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POV | Ponto de Vista: o Brasil que fotografa a si mesmo

  • há 7 horas
  • 8 min de leitura

Leitura estratégica dos movimentos que estão reposicionando a fotografia entre a cultura, o mercado e a tecnologia.


por Leo Saldanha



Esta semana produziu um volume incomum de sinal a partir do Brasil. Fotógrafos paraenses em capas internacionais, acervos inéditos emergindo da obscuridade, memórias de massacre sendo confrontadas com dignidade, e espaços físicos se abrindo em Fortaleza, Belém e no interior do país. No plano técnico, a Leica se move para fabricar seu próprio sensor, e óculos inteligentes da Huawei colocam a câmera de volta no rosto. Aqui está minha leitura.


01 Rafael Pavarotti e o que significa chegar onde chegou saindo de Icoaraci

O fotógrafo paraense Rafael Pavarotti assinou a capa de Confessions II, o novo álbum de Madonna. Natural de Icoaraci, distrito de Belém, ele já tinha no portfólio capas para Beyoncé, Harry Styles e Rihanna, colaborações com Vogue e Elle, e o título de primeiro brasileiro a expor no Louvre no ano passado.


A notícia correu nas redes com o tom esperado: orgulho regional, celebração nacional. E é legítimo celebrar. Mas o que me interessa não é o fato em si, mas o que ele representa como modelo. Pavarotti não foi descoberto pela indústria internacional porque alguém o encontrou. Ele construiu um corpo de trabalho reconhecível em linguagem e qualidade antes de ser chamado. A identidade visual que lhe abre essas portas não nasceu da encomenda, ela veio primeiro.


Para o fotógrafo brasileiro que olha para esse percurso e pensa em carreira, a pergunta relevante não é "como chego onde ele chegou". É: o que estou construindo que só eu poderia ter construído?


02 Angelo Rizzuto e a pergunta que o arquivo levanta

Angelo Rizzuto fotografou as ruas de Manhattan todos os dias entre 1952 e 1964, produzindo dezenas de milhares de imagens que só vieram a público após sua morte. Recluso, ex-aluno de Harvard Law que nunca concluiu os estudos, passou décadas saindo de casa às 14h em ponto com uma câmera. Deixou cerca de 60 mil fotografias, junto com recursos financeiros, para a Biblioteca do Congresso dos EUA, com a instrução de que um livro fosse publicado. O acervo só ficou disponível para pesquisa em 2001.


"Quantos outros Vivian Maiers permanecem sem ser descobertos?" É a pergunta que o arquivo de Rizzuto força a fazer.


A comparação com Maier é óbvia, e o próprio artigo a faz. Mas há uma diferença fundamental: Rizzuto deixou o acervo para uma instituição pública, com instrução de uso. Maier teve sua obra disputada em litígios comerciais. O destino de um arquivo não é apenas questão de legado sentimental. É decisão sobre quem vai controlar o que você fez depois que você não estiver mais aqui para decidir.


Para quem fotografa hoje: onde está o seu arquivo? Em disco rígido? Em nuvem? Em acordos verbais com familiares? Essa é uma pergunta que o mercado fotográfico ainda trata como coisa de velho, quando deveria ser parte de qualquer planejamento de carreira.


03 Eldorado dos Carajás: 30 anos, e o que Ripper chama de "fotografia do bem-querer"

O fotógrafo João Roberto Ripper chegou ao sul do Pará no dia 18 de abril de 1996 com 100 reais no bolso e uma passagem comprada pela sogra. O que ele encontrou lá era o massacre de Eldorado dos Carajás, 21 trabalhadores rurais mortos pela polícia militar. Ripper ficou dez dias documentando corpos, velórios, enterros. Suas fotos serviram como prova pericial em processo contra o Estado do Pará.


Três décadas depois, a Agência Pública publicou uma longa entrevista com ele. O que mais me interessa nela não é o relato do massacre em si, doloroso e necessário, mas o conceito que Ripper usa para nomear sua prática: "fotografia do bem-querer". A ideia de que a câmera deveria ser um elo de dignidade entre quem fotografa e quem é fotografado. Que a imparcialidade é hipocrisia, e que se posicionar não significa inventar, significa escolher mostrar com respeito.


"Fotografe com dignidade, seja na dor ou seja na alegria. O fio condutor tem que ser a dignidade."

Ripper fala para fotógrafos jovens no final da entrevista: insista, não desista, procure ter dignidade nas suas fotos. É uma formulação simples, mas carrega décadas de prática em contextos onde a câmera poderia ter sido usada para desumanizar, e não foi.


04 Um estúdio de foto 3x4 em Oxford Street e o que um arquivo improvável pode revelar

Desde 1953, um estúdio de foto 3x4 na Oxford Street em Londres produziu retratos de passaporte para quem passava perto das embaixadas americanas e canadenses. Muhammad Ali, Madonna, Mick e Bianca Jagger, Sean Connery, Kate Winslet, todos sentaram na mesma cadeira para um retrato funcional. O livro Passport Photo Service: An Unexpected Archive of Celebrity Portraits, publicado pela Phaidon, reúne essa coleção improvável.


A lição de arquivo aqui é diferente da de Rizzuto. Não se trata de um fotógrafo invisível que construiu obra autoral em silêncio. É sobre o que acontece quando um espaço de serviço acumula, ao longo de décadas, uma consistência de presença. A câmera era a mesma, a cadeira era a mesma, o fundo era o mesmo, e o resultado é uma coleção sem equivalente de retratos íntimos de figuras públicas. O que tornaria um portfólio de estúdio de serviço em arquivo histórico? Justamente a consistência e a persistência no tempo.


05 Belém concentra fotografia de alto nível em abril, e isso não é coincidência

A exposição "Trabalhadores", de Sebastião Salgado, abriu no Centro Cultural Banco da Amazônia em Belém no dia 15 de abril, reunindo 150 fotografias produzidas entre 1986 e 1992. Com curadoria de Lélia Wanick Salgado, a mostra vai até 14 de agosto, com entrada gratuita e programação paralela que inclui palestras e oficinas. Entre os destaques do programa, um minicurso sobre fotografia amazônica contemporânea conduzido pela fotógrafa Evna Moura, colocando em diálogo o arquivo histórico de Salgado e a produção atual da região.


A coincidência geográfica aqui é significativa: Belém recebe Salgado, sediou Rafael Pavarotti (que de lá veio), e foi palco do massacre de Eldorado dos Carajás, coberto por Ripper, que lembra seus 30 anos. A fotografia documental que trata do Brasil profundo, do trabalho, da violência e da resistência não é abstração. Ela tem endereço. E em abril de 2026, esse endereço é, em grande parte, o Pará.


06 Fortaleza e o Tocantins: a fotografia como memória territorial

O Museu da Fotografia de Fortaleza abriu a exposição "Fortaleza: Três Séculos de Luz" na Alece, reunindo imagens que documentam 300 anos da capital cearense, desde o primeiro automóvel que chegou à cidade até cenas cotidianas de diferentes épocas. Entrada gratuita, até 5 de junho.


No Tocantins, outro movimento de arquivo: o fotógrafo e documentarista Emerson Silva venceu o Concurso Nacional de Fotografia em Indicações Geográficas com "A Dignidade no Trançado", imagem de uma artesã de capim dourado da Associação Capim Dourado Ponte Alta. O trabalho foi selecionado entre 314 fotos de todo o país. Silva também foi escolhido para a mostra internacional "Imagens Circulantes", organizada pela plataforma ContraLuz, que reúne fotógrafos de nove países da América Latina.


O que esses dois casos têm em comum: fotografia sendo usada para construir e preservar identidade territorial. Fortaleza olhando para si mesma ao longo do tempo. O Jalapão sendo visto com dignidade por quem conhece o que fotografa. Esses são usos da câmera que o mercado fotográfico tende a subestimar, porque raramente geram renda imediata, mas que têm valor cultural acumulativo que transcende qualquer campanha publicitária.


07 Leica + Gpixel: o sensor como posicionamento

A Leica anunciou parceria com a Gpixel, fabricante chinesa de sensores com presença global, para co-desenvolver um sensor de imagem de nova geração. A Leica havia usado sensores Sony off-the-shelf na geração M11 após colaborar com a AMS OSRAM na série M10. A nova parceria sinaliza retorno à estratégia de sensor proprietário.


O que me interessa aqui não é o sensor em si, mas o que essa decisão sinaliza sobre posicionamento. Num mercado dominado por Sony e Canon no campo de sensores, a Leica está escolhendo não ser dependente de componentes genéricos. É uma decisão cara, lenta e arriscada, e é exatamente o tipo de decisão que uma marca que vende diferenciação radical precisa tomar para manter a coerência do que promete.


Há um paralelo possível, guardadas as proporções absurdas de escala, com qualquer fotógrafo que decide recusar certo tipo de trabalho para manter integridade de portfólio. Não é sobre equipamento. É sobre o que você está disposto a não fazer para preservar o que você é.


08 Os prêmios TIPA 2026 e o que os vencedores revelam sobre o momento

A TIPA divulgou os vencedores de seus 40 prêmios anuais de 2026. Os destaques incluem a Fujifilm X-E5 como melhor câmera APS-C (40,2MP, design rangefinder, modos de simulação de filme), a Sony A7V como melhor câmera full-frame expert, a Nikon ZR como melhor câmera cinema compacta avançada, a Leica M EV1 como melhor rangefinder, o Ricoh GR IV como melhor compacta APS-C, e o Samsung Galaxy S26 Ultra como melhor smartphone fotográfico.


Dois sinais que me parecem relevantes nesta lista: a Fujifilm continua ganhando por câmeras que entregam estética antes de entregar especificação bruta. A X-E5 não tem o maior sensor nem a melhor autofocus do mercado, mas tem identidade visual clara e resultado final reconhecível. E o GR IV da Ricoh continua sendo premiado como melhor compacta APS-C, uma câmera sem zoom, sem autofoco em área ampla, sem vídeo chamativo, porque entrega o que promete com precisão absoluta.

Câmeras que sabem o que são tendem a durar mais no mercado do que câmeras que tentam ser tudo.


09 A câmera voltando ao rosto: Huawei e a questão da presença discreta

A Huawei lançou os AI Glasses, óculos inteligentes com câmera integrada e capacidades de IA embarcada. Não são os primeiros óculos com câmera, o Ray-Ban Meta existe há dois anos, mas a Huawei entra com foco em processamento local e funcionalidades que vão além do registro casual. A câmera saindo do bolso e voltando para o rosto é uma tendência que o mercado tem testado em ondas desde o Google Glass, e que cada geração de hardware tenta resolver de forma diferente.


Para o fotógrafo de rua, esse tipo de dispositivo levanta uma questão que vai além da tecnologia: quando a câmera deixa de ser visível, o que muda na dinâmica entre quem fotografa e quem é fotografado? Ripper fala sobre ganhar a confiança de quem fotografa sendo honesto sobre o que está fazendo. Óculos com câmera invisível são o oposto dessa ética.


A semana entregou um padrão que aparece com frequência quando o mercado está em movimento real: a fotografia como ato de presença sendo valorizada justamente quando a tecnologia promete eliminar a necessidade de estar presente. Ripper foi ao Pará com 100 reais porque sabia que o que via precisava ser visto. Rizzuto saiu às 14h todos os dias por décadas porque tinha algo a registrar. O estúdio de Oxford Street acumulou um arquivo improvável porque estava lá, consistentemente, quando as pessoas precisavam de uma foto.

Câmeras melhores, sensores proprietários e óculos inteligentes não resolvem a questão anterior: o que você está presente para documentar?




O que está mudando na fotografia no Brasil hoje?

A fotografia brasileira passa por uma reorganização entre cultura, mercado e tecnologia, com novos polos regionais e mudanças na forma de produzir e consumir imagens.


Qual o papel da fotografia documental atualmente?

Ela segue central para registrar memória, identidade e conflitos sociais, com forte presença em regiões como o Norte do Brasil.


A tecnologia está substituindo o fotógrafo?

Não. Ela amplia possibilidades, mas a presença e o olhar continuam sendo decisivos.


Por que arquivos fotográficos estão ganhando importância?

Porque representam memória cultural e valor histórico acumulado ao longo do tempo.


Quais tendências marcam a fotografia em 2026?

Valorização de identidade visual, descentralização geográfica e integração entre tecnologia e presença física.

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