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O que estou lendo: as 12 séries que disputam o Leica Oskar Barnack Award 2026

  • há 21 horas
  • 7 min de leitura
Da guerra em Gaza à crise hídrica na Ásia Central, os finalistas mostram uma fotografia documental construída com tempo, contexto e atenção às relações entre pessoas e território.


Em uma época acostumada a julgar fotografias em poucos segundos, a seleção do Leica Oskar Barnack Award 2026 propõe outro ritmo.


São 12 séries que atravessam guerras, transformações ambientais, memória familiar, juventude, tradições, deslocamentos e formas de pertencimento. Algumas imagens produzem impacto imediato. Outras só revelam sua força quando vistas ao lado das fotografias anteriores e seguintes.


Essa talvez seja a principal razão para olhar com atenção para a lista: o prêmio continua valorizando a fotografia como corpo de trabalho, não apenas como imagem isolada.

A 46ª edição do Leica Oskar Barnack Award reúne projetos documentais e conceituais sobre a relação entre seres humanos e ambiente, eixo que acompanha a premiação desde sua criação. O vencedor da categoria principal receberá € 40 mil e equipamentos Leica avaliados em € 10 mil. Já o Newcomer receberá € 10 mil e uma Leica Q3. Os vencedores serão anunciados em outubro de 2026, em Wetzlar, na Alemanha.


O valor está na sequência

Boa parte da fotografia que circula nas redes depende da capacidade de interromper o movimento do dedo. A imagem precisa chamar atenção rapidamente, mesmo quando aparece sem contexto, legenda ou relação com outras fotografias. Os trabalhos selecionados pelo LOBA seguem por outro caminho.


Cada projeto reúne entre 15 e 20 imagens e parte de um tema desenvolvido ao longo do tempo. O resultado depende da edição, da repetição de determinados elementos, da relação entre paisagem e personagem e da maneira como o fotógrafo constrói uma sequência.


Uma fotografia forte pode abrir a porta. A série precisa sustentar a entrada.

Esse modelo ajuda a perceber algo que nem sempre aparece no fluxo cotidiano: fotografar um assunto e construir um trabalho sobre ele são movimentos diferentes.


Doze formas de observar pessoas e território

A lista de 2026 reúne Saher Alghorra, Todd Antony, Anush Babajanyan, Damir Faizulin, William Keo, Slava Lyu-fa, Valery Melnikov, Benedikt Renč, Elliot Ross, Annie Sakkab, David Sládek e Laila AnnMarie Stevens.




Os temas são variados, mas existe uma linha comum. Em quase todos, o ambiente não aparece apenas como cenário. Ele participa da história.


Em Witnessing Gaza, Saher Alghorra acompanha pessoas tentando manter a vida cotidiana em meio à destruição. Uma das imagens mostra uma família quebrando o jejum do Ramadã entre os escombros da própria casa. A fotografia registra a guerra, mas também a tentativa de preservar um rito e algum sentido de continuidade.


Mariupol – Open Wounds, de Valery Melnikov, volta-se para as marcas físicas e humanas deixadas pelo conflito na Ucrânia. A ideia de ferida aberta aparece tanto nos corpos quanto na cidade.


Em The Aral Sea and the Battered Waters of Central Asia, Anush Babajanyan observa os efeitos da redução da água sobre paisagens e comunidades. Árvores ocupam áreas que antes pertenciam ao leito do rio, enquanto o recuo das geleiras altera a relação entre território, trabalho e sobrevivência.


A Question of Balance, de Elliot Ross, aborda a ocupação e o consumo de recursos no oeste dos Estados Unidos. Entre as imagens está uma enorme piscina construída dentro de um empreendimento residencial em Utah, em contraste com uma região marcada pela escassez de água.


Os dois trabalhos tratam de crise ambiental, mas por perspectivas distintas. Um acompanha comunidades submetidas à perda de recursos. O outro observa a construção de abundância artificial em um território limitado.



Juventude, família e pertencimento


Nem todas as séries partem de conflitos ou desastres.


Em Extramuros, William Keo fotografa jovens nas periferias francesas. A série parece interessada menos em explicar esses lugares de fora e mais em acompanhar como seus habitantes constroem relações, intimidade e presença dentro deles.


A imagem de um casal dentro de um carro, com uma pequena faixa de luz atravessando seus rostos, chama atenção justamente pela contenção. O cenário quase desaparece, mas o território continua presente na atmosfera.


Clayton Sisterhood Project, de Laila AnnMarie Stevens, investiga memória, família e identidade. Em uma das fotografias, uma mulher aparece diante de uma parede cheia de retratos de uma família composta majoritariamente por mulheres. A imagem funciona como retrato e arquivo ao mesmo tempo.


People of Šumiac, de David Sládek, e Inner Distance, de Slava Lyu-fa, também se aproximam de comunidades específicas. Nesses casos, a fotografia parece menos preocupada em encontrar personagens extraordinários e mais interessada em perceber como hábitos, relações e identidades sobrevivem em lugares afastados dos grandes centros.



Tradição não aparece como peça de museu


Alguns trabalhos observam tradições que continuam vivas, mas pressionadas por transformações sociais e ambientais.


Em Buzkashi, Todd Antony acompanha o jogo equestre praticado na Ásia Central. As imagens mostram velocidade, força física e disputa, mas o interesse vai além do esporte. O buzkashi carrega séculos de história, poder e identidade coletiva.


Preserving Nature as Preserving Ourselves, de Damir Faizulin, passa por Tsovkra, vila conhecida pela tradição de caminhar sobre cordas. Uma estudante aparece durante o intervalo escolar, em uma imagem que aproxima vida cotidiana e prática cultural.

O mérito desses trabalhos está em evitar a ideia de tradição como algo parado no passado. Ela aparece em disputa, adaptação e continuidade.



Fotografia como testemunho, sem reduzir pessoas à tragédia


Projetos sobre guerra e destruição sempre levantam uma questão difícil: como testemunhar sem transformar sofrimento em espetáculo? A resposta não depende apenas do assunto. Ela aparece na distância escolhida, na relação com os fotografados, no que fica fora do quadro e no modo como as imagens são organizadas.


Uma fotografia de escombros pode falar apenas de destruição. Outra pode mostrar como as pessoas continuam vivendo dentro dela.


Esse deslocamento importa. Ele impede que personagens apareçam apenas como vítimas abstratas e devolve alguma complexidade às situações retratadas.


O LOBA tem uma tradição ligada ao humanismo documental. Em 2026, esse princípio surge tanto nos trabalhos sobre guerra quanto nas séries dedicadas a família, memória, migração, clima e ocupação territorial.



Uma seleção construída antes do júri


A categoria principal do prêmio não funciona por inscrição aberta convencional.

Mais de 130 especialistas em fotografia, vindos de 48 países, puderam indicar até três séries cada. O grupo inclui fotógrafos, curadores, editores, pesquisadores, profissionais de museus, festivais, galerias e publicações. Entre os nominadores de 2026 estão também profissionais ligados ao Brasil, como o fotógrafo Julio Bittencourt e a diretora de festival Fernanda Prado Verčič.


Esse sistema ajuda a explicar a presença de projetos já amadurecidos, com pesquisa, edição e alguma circulação anterior.


Também revela uma característica importante do mercado autoral: produzir um bom trabalho é apenas uma parte do caminho. Fazer com que ele chegue a editores, curadores, festivais e instituições continua sendo decisivo.


A qualidade das imagens importa. A circulação do projeto também.



A estreia do LOBA Women Grant

A edição de 2026 inclui ainda o primeiro LOBA Women Grant, criado para apoiar fotógrafas profissionais com 21 anos ou mais.


A bolsa oferece € 10 mil, uma câmera Leica Q3 e acompanhamento profissional para o desenvolvimento de um novo projeto. Diferentemente das categorias principal e Newcomer, essa seleção teve inscrições abertas, sem depender de indicação prévia. O trabalho resultante será apresentado na edição de 2027.


A iniciativa amplia o alcance do prêmio, mas também evidencia uma diferença importante entre premiar uma série pronta e financiar o tempo necessário para que um trabalho exista.

Na fotografia documental e autoral, tempo é um recurso central. É preciso voltar ao mesmo lugar, criar relações, rever hipóteses, editar e, em muitos casos, sustentar financeiramente meses ou anos de produção.


Uma bolsa não garante um grande trabalho. Ela cria condições para que ele possa ser desenvolvido.



O contraste com a lógica do feed


A seleção do LOBA 2026 chega em um momento de produção visual intensa. Smartphones, plataformas e ferramentas de inteligência artificial ampliaram a quantidade de imagens disponíveis e aceleraram sua circulação.


Esse cenário não diminui a importância das séries. Pode até aumentar.

Quando imagens individuais aparecem em excesso, o contexto se torna uma forma de diferenciação. Uma sequência bem editada mostra pensamento, permanência e compromisso com um tema.


O feed pergunta se a fotografia chama atenção agora.

Uma série pergunta se existe algo capaz de sustentar nossa atenção depois do primeiro impacto.


É uma diferença importante para fotógrafos profissionais, inclusive para quem não trabalha diretamente com documentário. Ensaios de família, projetos corporativos, retratos, casamentos e trabalhos autorais também podem ganhar profundidade quando deixam de ser tratados como uma soma de boas imagens e passam a ser pensados como narrativa.



O que levo desta leitura

A shortlist do Leica Oskar Barnack Award 2026 reúne fotografias visualmente fortes, mas seu principal valor está naquilo que acontece entre elas.


Está na passagem de uma imagem para outra. Na mudança de distância. Na alternância entre retrato e paisagem. Na repetição de gestos, cores, espaços e personagens. Na capacidade de um trabalho produzir uma leitura mais ampla sem precisar explicar tudo em uma única fotografia.


Em um mercado cada vez mais orientado por velocidade, esse tipo de seleção lembra que profundidade também depende de permanência.


Repertório não se constrói apenas acompanhando equipamentos, tendências ou novas ferramentas. Ele cresce quando observamos como outros fotógrafos sustentam uma pesquisa, lidam com temas complexos e transformam imagens separadas em um trabalho com unidade.


Na Fotograf.IA Essencial, tecnologia, mercado e inteligência artificial convivem com essa leitura mais ampla da fotografia. Porque entender o que está mudando também exige reconhecer o que continua dando autoria, profundidade e permanência a uma imagem.



O que é o Leica Oskar Barnack Award?

É um prêmio internacional de fotografia promovido pela Leica, voltado a séries que discutem a relação entre seres humanos e ambiente.


Quantos finalistas foram escolhidos em 2026?

A edição de 2026 reúne 12 séries finalistas na categoria principal.


Qual é o valor do prêmio principal?

O vencedor recebe € 40 mil e equipamentos Leica avaliados em € 10 mil.


Quando serão anunciados os vencedores?

Os vencedores da categoria principal, do Newcomer Award e do LOBA Women Grant serão anunciados em 8 de outubro de 2026.


Por que o prêmio valoriza séries fotográficas?

Porque o foco está na construção de um corpo de trabalho, com pesquisa, edição, continuidade e relação entre imagens, e não apenas em uma fotografia isolada.

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