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Um robô está fotografando pessoas na CES. E isso não é o mais importante da história

Na CES 2026 (maior feira de tecnologia do mundo em Las Vegas), um robô equipado com visão e tato humano fotografa visitantes, joga cartas e executa tarefas complexas. O impacto real não está na tecnologia, mas no que ela revela sobre o trabalho humano.



Um robô fotografou visitantes na CES 2026.


Usou uma Fujifilm Instax. O braço se moveu com precisão. O dedo pressionou o botão. A foto saiu. Foi entregue. O robô seguiu para o próximo. Obviamente o "robô fotógrafo" está roubando a cena nas redes sociais, na mídia e em portais de notícias.


Não tremeu. Sem errar enquadramento. Não pediu "mais uma".

Apenas repetiu o processo, idêntico, quantas vezes foi necessário. Robótico.


O robô se chama North. Foi desenvolvido pela Sharpa, empresa de robótica sediada em Singapura. Além de fotografar, ele joga blackjack, constrói cata-ventos de papel em mais de 30 etapas, e joga pingue-pongue com tempo de reação de 0,02 segundos.


A mão robótica que permite tudo isso se chama SharpaWave. São 22 graus de liberdade ativos. Mais de 1.000 sensores táteis em cada ponta de dedo. Precisão de 0,005 N na detecção de força. Controle de aderência em seis dimensões.


A mão sente vendo. Literalmente. Cada dedo tem uma câmera microscópica integrada aos sensores táteis.


North chamou atenção na nesta semana na CES. As demonstrações viralizaram. E a pergunta que apareceu em todo lugar foi previsível: "robôs vão substituir fotógrafos?"



Essa não é a pergunta certa.

O robô da Sharpa não fotografa porque entende fotografia.

Ele fotografa porque capturar imagens virou uma tarefa técnica, replicável, treinável.

E há uma diferença brutal entre capturar e fotografar.


Captura é execução. Fotografia é decisão.

Captura é apertar o botão no momento calculado. Fotografia é saber por que aquele momento importa.

Captura é técnica. Fotografia é leitura de contexto, intenção, relação.


O robô executa com perfeição. Mas não decide nada. Ele foi programado para aquelas tarefas específicas, naquele ambiente controlado, com aquelas variáveis mapeadas.

Mude o contexto, e ele trava.



Hoje é Dia do Fotógrafo.

E talvez esse seja exatamente o momento de olhar para essa cena e entender o que ela realmente está dizendo.


A tecnologia não está ameaçando fotografia. Está expondo o que sempre foi verdade: repetição técnica nunca foi o valor real. O que torna alguém fotógrafo não é dominar exposição, ISO, abertura.


É saber o que fotografar, para quem, por quê, em qual contexto.


É entender narrativa. Relação. Momento. Silêncio.

É decidir não fotografar também.


North não faz nada disso. North executa. E executa perfeitamente. Mas perfeição técnica isolada não cria sentido.


Talvez o Dia do Fotógrafo, em 2026, seja menos sobre domínio técnico e mais sobre outra coisa: a capacidade de decidir.


Janeiro expõe isso.

O início do ano costuma deixar tudo mais visível.

Com menos ruído, menos volume de trabalho, menos urgência inventada, janeiro mostra quem estava sustentando decisões claras e quem estava apenas repetindo movimento.


Não é o mês que pune quem trabalha pouco. É o mês que pune quem decide mal.

E a diferença aparece rápido.


Profissionais que repetem padrões sem questionar ficam vulneráveis quando o padrão se automatiza. Profissionais que decidem com visão estratégica continuam relevantes porque decisão ainda não se terceiriza.


North pode fotografar tecnicamente melhor que 90% das pessoas com câmera na mão. Mas ele não sabe se aquela foto precisa existir. Se aquele ângulo conta a história certa. Se aquele enquadramento cria a relação desejada.


Ele não sabe porque não pode saber. Decisão exige contexto, intenção, risco.


E janeiro é exatamente o momento de rever isso: onde você está executando no automático e onde você está decidindo de verdade?


O deslocamento é sutil, mas relevante.

Ninguém acorda com um robô no lugar. O processo é mais sutil.

Primeiro, tarefas repetitivas se automatizam. Depois, processos inteiros.

Depois, funções que pareciam criativas mas eram apenas técnicas.


O que sobra não é "tudo" nem "nada". O que sobra é a camada onde decisão importa mais que execução.


E fotografia é um caso perfeito disso.


Enquanto fotografar significou dominar técnica, o robô ganha. Quando fotografar significa decidir o que merece ser visto e como, o humano ainda é insubstituível.

Mas isso exige visão sobre onde está o valor real do seu trabalho.


Leitura relacionada

Nesta semana publiquei um texto sobre exatamente isso: como janeiro pune menos quem trabalha pouco e mais quem decide mal.



Esse texto conecta com outro que escrevi sobre como planejar 2026 sem cair em metas vazias. E os dois levam a uma ferramenta que construí justamente para isso: decisões claras antes de volume.


Se você chegou até aqui, talvez valha olhar.

Alicia Veneziani, vice-presidente da Sharpa, explicou em entrevista à Interesting Engineering:


"O robô consegue fazer isso por três razões: o formato similar à mão humana, os milhares de sensores táteis em cada ponta de dedo, e os modelos de IA que integram esse feedback tátil."


A frase é técnica. Mas o que ela está dizendo é simples: o robô sente, adapta, responde.

O que ele não faz é interpretar por que aquilo importa.


Talvez o Dia do Fotógrafo, em 2026, não seja sobre celebrar domínio técnico.

Talvez seja sobre decidir o que ainda exige olhar humano.


Fontes:

  • Sharpa (comunicado oficial, novembro 2025)

  • Interesting Engineering (janeiro 2026)

  • Bloomberg (cobertura CES 2026)

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