MIT cria dispositivo que transforma fotografias em cheiros e propõe nova forma de acessar memórias
- Leo Saldanha

- há 4 dias
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Protótipo desenvolvido no MIT Media Lab usa inteligência artificial para converter imagens em fragrâncias personalizadas, explorando a relação entre fotografia, emoção e nostalgia.

Pesquisadores do MIT Media Lab apresentaram um protótipo experimental que propõe uma nova forma de acessar memórias a partir de imagens. Batizado de Anemoia Device, o equipamento utiliza inteligência artificial para interpretar fotografias e transformá-las em fragrâncias personalizadas.
Descrito como uma “máquina de memória olfativa”, o dispositivo parte de uma fotografia analógica inserida fisicamente pelo usuário. A imagem é analisada por um sistema de visão computacional e linguagem, que identifica elementos visuais e permite que a pessoa interaja com o processo por meio de três controles manuais. Ao final, a máquina gera um cheiro único a partir de uma biblioteca de fragrâncias.
A proposta não é apenas técnica. É conceitual.
Destilar uma imagem
O Anemoia Device foi criado pelo pesquisador Cyrus Clarke, do MIT Media Lab, que descreve o processo como uma forma de destilação. A ideia é pegar uma memória densa, cheia de camadas e significados, e condensá-la em algo mais sensorial e imediato.
O sistema funciona em três etapas. Primeiro, a IA interpreta o conteúdo da fotografia. Em seguida, o usuário escolhe um ponto de vista dentro da imagem, que pode ser uma pessoa, um objeto ou um elemento do ambiente. Depois, ajusta o “estado” desse elemento, como ciclo de vida, uso ou desgaste. Por fim, define um tom emocional associado à memória.
Essas escolhas influenciam diretamente a combinação de aromas produzida pela máquina, que mistura fragrâncias em pequenos intervalos de tempo a partir de um conjunto de cerca de 50 cheiros diferentes, como madeira, livros antigos, couro, floresta, areia ou especiarias.
O resultado não é uma tradução literal da imagem, mas uma interpretação sensorial construída em diálogo entre máquina e usuário.
Anemoia: nostalgia pelo que não foi vivido

O projeto se apoia em um conceito específico: anemoia, termo usado para descrever a nostalgia por um tempo ou experiência que nunca foi vivida. Fotografias de família, arquivos herdados, cenas antigas ou registros históricos funcionam como pontos de partida para esse tipo de sentimento.
Segundo Clarke, o interesse não está apenas em memórias pessoais diretas, mas também em memórias imaginadas, herdadas ou reconstruídas. A fotografia, nesse contexto, deixa de ser um documento do passado e passa a ser um gatilho para experiências sensoriais que nunca existiram exatamente daquela forma.
Durante testes, um dos participantes utilizou uma fotografia de arquivo mostrando um casal sentado em degraus de pedra, aparentemente comendo uma fruta. Ao selecionar o fruto como elemento central, definir o estado como “em uso” e escolher um tom emocional calmo, o sistema gerou uma fragrância com notas de maçã, pera e um leve aroma terroso. A reação foi imediata: a pessoa associou o cheiro ao outono, mesmo sem essa informação estar explícita na imagem.
Fotografia além do visual

O experimento levanta uma questão relevante para o campo da imagem: até que ponto a fotografia é apenas visual? O projeto parte do pressuposto de que as imagens carregam camadas emocionais e sensoriais que vão além do que pode ser visto.
Ao converter fotografias em cheiros, o Anemoia Device desloca a fotografia do papel de registro para o de matéria-prima interpretável. A imagem não encerra a experiência. Ela a inicia.
Essa abordagem contrasta com o uso mais comum da inteligência artificial na imagem, geralmente associada à automação, otimização ou geração em escala. Aqui, a IA não busca eficiência nem produtividade. Ela atua como mediadora de memória e emoção.
Para quem vive da imagem, esse tipo de experimento ajuda a entender como fotografia, memória e valor simbólico estão se reorganizando fora das plataformas e fora do debate técnico. Essa leitura de cenário, com aplicações práticas para posicionamento e negócio, é aprofundada dentro da comunidade Fotograf.IA + C.E.Foto.
Memória, tecnologia e corpo
Clarke reconhece a contradição do projeto: usar tecnologia avançada para reconectar as pessoas aos sentidos e à materialidade da memória. Ainda assim, ele defende que nem toda tecnologia precisa disputar atenção ou acelerar processos.
Em um mundo onde memórias são armazenadas em feeds, arquivos e nuvens digitais, a proposta do Anemoia Device aponta para outra direção: tornar a lembrança algo físico, presente e corporal. Algo que se sente, não apenas se vê.
O pesquisador imagina dois caminhos futuros para o projeto. Um deles seria um dispositivo doméstico, capaz de “imprimir” memórias em forma de cheiro. O outro, um serviço remoto, no qual usuários poderiam enviar imagens para receber fragrâncias personalizadas.
Mais do que um produto, o Anemoia Device funciona como provocação. Ele questiona como lidamos com imagens, como armazenamos lembranças e que tipo de experiências buscamos em um ambiente cada vez mais digital.
Ao transformar fotografias em cheiro, o MIT não propõe substituir a memória visual, mas lembrar que ela nunca foi apenas visual.
Essas mudanças no papel da fotografia e da IA fazem parte do pano de fundo do encontro presencial Fotografia Humana em Tempos de IA, no dia 25 de fevereiro, com conversa direta sobre imagem, posicionamento e decisões práticas para quem vive da fotografia.



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