Prêmio de Fotografia do CNPq mostra como a imagem aproxima ciência, arte e público
- 28 de mai.
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Vencedores da edição 2026 revelam a força da fotografia como linguagem para divulgar pesquisa, biodiversidade, tecnologia e inovação brasileira

A fotografia sempre teve uma relação íntima com a ciência. Ela registra, amplia, revela, compara, documenta e, muitas vezes, torna visível o que passaria despercebido. Na edição 2026 do Prêmio de Fotografia Ciência & Arte do CNPq, essa relação aparece de forma direta: imagens de natureza, processos fotográficos alternativos, microscopia, biometria neonatal e estudos sobre peçonhas mostram como a pesquisa brasileira também pode ser lida pelo olhar.
Os vencedores deste ano serão premiados durante a Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, a SBPC, que acontece entre 26 de julho e 1º de agosto, na Universidade Federal Fluminense, em Niterói. A premiação reconhece trabalhos que ajudam a aproximar a produção científica do público, transformando investigações acadêmicas em imagens capazes de circular para além dos laboratórios, universidades e grupos especializados.

Na categoria de imagens produzidas por câmeras fotográficas, o primeiro lugar ficou com Ediego de Sousa Batista, estudante de Ciências Biológicas e Conservação da Universidade Federal do Oeste do Pará. Sua imagem, “A noite da caçadora”, registra uma aranha-pescadora capturando um girino na região de Oriximiná, no Pará. O flagrante chama atenção não apenas pela força visual, mas pelo que revela sobre a biodiversidade amazônica e sobre interações ecológicas que acontecem em ambientes pequenos, frágeis e pouco observados.

O segundo lugar foi para Nathaly Cristina Lopes, com uma imagem criada por fitotipia, processo que usa a ação da luz solar sobre superfícies vegetais. A obra mostra o Theatro Municipal de São Paulo impresso sobre uma folha de Philodendron imbé. O trabalho, desenvolvido em seu curso de graduação em fotografia no Centro Universitário Senac, investiga suportes naturais, processos fotossensíveis e a relação entre imagem, botânica e transformação da matéria.

O terceiro colocado foi Danilo Estevam dos Santos, mestrando em Ciências Ambientais na Universidade Federal de São Carlos, com a foto “Sorriso na cara do perigo”. Seu trabalho se conecta à pesquisa sobre ecologia de comunidades de morcegos, conservação, fauna silvestre e gestão ambiental.

Na categoria de imagens produzidas por instrumentos especiais, o primeiro lugar foi para Ingrid Augusto, professora do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho da UFRJ. Sua imagem mostra formas epimastigotas de Trypanosoma cruzi, agente causador da doença de Chagas, produzidas a partir de criomicroscopia eletrônica de varredura em alta resolução. A imagem foi colorizada artificialmente, preservando os dados microscópicos, para aproximar a complexidade de um patógeno microscópico de uma leitura mais acessível e visualmente impactante.

O segundo lugar ficou com Luiz Fernando Southier, pesquisador da Universidade Tecnológica Federal do Paraná. A imagem premiada apresenta um modelo preditivo para projeção de impressões digitais neonatais até a vida adulta, desenvolvido pelo grupo de pesquisa em biometria neonatal da UTFPR. O projeto busca contribuir para a identificação civil segura desde o nascimento, com aplicações em maternidades, documentos, segurança pública, proteção infantil e políticas públicas.

O terceiro lugar foi para Jéssica Araújo Marques, doutoranda em Doenças Tropicais e Infecciosas pela Universidade do Estado do Amazonas. Sua imagem mostra o cefalotórax de um escorpião da espécie Microtityus vanzolinii, dentro de um estudo sobre escorpiões da Amazônia brasileira, acidentes escorpiônicos, ecologia urbana e potencial biotecnológico de toxinas.
O conjunto dos trabalhos premiados mostra uma fotografia que não está restrita ao campo artístico ou documental tradicional. Aqui, a imagem é também instrumento de pesquisa, evidência, tradução visual e convite à curiosidade. Algumas fotos nascem no campo, diante de uma cena rara da biodiversidade. Outras surgem em laboratório, mediadas por equipamentos sofisticados, softwares, microscópios e processos técnicos. Outras ainda ocupam um território híbrido entre arte, ciência e experimentação material.
Esse talvez seja o ponto mais interessante da premiação: a fotografia aparece como linguagem comum entre mundos que costumam ficar separados. Ela permite que uma pessoa sem formação científica se interesse por um parasito, por uma folha fotossensível, por uma digital neonatal, por um escorpião amazônico ou por uma cena noturna de predação. A imagem não substitui a pesquisa, mas abre uma porta de entrada para ela.
Também há um recado importante sobre o Brasil. Os trabalhos premiados vêm de diferentes regiões, universidades e áreas de conhecimento. Há Amazônia, São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Amazonas. Há graduação, mestrado, doutorado, pesquisa aplicada, ciência básica, tecnologia e experimentação artística. Em um momento em que a imagem circula em velocidade extrema e muitas vezes perde contexto, iniciativas como essa mostram outro uso possível da fotografia: criar vínculo entre conhecimento, território e sociedade.
A fotografia científica não precisa ser fria. Pode ser precisa e sensível ao mesmo tempo. Pode documentar um fenômeno e, ainda assim, despertar espanto. Pode nascer de uma pesquisa altamente técnica e chegar ao público como experiência visual. O Prêmio de Fotografia Ciência & Arte do CNPq reforça justamente isso: quando bem usada, a imagem não simplifica a ciência. Ela aproxima.
A fotografia também se fortalece quando é pensada como cultura, ciência, mercado e linguagem.
Na Fotograf.IA + C.E.Foto, esse tipo de leitura continua com mais profundidade para quem vive da imagem. Conheça a comunidade.



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