Gabriela Biló mistura fotografia e IA e encontra estereótipos ao pedir que a máquina imagine o Brasil
Série da Folha combina retratos reais, imagens geradas no Midjourney e múltipla exposição. Nos testes, termos como “Brasil” e “mulheres” fizeram o sistema inserir elementos que não haviam sido pedidos.

A fotojornalista Gabriela Biló usou inteligência artificial generativa como parte do processo de criação de uma série publicada pela Folha de S.Paulo. O trabalho combina entrevistas, imagens produzidas no Midjourney, retratos fotográficos e uma técnica tradicional da fotografia: a múltipla exposição.
A série Voto das Mulheres foi construída a partir de entrevistas com 15 brasileiras de diferentes regiões, perfis sociais e inclinações políticas. A proposta era transformar em imagens o país imaginado por cada uma delas. A partir das respostas, foram elaborados prompts para que o Midjourney criasse os cenários usados posteriormente nos retratos.

O processo, porém, encontrou um problema logo nos primeiros testes. Segundo a Folha, quando palavras como “Brasil” e “mulheres” apareciam nos comandos, o sistema adicionava elementos que não haviam sido solicitados, incluindo favelas e representações de mulheres negras com expressões de tristeza.
A equipe decidiu retirar essas referências dos prompts e passou a trabalhar os comandos em inglês em busca de maior variedade nos resultados. Cada entrevistada também validou a imagem gerada antes da realização do retrato.
A IA entrou na imagem, mas a fotografia continuou no centro
A etapa seguinte é uma das partes mais interessantes do projeto.
Biló não simplesmente combinou o retrato com a imagem sintética em um software de edição. Primeiro, fotografou na tela do computador a imagem criada pelo Midjourney. Em seguida, usando o mesmo fotograma, fotografou a entrevistada. A múltipla exposição realizou a sobreposição dentro da própria câmera.
O procedimento estabelece uma sequência bastante definida: a entrevista fornece a matéria-prima conceitual, a IA cria uma representação visual, a entrevistada valida essa interpretação e a fotografia incorpora o material sintético à captura.
O resultado é um caso concreto de fotografia híbrida, em que elementos gerados por inteligência artificial participam da construção da imagem sem eliminar a captura fotográfica.
Também existe uma diferença importante em relação ao uso mais comum da IA para produzir imagens completas. Neste trabalho, o Midjourney não determina sozinho o resultado. A imagem passa por escolhas editoriais, revisão dos prompts, validação das personagens, direção fotográfica e uma técnica de captura realizada na câmera.
O problema não estava apenas no prompt
A experiência também mostra uma dificuldade prática para quem trabalha com geração de imagens.
Os estereótipos encontrados não haviam sido escritos nos comandos. Eles apareceram na interpretação feita pelo sistema a partir de conceitos amplos associados a mulheres e ao Brasil. A solução exigiu identificar essas associações e modificar o processo de geração.
Nesse caso, dirigir uma imagem com IA significou também reconhecer o que a ferramenta acrescentou por conta própria.
Para fotógrafos que começam a incorporar geração sintética ao trabalho, esse ponto é especialmente relevante. O domínio técnico do prompt não encerra a direção. Também é necessário avaliar quais referências aparecem, quais associações foram produzidas e se o resultado corresponde à intenção original.
No trabalho de Biló, essa avaliação teve ainda outra camada: as próprias mulheres fotografadas participaram da validação da representação construída a partir de seus relatos.
Um exemplo brasileiro de Fotografia Expandida
A série publicada pela Folha ajuda a tornar mais concreta uma transformação que já aparece em diferentes áreas da fotografia.
A imagem final não precisa mais nascer exclusivamente de uma captura nem ser inteiramente criada por um modelo generativo. Fotografia, geração sintética, arquivo e pós-produção começam a dividir o mesmo processo.
No caso de Gabriela Biló, uma tecnologia recente foi incorporada a uma técnica fotográfica que existe desde o período analógico. A inteligência artificial criou parte do material visual, enquanto a câmera continuou responsável pela construção do retrato final.
É justamente nesse espaço entre a imagem capturada e a imagem sintética que uma parte da fotografia contemporânea começa a experimentar novas possibilidades.
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