E se gerar imagens com IA deixar de ser o negócio?
A Reve vai encerrar a criação de imagens e vídeos. Midjourney expande sua ambição para muito além do prompt. Adobe e Krea reúnem dezenas de modelos em um mesmo ambiente. A IA visual começa a disputar algo maior do que a melhor imagem.

A Reve (uma das melhores IAs do mercado) vai encerrar a criação de imagens e vídeos.
Midjourney expande sua ambição para muito além do prompt. Adobe e Krea reúnem dezenas de modelos em um mesmo ambiente. A IA visual começa a disputar algo maior do que a melhor imagem.
Uma das empresas mais elogiadas recentemente pela qualidade de suas imagens generativas decidiu parar de gerá-las.
A Reve informou que, depois de 27 de setembro de 2026, sua plataforma não permitirá mais a criação de novas imagens e vídeos. Os usuários terão até 31 de outubro para baixar o conteúdo já produzido.
O encerramento chama atenção porque não acontece depois de anos de abandono tecnológico. Em julho, a empresa anunciou um investimento da OpenAI e informou que integrantes de sua equipe de pesquisa passariam a trabalhar na pesquisa multimodal da companhia, enquanto a Reve seguiria independente e buscaria produtos além do universo visual que marcou sua origem.
Isoladamente, poderia ser apenas uma mudança de estratégia. O problema é que outros movimentos recentes começam a apontar na mesma direção.
O melhor gerador talvez já não seja a pergunta principal
A Midjourney continua investindo pesadamente em imagens. Em julho lançou o V8.2, com melhorias de qualidade, estética e personalização. Em agosto apresentou um novo modelo de edição capaz de trabalhar com várias referências, inpainting e expansão de imagens. E ainda atualizou sua plataforma nesta semana.
Portanto, seria precipitado tratar a empresa como exemplo de abandono da geração visual.
Sua ambição, porém, já é muito maior.
Ao apresentar seu primeiro modelo de vídeo, em 2025, a própria Midjourney afirmou que considerava o destino da tecnologia a criação de simulações de mundos abertos em tempo real, combinando imagem, vídeo, espaço 3D e interação. A geração de imagens seria apenas um dos blocos necessários para chegar lá.
Agora existe também a Midjourney Medical, divisão dedicada a uma tecnologia de ultrassom de corpo inteiro. A empresa afirma que pretende instalar milhares de scanners e abrir seu primeiro centro em San Francisco no fim de 2027. É uma diversificação distante do produto que tornou a marca conhecida, embora não signifique que o Midjourney visual esteja sendo abandonado.
A mudança relevante está justamente nessa diferença.
A empresa que ficou famosa porque você digitava algumas palavras e recebia quatro imagens hoje fala em edição, vídeo, simulações interativas e sensores capazes de mapear um corpo humano.

Enquanto isso, o modelo começa a desaparecer dentro da plataforma
Talvez o sinal mais claro venha de empresas que nem pedem mais ao usuário fidelidade a um único modelo.
O Adobe Firefly já oferece em uma mesma interface modelos da própria Adobe e sistemas de Google, OpenAI, Runway, Ideogram, Black Forest Labs, Luma e outros. Em vez de tentar convencer o usuário de que existe um único motor vencedor, a plataforma permite selecionar diferentes modelos dentro do fluxo de produção.
A Krea avança pelo mesmo caminho. Sua plataforma reúne dezenas de modelos de imagem, vídeo e aprimoramento. Mais recentemente, lançou um agente de produção que recebe um briefing, escolhe ferramentas, gera materiais, avalia resultados e executa etapas do trabalho. A própria empresa afirma que o agente pode operar mais de 150 modelos.
Nesse cenário, o nome do modelo tende a importar menos do que o que acontece antes e depois da geração.
Qual ferramenta entende a referência? Qual preserva a identidade de uma pessoa? Qual consegue editar o resultado? Qual transforma imagem em vídeo? Qual mantém os arquivos e elementos de uma marca? Qual permite automatizar uma campanha inteira?
A disputa começa a migrar do modelo para o fluxo de trabalho.
O Google oferece outro exemplo. A empresa descontinuou sua antiga API do Imagen e orientou desenvolvedores a migrar a geração visual para modelos multimodais Gemini, conhecidos como Nano Banana. A função de criar imagens não desapareceu. Foi incorporada a um sistema capaz de fazer muito mais coisas.
Da imagem pronta para mundos, agentes e captura
A Runway também ajuda a enxergar essa expansão. No início de setembro apresentou o GWM Worlds 2, sistema experimental capaz de gerar ambientes audiovisuais interativos em tempo real que respondem às ações do usuário. A empresa que ganhou notoriedade com geração de vídeo agora pesquisa simulação de ambientes.
Há ainda um movimento quase inverso ao da imagem sintética.
Segundo reportagem do Wall Street Journal, repercutida por outros veículos, a OpenAI adquiriu por mais de US$ 300 milhões a Glass Imaging, empresa criada por ex-engenheiros da Apple especializada em usar redes neurais para melhorar a imagem no próprio sistema de captura de câmeras compactas. A transação ainda não foi anunciada oficialmente pelas empresas.
A Glass não foi criada para substituir a câmera por uma imagem inventada. Sua tecnologia atua sobre informações produzidas por lentes e sensores para melhorar aquilo que foi capturado.
É um detalhe especialmente interessante para a fotografia.
alguns anos, quase toda a atenção esteve na capacidade da inteligência artificial de produzir imagens sem câmera. Agora, parte da tecnologia começa também a voltar para a câmera, o sensor, a referência real e os sistemas que conectam captura, geração e edição.
A geração de imagens está virando commodity?
Ainda é cedo para afirmar isso de maneira definitiva.
Midjourney continua desenvolvendo modelos de imagem. OpenAI, Google, Adobe e outras empresas seguem investindo fortemente na qualidade visual. E ainda existem diferenças consideráveis entre modelos.
Mas os movimentos recentes sugerem que produzir uma imagem impressionante a partir de um comando já não basta para sustentar uma posição diferenciada por muito tempo.
A qualidade sobe rapidamente, ferramentas passam a oferecer modelos concorrentes lado a lado e novos sistemas conseguem decidir automaticamente qual deles utilizar.
Nesse ambiente, ter “o melhor gerador” pode ser uma vantagem cada vez mais curta.
O valor começa a aparecer em outras camadas: controle, edição, consistência, referências próprias, integração com vídeo e 3D, automação, identidade, fluxo de produção e conexão com aquilo que existe no mundo físico.
Para fotógrafos, talvez seja essa a parte mais relevante dessa transformação.
A questão já não precisa ser apenas se a inteligência artificial consegue produzir uma fotografia convincente.
À medida que a própria geração se torna acessível e intercambiável, ganha importância aquilo que acontece ao redor dela: o que precisa ser capturado, qual material real deve entrar no processo, quem dirige a imagem, quem reconhece um erro e como uma fotografia pode continuar sendo matéria-prima para algo maior.
É justamente nessa fronteira que a fotografia começa a ficar mais interessante.
Fotografia Expandida: do real ao sintético
Preparei um especial com dois vídeos e um playbook prático para organizar esse novo território: o que ainda precisa ser fotografado, o que pode ser expandido a partir de uma captura e quando uma imagem já pertence ao campo sintético.
O material trabalha com exemplos reais de retrato, família, marca pessoal, consistência de identidade e expansão de enquadramento, além dos limites e decisões envolvidos no processo.



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