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O valor das fotos ruins (e o que a feiura ainda pode nos ensinar)

A fotografia vive um momento curioso. Nunca foi tão fácil produzir imagens tecnicamente corretas. E ao mesmo tempo, nunca foi tão difícil criar algo que realmente deixe um legado


Um texto recente sobre a importância das fotos ruins me chamou tanta atenção. A ideia parece contraintuitiva em um mercado obcecado por acerto, consistência e resultado. Mas ela toca em algo fundamental: errar não é um desvio do processo criativo. É parte central dele.


Quando falamos em “fotos ruins”, o incômodo começa logo na definição. Ruins para quem? Por quê? Técnica? Composição? Conceito? Ou simplesmente porque não agradam?

A fotografia sempre conviveu com esse desconforto, mas hoje ele é amplificado por métricas, likes, curadoria algorítmica e uma pressão constante para “acertar”. O espaço para o erro diminuiu. E, com ele, o espaço para descoberta.


Existe uma armadilha nisso tudo: confundir bom gosto com maturidade criativa.

Ter bom gosto é relativamente comum. Desenvolvê-lo é parte do consumo cultural. Mas transformar gosto em linguagem própria exige atravessar um território menos confortável, onde as imagens ainda não funcionam, não fecham, nem convencem. Onde algo soa feio, estranho ou simplesmente errado.


Henri Cartier-Bresson dizia que as primeiras dez mil fotos de qualquer fotógrafo são as piores. A frase virou clichê, mas talvez tenha perdido força justamente porque hoje produzimos dez mil imagens rápido demais (então seriam as primeiras 500 mil?). Ou seja, nem é mais a quantidade. Mas sim a disposição para olhar para elas com honestidade.


A feiura como ferramenta

Aqui entra Umberto Eco como provocação necessária.


Eco dedicou um livro inteiro à história da feiura não como oposição moral à beleza, mas como campo estético muito mais fértil. A beleza tende ao consenso. A feiura, não. Ela incomoda, escapa, muda de lugar com o tempo.



O que hoje é feio, amanhã pode ser interessante. O que hoje é interessante, amanhã pode soar previsível. A estética não é fixa. Ela responde a contexto, cultura, saturação.


Na fotografia, isso é ainda mais evidente. Muitas imagens que hoje parecem óbvias já foram consideradas erradas, mal enquadradas, imperfeitas. O erro técnico de ontem vira assinatura estética amanhã. O problema é que, quando isso acontece, o mercado corre atrás e transforma o desvio em fórmula.


A feiura, quando institucionalizada, perde força. Mas enquanto está viva, ela ensina.


Ela obriga o fotógrafo a perguntar:


por que isso me incomoda?

o que exatamente não funciona aqui?

é um erro ou é apenas algo que ainda não sei nomear?


Essa autoanálise é rara. E é justamente aí que mora a evolução.


A provocação...

Umberto Eco dizia algo incômodo para quem busca conforto estético: a feiura é mais divertida que a beleza. Não porque ela seja melhor, mas porque ela não obedece a regras fixas. A beleza, quando reconhecida, tende ao consenso. A feiura, não. Ela espanta, provoca riso nervoso, rejeição ou curiosidade. E, justamente por isso, obriga o olhar a trabalhar.


Eco não tratava a feiura como defeito moral, mas como campo de experimentação. Ela serve para nos espantarmos com os outros, com o mundo e, talvez o mais difícil, conosco mesmos. O choque não paralisa. Ele desestabiliza. E dessa instabilidade pode surgir evolução.


Na fotografia, esse choque acontece quando uma imagem não se comporta como esperado. Quando ela falha tecnicamente, mas acerta em tensão. Quando é estranha demais para ser bonita e desconfortável demais para ser ignorada. Essas imagens raramente agradam de imediato. Mas ensinam.


A feiura, nesse sentido, não é algo a ser evitado a todo custo. Ela pode ser usada como instrumento de autoanálise. O que exatamente me incomoda aqui? É um erro ou é apenas algo que ainda não sei nomear? Estou rejeitando a imagem porque ela falhou ou porque ela ameaça um padrão confortável que eu mesmo construí?



Eco lembrava que o feio de hoje pode ser o belo de amanhã. Na fotografia, isso costuma ser ainda mais literal. Estéticas nascem como desvios, são rejeitadas, depois assimiladas e, por fim, esvaziadas. O erro vira linguagem. A linguagem vira fórmula. E o ciclo recomeça.


Talvez por isso as fotos ruins importem mais do que parecem. Elas não servem para serem mostradas, mas para serem confrontadas. Para provocar perguntas antes de respostas. Para gerar atrito antes de aplauso.


Esse tipo de autoanálise estética e de leitura crítica do próprio trabalho é algo que raramente cabe em posts ou tutoriais. É justamente esse espaço de reflexão que vem sendo trabalhado de forma contínua dentro da comunidade Fotograf.IA + C.E.Foto, onde fotografia, estética e decisões de posicionamento são discutidas sem fórmulas prontas.


O risco da fotografia “bonita demais”

Vivemos um momento em que a fotografia bonita se tornou abundante. Exposição correta, cores agradáveis, enquadramento seguro, edição limpa. Nada disso é errado. O problema começa quando isso vira limite.


A fotografia excessivamente correta costuma ser inofensiva. Ela não provoca rejeição, mas também não provoca reflexão. Passa. Some. Se dilui no fluxo.


Fotos ruins, por outro lado, permanecem mais tempo na cabeça. Nem sempre pelo motivo certo. Mas permanecem. E é nesse atrito que algo pode nascer.


Produzir imagens que não funcionam é sinal de movimento. Produzir apenas imagens “aceitáveis” pode ser sinal de estagnação. O desconforto estético costuma ser mais honesto do que o aplauso rápido.


Eco dizia que a feiura é mais interessante porque não conhece limites. Talvez o mesmo valha para a fotografia que ainda não encontrou sua forma final.


Errar como prática consciente

Nada disso é um elogio à negligência ou ao descuido. Não se trata de romantizar o erro. Trata-se de permitir-se errar conscientemente, como parte do processo.


Olhar para o próprio trabalho e reconhecer o que é fraco, confuso ou mal resolvido exige mais maturidade do que exibir apenas o que funciona. É mais confortável culpar o algoritmo, o mercado ou o público do que encarar a própria repetição.


A fotografia evolui menos quando busca aplauso e mais quando aceita fricção.


Talvez valha revisitar imagens que você nunca mostrou. Projetos abandonados. Ensaios que deram errado. Não para publicá-los, mas para entendê-los. A feiura, nesse caso, não é fim. É ferramenta.


No fundo, beleza e feiura nunca foram opostos absolutos. São estados temporários dentro de um processo maior. A estética muda. O olhar amadurece. O que permanece é a disposição de continuar olhando, inclusive para aquilo que preferimos esconder.


Essas questões sobre estética, erro, padrão e repetição também estão no centro do encontro presencial Fotografia Humana em Tempos de IA, no dia 25 de fevereiro, com uma conversa direta sobre imagem, escolhas criativas e decisões práticas para quem vive da fotografia.


 
 
 

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