A foto que me marcou, 25 anos depois: a fotografia, a memória e quem ficou
A imagem de Richard Drew volta ao noticiário no aniversário do 11 de Setembro, acompanhada por relatos familiares e uma discussão que atravessa o jornalismo, a literatura e o cinema.

Tenho dificuldade de olhar para a fotografia conhecida como Homem em Queda. Passaram-se 25 anos, mas o desconforto permanece. Neste aniversário do 11 de Setembro, decidi escrever sobre sua história sem reproduzir a imagem.
O registro feito por Richard Drew, da Associated Press, mostra um homem caindo da Torre Norte do World Trade Center em 11 de setembro de 2001. Publicado na imprensa no dia seguinte, provocou reações de leitores e passou a aparecer com menos frequência nos jornais. Sua importância documental permaneceu, assim como a dificuldade de encará-lo. A TIME recuperou essa trajetória em uma retrospectiva sobre a fotografia.
Nesta sexta-feira, 11 de setembro de 2026, novas reportagens retomaram a busca pela identidade do homem e o sofrimento provocado por essa investigação. Parte dessa cobertura recupera um mesmo relato de Gwen Briley-Strand ao jornal britânico Daily Mail.
Ela é irmã de Jonathan Briley, profissional de som do restaurante Windows on the World, apontado como uma possível identidade do homem fotografado. A hipótese continua sem confirmação definitiva, como registra a matéria publicada hoje pelo iG.
Por isso, o retorno da fotografia às manchetes exige cuidado. A repetição de uma hipótese ao longo dos anos não a transforma em certeza.
A investigação passou por outros nomes, incluindo o de Norberto Hernandez, também funcionário do restaurante. Comparações de roupas, características físicas e diferentes quadros da sequência feita por Drew alimentaram a procura. As famílias tiveram de lidar com perguntas sobre seus parentes enquanto enfrentavam a perda. A reportagem do Terra reconstitui esse percurso e suas consequências.
No relato de Gwen, há uma lembrança que merece espaço. Pouco antes dos atentados, Jonathan participou de uma viagem com ela e o marido à Flórida. Os três tomavam café e observavam o nascer do sol perto do oceano. Ela também recorda o interesse do irmão por música e tecnologia. Hoje, prefere não ficar olhando para a fotografia associada a ele. Essas lembranças, recuperadas pelo iG, devolvem à conversa uma vida que existia antes daquela manhã.
A procura por uma identidade tem valor humano e jornalístico. Pode recuperar histórias, relações e trajetórias. Também exige reconhecer os limites da apuração e a disposição de cada família para participar dela. O interesse público por uma imagem não elimina a intimidade de quem perdeu alguém.
Essa tensão chegou ao documentário 9/11: The Falling Man, de Henry Singer, lançado em 2006. O filme aborda a fotografia, sua recepção e a busca pelo homem retratado. Em entrevista ao Design Observer, o diretor discute o trabalho de voltar a uma imagem que parte do público preferia afastar da memória.

Na literatura, Homem em queda, de Don DeLillo, publicado em 2007, acompanha os efeitos dos atentados na vida de um sobrevivente e de sua família. O romance inclui um artista que realiza performances de quedas em espaços públicos, expondo o desconforto provocado pela transformação do trauma em representação. A apresentação e o guia de leitura da editora ajudam a situar essa relação.

Há ainda Tão Forte e Tão Perto, romance de Jonathan Safran Foer que ganhou uma adaptação cinematográfica com Tom Hanks e Sandra Bullock. A narrativa acompanha um menino que perdeu o pai nos atentados e tenta encontrar sentido em sua ausência. A relação entre o livro e o filme foi examinada pela The New Yorker.
Aqui, uma distinção importa: essa obra não adapta a biografia do homem fotografado por Drew. O romance utiliza uma imagem de outro fotógrafo, Lyle Owerko, em uma sequência final que inverte visualmente a queda. O recurso aproxima a fotografia do desejo impossível de desfazer a perda, como analisa um estudo publicado na revista acadêmica CoSMo.
O documentário e os romances mostram diferentes tentativas de compreender o que aquelas imagens deixaram. A ficção consegue imaginar experiências e trabalhar a ausência.
Ao jornalismo cabe preservar a distinção entre o que foi documentado, o que foi relatado e o que permanece desconhecido.
Essa responsabilidade começa pela própria leitura da fotografia. Um quadro isolado não revela os pensamentos de uma pessoa nem permite reconstituir todas as circunstâncias de seus últimos instantes. A força visual do registro não autoriza quem o observa a preencher essas lacunas.
Preservar fotografias difíceis é parte do trabalho de memória. Uma história visual da violência que excluísse todo sofrimento também seria incompleta. Cada nova publicação, porém, precisa considerar o contexto e a necessidade de expor novamente quem aparece nela.
Neste texto, escolhi deixar essa decisão com o leitor. A história pode ser contada sem que a fotografia apareça automaticamente na tela. E as lembranças de Gwen oferecem uma contribuição essencial: permitem conhecer Jonathan para além da hipótese que o associou à imagem.
Vinte e cinco anos depois, o aniversário é público. A saudade continua pertencendo a cada família.
Para conhecer a reportagem que motivou esta reflexão: leia a matéria completa no Terra.
Aviso ao leitor: a reportagem do Terra e algumas das fontes citadas contêm a fotografia ou outras imagens relacionadas às quedas, que podem causar forte desconforto.
Acompanhe a Spotlink para mais reportagens sobre fotografia, cultura e memória.



Comentários