e tomada de decisão.
É uma boa lembrança de algo que às vezes desaparece na discussão atual sobre tecnologia: a fotografia profissional não é apenas produção de imagem. É também acesso, contexto, presença, repertório, antecipação e capacidade de estar no lugar certo quando algo acontece.
Como recrutar fotógrafos com a Fotto 3.0?
A Plataforma Inteligente de Fotografia agora também conecta organizadores de eventos a fotógrafos da região. Com a Fotto 3.0, quem precisa montar ou ampliar uma equipe pode encontrar profissionais para trabalhar em seus eventos dentro do próprio ecossistema da plataforma.
A Fotto já conecta fotógrafos profissionais a organizadores de eventos esportivos em todo o Brasil, e a Fotto 3.0 amplia essa rede permitindo que o recrutamento aconteça direto na plataforma, gerando mais oportunidades para fotógrafos e mais agilidade para quem organiza.
Uma bateria que também ajuda a encontrar a câmera
A Falcam criou a TagBatt, uma bateria de câmera que incorpora a tecnologia Find My da Apple.
A ideia é simples: além de alimentar a câmera, ela pode funcionar como um rastreador dentro do ecossistema do iPhone.
Não é uma transformação do mercado fotográfico, mas é um bom exemplo de como acessórios aparentemente comuns começam a incorporar funções que antes exigiam outro dispositivo.
Para quem trabalha viajando, cobrindo eventos ou circulando com equipamento caro, é uma pequena inovação com uma aplicação bastante concreta.
O problema não é apenas fazer backup. É saber onde estão seus backups.
Achei interessante o conceito do Tusk, um novo aplicativo para Mac voltado a fotógrafos e profissionais de vídeo.
Ele cataloga arquivos espalhados por diferentes discos, inclusive unidades que não estão conectadas naquele momento. Também verifica as transferências por checksum, pode descarregar um cartão SD simultaneamente para vários destinos e checa se existem cópias verificadas antes de permitir a exclusão do arquivo local.
Parece detalhe técnico, mas toca em um problema real de quem acumula anos de produção: saber que existe uma cópia não significa necessariamente saber onde aquela cópia está.
O programa não tenta substituir Time Machine, Backblaze ou outras soluções tradicionais. A proposta é funcionar como uma camada de organização e verificação para projetos de foto e vídeo.
Esse tipo de ferramenta também mostra como o gerenciamento do acervo está começando a virar uma categoria própria de software para criadores.
Uma fotografia feita no Brasil vence um dos principais prêmios do Pure Street Photography Awards
“Soul Beneath the Paint”, de Cesare Simioni, foi escolhida como Grand Winner da categoria preto e branco do Pure Street Photography Awards 2026.
A imagem foi feita durante a manifestação Lambe-Sujo e Caboclinhos, em Sergipe, tradição que remete à escravidão, à fuga de pessoas escravizadas e à formação dos quilombos.
No centro da fotografia, um menino olha diretamente para a câmera cercado por participantes da manifestação.
A mesma imagem já havia recebido reconhecimento no All About Photo Awards.
O interessante aqui é também olhar para o contexto mais amplo da premiação. A edição de 2026 recebeu 1.582 fotografias de 50 países, selecionou oito vencedores e 158 finalistas. Entre as regras, imagens geradas ou manipuladas por IA não são aceitas, e o julgamento é realizado sem que os jurados tenham acesso ao nome, nacionalidade ou biografia dos fotógrafos.
Em um momento de abundância de imagens sintéticas, talvez haja algo simbólico nessa valorização explícita da observação, do instante e da experiência vivida.
O conjunto dessas leituras me chamou atenção por uma razão: nenhuma delas aponta para uma fotografia parada no tempo. Tecnologia continua mudando. Mas talvez a discussão mais interessante continue sendo o que o fotógrafo decide fazer com ela.



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