Ficou pronto em minutos. Só falta decidir se ficou bom.
A discussão sobre “taste” na era da IA tem relação direta com a fotografia, da escolha de uma imagem à direção de um negócio.

Recentemente, enquanto preparava uma publicação sobre negócios na fotografia, gerei algumas opções de capa com IA. O título estava aplicado, a composição funcionava e as imagens tinham acabamento. Mesmo assim, rejeitei as primeiras versões.
Uma trazia uma modelo com aparência artificial. Outra parecia uma fotografia genérica de banco de imagens. As peças estavam prontas, mas eu não queria apresentar meu conteúdo daquela maneira.
Foi preciso identificar o incômodo, rever a proposta e escolher outro caminho. Quem trabalha com fotografia provavelmente reconhece esse processo. Uma imagem pode estar tecnicamente correta e ainda assim não servir ao trabalho.
Essa diferença entre produzir e avaliar está no centro de uma discussão que ganhou força no ambiente de tecnologia e criação: o valor do taste.
O que estão chamando de “taste”
Em fevereiro, o empreendedor e investidor Paul Graham escreveu que o gosto ganharia importância na era da IA. Seu argumento era que, com a ampliação da capacidade de produzir, a escolha do que fazer se tornaria um diferencial. A observação retoma um tema que ele já abordava em seu ensaio Taste for Makers, publicado em 2002.
Traduzir taste apenas como “bom gosto” deixa parte da discussão de fora. A expressão pode soar como preferência por uma estética sofisticada, quando o que interessa aqui é a capacidade de avaliar: perceber o que funciona, reconhecer uma solução genérica, selecionar referências e justificar uma escolha.
Esse critério se desenvolve com repertório, prática, observação e contato com as consequências do próprio trabalho. Também exige disposição para revisar preferências. Gostar de uma imagem é uma informação; entender se ela atende ao projeto exige outras perguntas.
A IA acelerou a produção de textos, imagens, apresentações e propostas. Conseguimos comparar mais alternativas em menos tempo. Mas uma apresentação bem acabada ainda pode sustentar uma ideia fraca. Um planejamento detalhado pode ignorar a rotina de quem vai executá-lo. Uma fotografia impressionante pode comunicar algo diferente do que o cliente precisava.

Na fotografia, essa escolha já faz parte do trabalho
O fotógrafo exerce esse julgamento quando decide onde posicionar alguém, o que deixar fora do enquadramento, até onde levar o tratamento e quais imagens entregar.
Na edição de um ensaio, nem sempre a fotografia mais chamativa merece abrir a sequência. Uma imagem discreta pode apresentar melhor a pessoa, estabelecer o ambiente ou dar sentido ao que vem depois. A qualidade do conjunto depende dessas relações.
No portfólio, a decisão também tem efeito comercial. Imagine um profissional que queira desenvolver retratos para empresas, mas mantenha sua apresentação quase toda dedicada aos eventos que fotografou nos últimos anos. As imagens podem ser excelentes. Ainda assim, o possível cliente terá de fazer sozinho a ligação entre aquele trabalho e a necessidade de sua empresa.
Escolher o que mostrar envolve reconhecer qualidade e compreender o que aquela seleção comunica. Também envolve deixar de destacar trabalhos dos quais gostamos, quando eles já não representam a direção que queremos desenvolver.
A experiência ajuda, mas não resolve automaticamente essa leitura. Quem tem muitos anos de profissão também acumula hábitos, referências e vínculos com trabalhos que foram importantes em outro momento.
O gosto do fotógrafo encontra a necessidade do cliente
Há um cuidado necessário nessa discussão: tratar o próprio gosto como medida universal de qualidade.
Uma linguagem contida pode funcionar para uma marca e ser inadequada para outra. Uma edição que impressiona colegas pode não representar bem a pessoa fotografada. Preferências estéticas precisam conversar com intenção, contexto e público.
Também seria precipitado transformar taste em uma garantia de proteção contra a IA. As ferramentas continuam evoluindo, inclusive na seleção e no refinamento das respostas. O valor profissional precisa aparecer nas escolhas feitas e na contribuição que elas trazem ao trabalho.
Para o cliente, isso se torna concreto quando o fotógrafo entende o uso das imagens, propõe uma direção coerente, conduz a produção e entrega um conjunto que atende à necessidade. A técnica participa de todo esse processo. O critério orienta sua aplicação.
Essa discussão chega ao negócio
Ao considerar um novo serviço, o fotógrafo encontra um problema semelhante. Hoje é rápido produzir um nome, uma identidade visual, uma apresentação e uma sequência de posts para lançar uma oferta.
Essa facilidade dá forma à ideia, mas ainda deixa decisões importantes em aberto: quem precisa do serviço, por que contrataria aquele profissional, quanto trabalho a entrega exige e como chegar aos primeiros clientes.
Um fotógrafo pode ter interesse e repertório para atuar em três frentes. Escolher qual testar primeiro exige avaliar os contatos que já possui, os sinais de procura, a estrutura disponível e o tipo de trabalho que deseja desenvolver.
Seu gosto participa dessa decisão, mas não comprova demanda. Da mesma forma, uma oportunidade comercial precisa ser examinada à luz da capacidade de entrega e dos objetivos do profissional.
É nesse encontro que a discussão sobre taste se torna especialmente útil: quando o repertório ajuda a formular uma proposta e o contato com a realidade permite ajustá-la.
O que suas escolhas mostram hoje?
Um exercício simples é rever as primeiras imagens do seu portfólio e a descrição do seu principal serviço. Observe que tipo de cliente esse conjunto parece atender, quais qualidades do seu trabalho ficam evidentes e o que alguém precisaria perguntar para compreender sua proposta.
Depois, compare essa leitura com o trabalho que você quer receber nos próximos meses. A distância entre as duas coisas merece atenção.
Talvez exista uma capacidade importante pouco visível. Talvez a apresentação tenha ficado presa a uma fase anterior. Ou você esteja acrescentando serviços sem decidir como eles se relacionam.
A produção mais rápida torna essas revisões mais acessíveis. O critério ajuda a definir o que precisa ser revisto e por qual motivo.
No Mapa R.U.M.O., analiso trajetória, posicionamento e possibilidades de negócio junto com o momento e os objetivos do profissional.
Se o trabalho que você apresenta hoje já não representa bem o que sabe ou o que quer fazer, me conte no WhatsApp o que está tentando mudar. A partir dessa conversa, avaliamos se o Mapa faz sentido para o seu momento.



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