World Press Photo 2026 mostra robô social em casa de repouso e levanta debate sobre cuidado, solidão e tecnologia
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Em cartaz na CAIXA Cultural Rio de Janeiro, a exposição inclui o trabalho de Paula Hornickel sobre Emma, uma robô social testada em uma casa de repouso na Alemanha.

A exposição itinerante World Press Photo 2026, em cartaz na CAIXA Cultural Rio de Janeiro até 28 de junho, traz ao Brasil uma das imagens mais simbólicas do debate atual sobre tecnologia, cuidado e envelhecimento. O trabalho “Emma the Social Robot”, da fotógrafa alemã Paula Hornickel, mostra Waltraud, uma idosa em uma casa de repouso em Albershausen, na Alemanha, conversando com Emma, uma robô social capaz de reconhecer rostos e lembrar conversas anteriores.
A imagem foi premiada na categoria Europe, Singles, do World Press Photo 2026, e se destaca por tratar de um tema que costuma aparecer em discursos tecnológicos de forma abstrata. Aqui, a inteligência artificial e a robótica não aparecem como promessa distante, aplicativo ou interface corporativa. Elas entram em um dos territórios mais sensíveis da vida humana: a solidão, o envelhecimento e a necessidade de companhia.
Segundo a descrição do World Press Photo, Waltraud inicialmente demonstrou ceticismo diante da robô, mas relatou ter sentido conexão com Emma ao longo do tempo. A imagem registra esse encontro de forma silenciosa, sem espetáculo futurista. O que aparece é uma cena íntima, quase doméstica, em que uma tecnologia desenvolvida para interagir com pessoas passa a ocupar parte do espaço normalmente reservado à presença humana.
O projeto ganha relevância em um contexto de pressão sobre os sistemas de cuidado. Lares de idosos em países como a Alemanha enfrentam escassez de profissionais e aumento da solidão entre residentes. Em entrevista ao The Guardian, Hornickel afirmou que os robôs sociais podem funcionar como complemento em determinados contextos, mas não como substituição do cuidado humano. A própria Waltraud, embora tenha criado uma relação com Emma por meio de conversas e piadas, destacou a importância insubstituível do contato com outras pessoas.
Essa tensão é o ponto central da fotografia. Emma não aparece como solução definitiva nem como ameaça caricatural. A imagem mostra algo mais complexo: uma tecnologia sendo testada em uma lacuna real. Se há espaço para uma robô social em uma casa de repouso, talvez a pergunta não seja apenas o que a máquina é capaz de fazer, mas por que esse espaço ficou disponível.
O trabalho de Paula Hornickel faz parte de uma investigação mais ampla sobre encontros entre humanos e robôs no cotidiano alemão. Segundo a WePresent, a fotógrafa começou a desenvolver o projeto no fim de 2023, como trabalho de conclusão na Universidade das Artes de Berlim, observando a presença crescente de robôs em hospitais, casas e outros ambientes sociais.
No caso de “Emma the Social Robot”, o interesse documental está menos na tecnologia em si e mais na reação humana diante dela. A robô reconhece rostos, lembra interações anteriores e participa de conversas simples. Mas o que torna a imagem relevante é a ambiguidade emocional que ela carrega. Há curiosidade, afeto possível, estranhamento e também uma ausência evidente: a ausência de gente suficiente para cuidar, conversar e estar presente.
O World Press Photo 2026 reúne trabalhos selecionados entre 57.376 fotografias inscritas por 3.747 fotógrafos de 141 países. A edição segue o modelo regional adotado pelo concurso, com seis regiões globais e três categorias principais: imagens individuais, reportagens e projetos de longo prazo. A proposta, segundo a organização, é ampliar a diversidade de histórias e narradores reconhecidos pelo prêmio.
A presença do projeto de Hornickel entre os vencedores reforça uma mudança importante no próprio fotojornalismo contemporâneo. Grandes temas globais continuam sendo documentados a partir de conflitos, migrações, crises climáticas e desigualdades sociais. Mas a tecnologia também passa a ocupar o centro da narrativa documental, não apenas como ferramenta de produção de imagem, mas como força que transforma relações, corpos, trabalhos e vínculos.
Nesse sentido, “Emma the Social Robot” interessa porque desloca o debate sobre inteligência artificial para fora do ambiente das empresas de tecnologia. A pergunta deixa de ser apenas o que a IA consegue fazer. Passa a ser onde ela está entrando, quem convive com ela e quais necessidades humanas ela tenta preencher.
A exposição no Rio de Janeiro permite que o público brasileiro veja esse debate a partir da fotografia, e não apenas do discurso tecnológico. Isso faz diferença. Uma imagem documental não explica tudo, mas pode tornar visível uma pergunta que os relatórios e lançamentos de produto muitas vezes suavizam: quando a máquina começa a fazer companhia, estamos diante de uma inovação, de uma adaptação necessária ou de um sintoma social?
A força da fotografia de Paula Hornickel está justamente em não responder de forma simples. Emma pode provocar riso, conversa e algum vínculo. Mas a presença da robô também revela a fragilidade de uma sociedade que envelhece, carece de profissionais de cuidado e tenta usar tecnologia para amenizar vazios que são humanos antes de serem técnicos.
A World Press Photo 2026 fica em cartaz na CAIXA Cultural Rio de Janeiro, Unidade Passeio, até 28 de junho de 2026. A visitação acontece de terça a sábado, das 10h às 20h, e aos domingos e feriados, das 11h às 18h. A entrada é gratuita, com classificação indicativa de 12 anos. A exposição também terá visitas mediadas com Libras e audiodescrição nas imagens, ampliando o acesso ao conteúdo apresentado.
A fotografia documental continua sendo uma das formas mais importantes de entender o impacto real da tecnologia na vida das pessoas. Na Fotograf.IA + C.E.Foto, esse tipo de leitura continua com mais profundidade, conectando imagem, inteligência artificial, comportamento e mercado para quem vive da fotografia.



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