Frame IA: turismo cria selo contra imagens de IA enquanto arte digital ganha espaço em feira internacional
- há 5 horas
- 3 min de leitura
Campanha do Tennessee (EUA) promete certificar fotos reais usadas no turismo, enquanto Trevor Paglen defende que a arte digital faz parte da história da arte contemporânea. Os dois casos mostram como a IA está reorganizando a confiança, a circulação e o valor das imagens.

O Departamento de Desenvolvimento Turístico do Tennessee lançou a campanha “Yeah, It’s Real”, uma iniciativa para certificar que as fotos usadas no site oficial de turismo do estado não foram geradas por inteligência artificial. A proposta é oferecer aos viajantes uma forma de verificar que as imagens representam lugares reais, registrados por fotógrafos reais.
A campanha surge em um momento em que imagens sintéticas começam a afetar também a escolha de destinos turísticos. Uma pesquisa da Talker Research, encomendada pelo Tennessee Department of Tourist Development, ouviu 2 mil adultos americanos e apontou que apenas 5% conseguiram identificar corretamente fotos reais de destinos em testes comparativos com imagens geradas por IA. O mesmo levantamento indicou que 74% dos viajantes não reservariam uma viagem sem antes ver imagens do local.

Segundo o material divulgado pelo turismo do Tennessee, a certificação inclui credenciais de conteúdo e metadados seguros para informar onde, quando e por quem a imagem foi capturada. A iniciativa também prevê a aplicação do selo em fotos novas e já existentes no site oficial TNVacation.com.

A promessa da campanha é simples: quando o visitante vê uma imagem oficial do Tennessee, ela deve corresponder a um lugar real. A diferença em relação a uma edição tradicional também aparece no discurso da campanha. O problema não está em ajustes de cor ou contraste, mas no uso de imagens geradas por IA para representar elementos que não existem naquele local, como montanhas, paisagens ou cenários inventados.
Em outra frente da discussão sobre imagem e inteligência artificial, o artista Trevor Paglen voltou ao debate com o livro How to See Like a Machine e com sua atuação como co-curador de Zero 10, iniciativa dedicada à arte digital na Art Basel. Em entrevista à SLEEK, Paglen afirmou que a exposição parte da ideia de que “a maior parte da arte hoje é arte digital”, embora instituições, galerias e curadores ainda tratem essa categoria como separada da arte contemporânea.

Paglen argumenta que o digital não nasceu com o boom dos NFTs nem deve ser visto apenas como uma categoria recente do mercado. Para ele, há uma história mais longa de artistas que trabalham com sistemas, computação, imagem técnica e formas algorítmicas de produção visual. A página da Art Basel sobre Zero 10 apresenta Paglen como artista e pesquisador voltado às infraestruturas invisíveis da vida contemporânea, incluindo IA, vigilância e redes de dados.
Os dois casos não tratam da mesma coisa, mas apontam para uma mudança comum. No turismo, a imagem precisa provar que é real. Na arte, o digital deixa de ser margem e passa a ser incorporado como parte da produção contemporânea. Em ambos os casos, a IA desloca a pergunta central: não basta mais saber se uma imagem é bonita, eficiente ou impactante. Também é preciso saber como ela foi produzida, o que ela representa e qual confiança ela pede do público.
Para fotógrafos, a discussão aparece em dois níveis. O primeiro é documental e comercial: quando uma imagem vende uma experiência real, como uma viagem, um hotel, uma paisagem ou um destino, a origem da fotografia passa a fazer parte da promessa. O segundo é cultural: à medida que a arte digital e a imagem gerada por sistemas entram em instituições, feiras e coleções, a fotografia deixa de disputar apenas estética e passa a disputar contexto, autoria, transparência e uso.
A campanha do Tennessee tenta responder à desconfiança criada pela IA com certificação e metadados. A conversa proposta por Paglen aponta para outra direção: entender que as imagens digitais, inclusive as produzidas em diálogo com máquinas, já fazem parte do ecossistema visual contemporâneo.
Entre o selo “é real” e a frase “a maior parte da arte hoje é digital”, a fotografia fica no centro de uma disputa que deve crescer nos próximos anos.
Fotograf.IA Essencial
No Fotograf.IA Essencial, fotógrafos acompanham as mudanças da inteligência artificial na imagem, no mercado e na comunicação visual, com leitura prática para entender o que afeta o trabalho, a percepção de valor e as oportunidades profissionais.



Comentários