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A fotografia está sendo pressionada por três lados ao mesmo tempo

há 6 horas
5 min de leitura

IA entra no Lightroom, pais começam a substituir retratos escolares e um fotógrafo vê imagens virais serem retiradas do ar. Três notícias diferentes ajudam a entender mudanças no trabalho, no valor e no controle da imagem.



Em poucos dias, três notícias aparentemente desconectadas mostraram mudanças em pontos muito diferentes do mercado fotográfico. Uma envolve uma das principais ferramentas usadas por fotógrafos. Outra mostra clientes procurando alternativas ao serviço profissional. A terceira expõe uma questão que pode aparecer depois que uma fotografia já foi produzida e publicada.


O interessante não está em tentar encaixar tudo na discussão simplista sobre a IA substituir ou não fotógrafos. Os três casos mostram pressões diferentes sobre uma cadeia que parecia relativamente estável: produzir a imagem, editar, vender e decidir como ela poderá circular.


Quando editar passa a significar regenerar


A Adobe adicionou ao Lightroom um recurso experimental chamado Prompt to Edit. A novidade permite escrever comandos para modificar uma fotografia usando o modelo Nano Banana 2, do Google.


Adobe
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Não se trata apenas de transformar instruções em ajustes dos controles tradicionais do Lightroom. Segundo a demonstração apresentada pela própria Adobe, ao usar o recurso a fotografia inteira é regenerada. O sistema pode remover elementos, trocar o céu, adicionar neblina, restaurar imagens antigas ou colorizar fotografias em preto e branco.


O original continua preservado e a nova versão é adicionada a uma pilha dentro do Lightroom, podendo depois receber os ajustes tradicionais do programa. Neste momento, o Prompt to Edit está disponível como recurso de acesso antecipado na versão desktop e utiliza créditos generativos da Adobe.


Adobe
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A mudança interessa porque acontece dentro do ambiente de trabalho do fotógrafo. A fotografia generativa não aparece como um aplicativo separado que exige outro fluxo. Ela passa a ocupar o mesmo espaço em que durante anos fotógrafos ajustaram exposição, cor, contraste e enquadramento.


Isso também torna a fronteira entre edição e geração menos evidente. Se uma alteração envolve regenerar a imagem inteira, ainda estamos diante do mesmo tipo de edição que o Lightroom historicamente representou?


Adobe
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Para quem trabalha profissionalmente, a questão não é apenas técnica. Dependendo do segmento, a relação entre fotografia capturada e imagem entregue ao cliente pode precisar ficar cada vez mais explícita.


Quando o cliente percebe que consegue fabricar a própria alternativa


Outra mudança aparece em um mercado bastante tradicional nos Estados Unidos: a fotografia escolar.


Pais estão publicando nas redes sociais maneiras de evitar os pacotes de fotografias vendidos pelas empresas que atendem escolas. Em alguns casos, fazem uma fotografia simples dos filhos em casa e usam ferramentas generativas para transformar a imagem em um retrato com aparência semelhante à tradicional foto escolar.


Uma mãe fotografou os três filhos diante de um fundo simples e pediu ao ChatGPT que mantivesse as crianças iguais, mas transformasse as imagens em fotografias escolares. Outros pais compartilharam experiências semelhantes. A motivação aparece repetidamente nos relatos: preço.


Imagem meramente ilustrativa e sintética
Imagem meramente ilustrativa e sintética

Segundo dados citados pela Fast Company, pacotes de fotografia escolar nos Estados Unidos podem custar entre US$ 25 e US$ 60 em média, enquanto determinados produtos envolvendo apenas uma criança podem chegar a valores maiores.


Aqui aparece uma pressão comercial relevante para a fotografia. O cliente não precisa acreditar que a imagem produzida por IA seja tecnicamente melhor. Basta considerar que ela resolve suficientemente bem uma necessidade pela qual não deseja pagar o preço cobrado.


Existe ainda um segundo comportamento mais delicado. Usuários também publicaram vídeos mostrando ferramentas de IA sendo usadas para retirar marcas d'água das provas produzidas por fotógrafos, tentando obter a imagem profissional sem realizar a compra. Além da discussão ética, a prática pode envolver violação de direitos autorais.


Os dois comportamentos não são equivalentes. Produzir uma fotografia própria e transformá-la é uma coisa. Retirar uma marca d'água de uma fotografia produzida por outra pessoa é outra. Mas os dois mostram como ferramentas generativas começam a interferir em modelos comerciais existentes.


O caso ajuda ainda a entender uma mudança importante na percepção de valor. Quando o produto oferecido parece facilmente reproduzível, o preço deixa de ser comparado apenas ao trabalho de outro fotógrafo. Ele passa a ser comparado também à possibilidade de o próprio cliente fabricar uma alternativa.


Quando fazer a fotografia não encerra a discussão


O terceiro caso não envolve diretamente inteligência artificial.


Um time de futebol americano da Lincoln High School, em Sacramento, decidiu produzir um ensaio em uma unidade local da rede In-N-Out Burger. O fotógrafo Glenn Silva e a equipe conseguiram autorização do gerente da unidade, que chegou a abrir o restaurante mais cedo para que as fotografias fossem realizadas antes do atendimento ao público.


Imagem meramente ilustrativa e sintética
Imagem meramente ilustrativa e sintética

As imagens mostravam os jogadores dentro e fora do restaurante e rapidamente ganharam repercussão nas redes sociais. Segundo a PetaPixel, o conteúdo ultrapassou 600 mil visualizações e recebeu mais de 26 mil curtidas.


Depois da repercussão, a In-N-Out entrou em contato com o fotógrafo e com a escola exigindo a retirada das imagens. A empresa afirmou que o uso de suas instalações, identidade visual, logotipos e outros elementos proprietários não havia recebido autorização corporativa.


Silva tentou obter a aprovação posteriormente e argumentou que havia conseguido autorização do gerente da unidade. Segundo o relato publicado, porém, a empresa informou que esse tipo de produção exigia autorização em nível corporativo e manteve o pedido para retirada das fotografias.


O caso tem particularidades jurídicas e corporativas próprias e não permite concluir que qualquer fotografia realizada dentro de um estabelecimento comercial precise necessariamente de autorização posterior para circular.


Mas ele traz uma questão prática para fotógrafos que trabalham com marcas, espaços privados, eventos e produções destinadas às redes sociais. Conseguir acesso para fotografar e conseguir autorização para determinado tipo de uso podem ser coisas diferentes.


Isso ganha peso em um ambiente no qual uma imagem pode alcançar centenas de milhares de pessoas poucas horas depois de ser publicada.


Ferramenta, preço e controle


As três notícias tratam de situações muito diferentes.


No Lightroom, uma ferramenta tradicional de edição começa a incorporar uma lógica na qual modificar pode significar regenerar.


Na fotografia escolar, alguns consumidores descobrem que conseguem criar sozinhos um produto visual que antes necessariamente comprariam de uma empresa especializada.


No caso da In-N-Out, um ensaio profissional autorizado localmente alcança enorme audiência e acaba esbarrando nas regras corporativas da marca presente nas imagens.


Nenhum desses episódios isoladamente significa o fim de um mercado. Também seria precipitado transformar comportamentos que viralizaram nas redes sociais em evidência de que todos os clientes agirão da mesma maneira.


O que eles mostram é que alguns limites estão ficando menos estáveis.


O que significa editar uma fotografia? O que faz um cliente continuar pagando por um produto visual quando ele consegue fabricar uma versão aceitável sozinho? E quais autorizações um fotógrafo precisa considerar quando imagens produzidas para um contexto específico podem rapidamente ganhar uma circulação muito maior?


A fotografia profissional continua dependendo de luz, direção, repertório, experiência, acesso, confiança e capacidade de resolver problemas. Mas agora esses elementos convivem com ferramentas e comportamentos que mudam também o que acontece depois do clique.


Talvez seja justamente aí que esteja a parte mais interessante dessas três notícias. A transformação atual não acontece somente na câmera ou na geração de imagens por inteligência artificial. Ela também está acontecendo na maneira como imagens são modificadas, compradas, apropriadas, publicadas e valorizadas.


E isso mexe diretamente com o negócio da fotografia.


A expansão dos desafios e possibilidades com a fotografia


Esses movimentos fazem parte do que venho chamando de Fotografia Expandida: um cenário em que imagens reais, híbridas e sintéticas passam a conviver no mesmo mercado e começam a mudar ferramentas, produtos e a percepção de valor do trabalho fotográfico.


No conteúdo exclusivo Fotografia Expandida, organizei essa discussão em dois vídeos e um playbook, com exemplos e aplicações para quem quer entender o que já está mudando e como isso pode entrar no próprio trabalho.


O acesso avulso custa R$ 197. Para membros do Essencial, o Fotografia Expandida já está incluído.


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