Momento R.U.M.O. | A foto que vira figurinha vale mais do que a foto que fica no celular
- há 1 dia
- 4 min de leitura
A saída da Panini da Copa depois de 2030, a força dos álbuns personalizados e a escala das figurinhas mostram algo que interessa diretamente aos fotógrafos: imagem impressa volta a ter valor quando organiza uma história que o cliente quer viver de novo.

A foto parecia ter perdido o papel. Foi para o celular, nuvem, feed, para a pasta que quase ninguém revisita. Mas, enquanto isso, uma das maiores febres visuais do mundo contina funcionando com papel, adesivo, álbum, troca, repetida, raridade e coleção.
A figurinha da Copa mostra algo simples: a imagem impressa ainda tem força quando deixa de ser registro e vira experiência. Não é só uma foto colada no papel. É jogo, memória, pertencimento e história compartilhada.
É por isso que o assunto interessa à fotografia. A Panini foi além da "venda retratos de jogadores" por mais de cinco décadas. Na verdade, ela vende a sensação de procurar, completar, trocar, guardar e participar de uma conversa coletiva. A imagem era importante, mas o sistema em volta dela era o que transformava o papel em desejo. Aliás, o ritual de trocar e completar aos poucos é parte do charme...

A edição de 2026 é a maior da história, com 980 figurinhas, 48 seleções e 112 páginas. No Brasil, a Vitrola Editora e Distribuidora, empresa de Frederico Westphalen responsável por 15% das vendas da Panini, encomendou sozinha 50 milhões de envelopes, o equivalente a 350 milhões de figurinhas, além de 1,6 milhão de álbuns. Esse é apenas o recorte de uma distribuidora regional.
Não sei você, mas na minha visão é um pedido com potencial de 350 milhões de fotos vendidas...
Em maio deste ano, a Fifa anunciou que a partir de 2031 a Fanatics, dona da Topps, assumirá os colecionáveis oficiais das Copas, encerrando a parceria com a Panini que existe desde 1970, com exceção apenas de 1994. A Panini segue até 2030. O novo contrato não é apenas uma troca de fornecedor. É uma sofisticação do mercado: a Fanatics prometeu cards com patches retirados das camisas dos jogadores durante a própria Copa, autenticados e inseridos nos colecionáveis. A imagem deixa de ser retrato e passa a carregar rastro físico do momento real.
O mercado não está abandonando o objeto impresso. Está tornando o objeto mais denso.
Enquanto isso, em escala completamente diferente, o mesmo impulso aparece em iniciativas menores neste ciclo de Copa. Kits personalizados para casais, ensaios temáticos de pais e filhos, álbuns afetivos inspirados na estética das figurinhas e lembranças adesivas mostram que a lógica da coleção não pertence apenas ao futebol profissional. Ela pode ser aplicada a histórias pessoais, familiares, escolares e comunitárias.
Em 2022, uma professora de arte de Joinville criou um álbum da Copa com fotos adesivas de cada aluno do quarto ano como atividade sobre autorretrato. Crianças que tinham vergonha da própria imagem puderam se ver dentro de um objeto valorizado pelo grupo. A figurinha deu status à foto.
Esse detalhe é essencial.
O ponto mais importante para fotógrafos não é aprender a fazer figurinha. É entender que o valor não aparece ao transformar qualquer foto em adesivo. Isso vira efeito visual, facilmente copiado, facilmente descartado. O valor aparece quando existe uma história que merece ser colecionada.
A Copa funciona porque já vem carregada de narrativa. Há times, expectativa, torcida, raridade, troca, comparação e memória coletiva. Marcas entenderam isso no passado e conseguiram criar álbuns fora do calendário do futebol porque não vendiam adesivos. Vendiam mundos organizados em páginas: personagens, fases, conquistas, símbolos e pequenas recompensas. A coleção funcionava porque havia uma história com começo, meio e a promessa de fim.
Para a fotografia profissional, a oportunidade está em adaptar essa lógica a momentos em que a vida do cliente também tem enredo. Uma infância, uma turma escolar, uma festa de 15 anos, um casamento, uma temporada esportiva, uma equipe de empresa, uma família que se reúne uma vez por ano, um evento local, uma comunidade.
O álbum personalizado funciona quando a pessoa entende que aquela história não está sendo apenas registrada. Está sendo transformada em uma coleção única, interativa e surpreendente.
Não se trata de oferecer figurinhas personalizadas como mais um produto no cardápio. A oportunidade está em desenhar uma experiência. Em uma festa infantil, o álbum pode transformar os convidados em personagens daquele dia. Em uma escola, pode criar uma memória de turma que as crianças completam juntas. Em um casamento, pode organizar padrinhos, pais, bastidores e momentos inesperados como capítulos afetivos. Em uma escolinha de futebol, pode dar aos alunos a sensação de participar de uma temporada oficial. Em uma empresa, pode transformar uma convenção em memória de equipe.
Quando há história, a figurinha deixa de ser brinde. Vira objeto de pertencimento.
A pergunta, então, não é como vender mais impressão. É que tipo de história do cliente ainda não está sendo transformada em objeto de desejo.

A fotografia perdeu força quando virou arquivo demais. A figurinha mostra o movimento contrário. Ela pega uma imagem simples e a coloca dentro de um ritual. O valor não está só na qualidade da foto, nem no acabamento do papel. Está na forma como aquela imagem passa a circular entre as pessoas.
No Mapa R.U.M.O., é esse tipo de leitura que eu faço aplicada ao negócio real de cada fotógrafo: onde está o valor percebido, o que o cliente enxerga antes do preço e quais oportunidades podem estar escondidas no próprio trabalho. Se você sente que sua fotografia precisa ser lida com mais distância estratégica, o próximo passo está em enfbyleosaldanha.com/mapa-rumo-2026.




Comentários