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Momento R.U.M.O. - Quando o impresso volta a ter valor em plena era da IA

  • há 20 horas
  • 3 min de leitura

No Japão, a nova força dos zines mostra que papel, fotografia e publicação independente podem ganhar valor justamente porque não se comportam como o digital.



No Japão, uma tendência aparentemente pequena ajuda a explicar algo importante sobre o futuro da fotografia.


Enquanto a indústria editorial tradicional perde força, zines, publicações independentes e impressos autorais estão ganhando espaço entre artistas, fotógrafos, escritores e públicos jovens. A cena chama atenção porque cresce justamente em um momento em que tudo parece caminhar para o digital, para o algoritmo e para a inteligência artificial.


A reportagem da AFP mostra criadores acompanhando a impressão de um ensaio fotográfico em formato de jornal, dentro da gráfica do Kyoto Shimbun. O detalhe é simbólico: uma estrutura criada para um mercado em queda, o jornal impresso, passa a ser usada por artistas em busca de novos formatos de circulação.


O fotógrafo Kazuma Obara resumiu bem a diferença. Para ele, o papel envolve os cinco sentidos. Diferente do celular, que concentra a experiência em uma tela individual e fechada, o impresso pode ser entregue, compartilhado, folheado, guardado e lido junto.


Essa frase deveria interessar a todo fotógrafo.


Porque o problema não é apenas se a fotografia será feita com câmera, smartphone ou IA. A questão mais profunda é: onde essa imagem vai existir?



No feed, ela disputa atenção por segundos. No celular, entra no mesmo fluxo de mensagens, vídeos, prints, anúncios e distrações. No impresso, ela muda de estatuto. Vira objeto. Ocupa espaço. Pode ser tocada. Pode envelhecer. Pode ficar sobre uma mesa, dentro de uma caixa, na estante, na parede ou nas mãos de alguém.


É por isso que a discussão sobre zines no Japão tem tanto a ver com fotografia.


Em um mundo onde a IA consegue gerar imagens cada vez mais convincentes, o valor do real não está apenas na nitidez ou na beleza. Está no vínculo. Está na presença. Está na história de como aquela imagem foi feita, por quem foi feita, para quem foi feita e onde ela passa a viver depois.


A frase de Akihico Mori, parceiro de Obara, é precisa: as pessoas conseguem sentir a paixão do criador quando seguram o trabalho nas mãos. E isso, segundo ele, a IA simplesmente não consegue replicar.


Esse é o ponto.


A IA pode simular textura. Pode imitar papel. Pode gerar uma estética de zine, de filme, de fotografia analógica, de revista independente, de arquivo antigo. Mas ela não substitui completamente o gesto de criar, imprimir, montar, distribuir e entregar algo físico.


Para fotógrafos, essa é uma oportunidade estratégica.


Durante anos, parte do mercado foi empurrada para a lógica da entrega digital: muitas fotos, galerias online, links, pacotes, arquivos em alta resolução. Isso trouxe praticidade, mas também achatou a percepção de valor em muitos segmentos. Quando tudo vira arquivo, tudo parece mais comparável.


O impresso quebra essa lógica.


Um zine de ensaio autoral, uma pequena publicação de família, um jornal de casamento, um livreto de bastidores, uma revista de marca pessoal, um álbum mais experimental, uma caixa com imagens e texto, uma edição limitada de retratos. Tudo isso muda a conversa. Não é apenas entrega. É experiência.


E experiência é mais difícil de comparar por preço.


O crescimento dos zines também mostra outra coisa: nem todo público jovem está interessado apenas em tela. Há uma busca por formatos mais nichados, pessoais e tangíveis. Gente querendo encontrar algo que pareça feito por alguém, e não apenas empurrado por um algoritmo.


Essa leitura importa para quem vive da fotografia.


Talvez o caminho não seja tentar competir com a velocidade da IA. Talvez seja construir camadas que a IA não resolve sozinha: presença, relação, curadoria, materialidade, contexto, autoria e memória.


Não significa abandonar o digital. Seria ingênuo. O digital continua sendo vitrine, distribuição, descoberta e venda. Mas o impresso pode voltar como prova de valor.


A fotografia sempre teve uma relação profunda com o papel. Talvez a novidade agora seja perceber que, na era da imagem infinita, o papel voltou a parecer raro.


E o raro, quando bem apresentado, pode voltar a valer mais.


No Primeiro Desafio R.U.M.O., a conversa começa justamente por esse ponto: como o cliente percebe valor antes de comparar preço. Porque muitas vezes o problema não está na qualidade da fotografia, mas na forma como o trabalho é apresentado, explicado e entregue. Em um mercado cheio de imagens, o fotógrafo que aprende a construir percepção sai da briga mais pobre: a briga por ser apenas mais uma opção.

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