Eles saíram de um prêmio por causa da IA. Agora estão de volta
Brisbane Portrait Prize reúne 49 finalistas e apenas um trabalho declarado com IA generativa. O retorno de antigos críticos muda o centro da discussão sobre tecnologia, autoria e valor na imagem.

Em 2024, a decisão do Brisbane Portrait Prize, na Austrália, de aceitar trabalhos produzidos com inteligência artificial provocou uma reação incomum: artistas e fotógrafos decidiram simplesmente não participar.
Entre os nomes que criticaram a mudança estavam o fotógrafo australiano Russell Shakespeare e o artista Wiradyuri Birrunga. O argumento não era apenas técnico. Havia questionamentos sobre autoria, treinamento de modelos, apropriação de propriedade intelectual e sobre colocar processos muito diferentes para disputar os mesmos prêmios.
Dois anos depois, a história ganhou um capítulo mais interessante.
Parte dos artistas que haviam se afastado voltou ao Brisbane Portrait Prize. Entre eles estão Birrunga, outros artistas ligados à sua galeria e o fotógrafo Glenn Hunt. Em vez de abandonar o espaço, eles decidiram colocar seus próprios trabalhos novamente dentro da disputa.
E há um dado curioso: entre os 49 finalistas da edição de 2026, apenas um trabalho foi declarado como produzido com IA generativa.
O trabalho é The Catch, de Jackie Ryan.
Ryan fotografou a comediante australiana Alice Fraser e utilizou o Krea para construir parte do universo visual ao redor dela. Elementos sintéticos, como personagens inspirados em super-heroínas e mulheres dos anos 1950, aparecem dentro de uma espécie de máquina de pegar brinquedos. A pessoa retratada é real; parte do cenário e das personagens ao redor foi gerada artificialmente.
É justamente aí que a discussão fica menos simples.
O prêmio continua aceitando IA. Mas não qualquer IA
O Brisbane Portrait Prize não voltou atrás na decisão de incorporar inteligência artificial.
As regras atuais permitem que IA participe do processo de criação, inclusive na geração de imagens. O artista precisa declarar como utilizou a tecnologia, e essa informação é disponibilizada aos jurados.
Há, porém, limites concretos.
Uma imagem inteiramente criada em ferramentas como Midjourney ou DALL-E não pode ser inscrita. Na competição principal, o artista também precisa ter realizado ao menos uma sessão presencial com a pessoa retratada e manter os direitos autorais sobre o trabalho apresentado.
É uma posição mais delimitada do que a formulação que iniciou a polêmica em 2024, quando as regras anunciadas aceitavam trabalhos realizados “integralmente ou em parte” com IA generativa.
A tecnologia não desapareceu do prêmio. Passou a conviver com exigências de transparência, autoria e contato real com o retratado.
O debate também mudou
Alguns dos artistas que retornaram estão respondendo à presença da IA sem utilizá-la.
Artistas indígenas australianos destacam em seus trabalhos elementos como ancestralidade, território, memória cultural e conhecimento transmitido entre gerações. Birrunga e artistas como Kane Brunjes e Elysia Love-Anderson estão entre os que voltaram à competição este ano.
Isso desloca a discussão.
A pergunta deixa de ser apenas se uma inteligência artificial deveria ou não participar de uma competição artística.
Passa também a ser: o que existe em um trabalho que depende da experiência daquele autor?
Uma ferramenta generativa consegue produzir uma quantidade praticamente ilimitada de soluções visuais. Não consegue, por si só, ter acesso a uma pessoa, construir uma relação com ela, carregar uma história familiar, pertencer a um território ou ter vivido a situação representada.
Isso não encerra a discussão sobre IA. Também não significa que uma obra que utiliza tecnologia seja automaticamente menos autoral. The Catch, por exemplo, parte de uma fotografia realizada pela própria artista e utiliza geração artificial dentro de uma construção visual deliberada.
O que o Brisbane Portrait Prize está mostrando é algo mais útil do que uma nova rodada de “IA contra fotógrafos”.
Quando a execução visual se torna mais abundante, outras partes do trabalho ficam mais visíveis.
Acesso. Contexto. Relação com o fotografado. Repertório. Experiência vivida. Escolha. Intenção.
Para fotógrafos profissionais, talvez esteja aí uma discussão comercial tão importante quanto a artística.
Se duas imagens conseguem alcançar resultados visualmente impressionantes, a diferença de valor não precisa estar apenas na aparência final.
Pode estar em quem conseguiu produzir aquela imagem, por que conseguiu fazê-la e o que precisou acontecer no mundo real para ela existir.
O Brisbane Portrait Prize 2026 abre sua exposição ao público em 19 de setembro, na State Library of Queensland. O prêmio principal é de 50 mil dólares australianos e há uma categoria de fotografia e arte digital de 10 mil dólares australianos.
No Essencial, acompanho esse tipo de movimento olhando menos para a disputa “IA versus fotografia” e mais para o que essas mudanças significam para posicionamento, serviços e valor percebido de quem vive da imagem.



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