O que estou lendo: sete histórias que ajudam a entender o momento
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Da feira de fotografia mais importante do mundo ao retorno de uma câmera analógica, uma curadoria sobre mercado, imagem, memória e os caminhos que ainda fazem a fotografia importar.

Há semanas em que a fotografia aparece em tantos lugares ao mesmo tempo que parece impossível não escrever sobre isso. Esta foi uma dessas semanas: uma câmera panorâmica ressuscitada, uma vitória judicial que demorou 13 anos, fotos de neurônios que parecem constelações e a maior feira de fotografia do mundo com sotaque latino. Abaixo, o que eu li, por que me importou e o caminho para você continuar.
A maior feira de fotografia do mundo e a virada latina
A edição de 2026 do Photography Show, promovida pela AIPAD no Park Avenue Armory de Nova York, completou 45 anos com a fotografia latino-americana como fio condutor. Galerias representando artistas da Argentina, do Brasil, da Colômbia e do México assumiram o protagonismo de uma fair que historicamente olhava mais para a Europa e para a costa leste americana. Não é uma tendência menor: arte da região tem tido desempenho expressivo no mercado de leilões, e a AIPAD parece ter percebido que ignorar isso era um erro de cálculo. O que mais me chamou atenção foi a aposta simultânea em legado e descoberta: um novo setor dedicado a apresentações solo de artistas emergentes dividiu espaço com clássicos do século XX. Neste momento em que tanto se discute para onde vai a fotografia com a IA, ver um mercado robusto apostando em impressões físicas e na história do meio é, no mínimo, reconfortante.
70 finalistas e a pergunta de sempre: o que é uma grande fotografia?
Os 70 finalistas do Hasselblad Masters 2026 já estão disponíveis, e percorrer a seleção é um exercício útil sobre o que o mercado de fotografia de alto nível considera excelência hoje. Há imagens tecnicamente impecáveis ao lado de trabalhos que claramente apostam na narrativa acima de qualquer perfeição técnica. O Hasselblad Masters é um dos poucos concursos que ainda tem peso real sobre a visibilidade de um fotógrafo. Vencer não é apenas um prêmio: é uma declaração de posicionamento dentro de um mercado muito específico. Vale olhar os finalistas não só pelo prazer estético, mas pela leitura que eles oferecem sobre o que está sendo valorizado agora.
Quando a câmera vai onde o olho humano não alcança
A Evident Scientific anunciou os vencedores da sua sexta edição do Image of the Year. A grande vencedora foi Katie Holden, do Reino Unido, com "Neuronal Cosmos", uma imagem de neuroesferas derivadas de células-tronco pluripotentes induzidas que organizam estruturas semelhantes às camadas do cérebro humano. A foto tem aparência de nebulosa espacial, e não é coincidência: o padrão em forma de estrela reflete paralelos reais entre astronomia e biologia em escalas radicalmente diferentes. O concurso atraiu participantes de 34 países. O que me interessa nesse tipo de trabalho não é só o espanto estético: é o fato de que essas imagens fazem trabalho científico real e, ao mesmo tempo, constroem uma visualidade que qualquer pessoa consegue apreciar. É talvez o exemplo mais claro de que a fotografia ainda tem territórios completamente inexplorados. petapixel
Fotografar a enchente, dois anos depois
Uma exposição em Pelotas reúne imagens produzidas durante e após a enchente de 2024 no Rio Grande do Sul. Não é a primeira iniciativa do tipo, mas o que diferencia esse recorte é o tempo: não é o choque imediato, é o que resta. Fotografar catástrofes é um problema ético que a fotografia ainda está aprendendo a resolver. O momento do desastre produz imagens poderosas, mas muitas vezes exploratórias. O "depois" exige outra presença, outro contrato com quem é fotografado. As imagens que surgem meses ou anos após a tragédia raramente ganham o mesmo espaço, mas são as que mais duram.
Jeff Bridges, a Widelux e a persistência do analógico
A câmera WideluxX F10 usa filme 35mm e uma lente panorâmica de 26mm f/2.8 que varre a exposição sobre um fotograma de 24 x 58mm, produzindo aproximadamente 21 panoramas por rolo. A câmera é completamente mecânica, fabricada artesanalmente na Alemanha, e está disponível para pré-venda a US$ 4.400 em uma tiragem inicial de 350 unidades. O projeto nasceu quando Jeff Bridges e sua esposa, a fotógrafa Susan Bridges, decidiram não deixar a Widelux desaparecer depois que a fábrica original queimou há mais de duas décadas. O que me fascina aqui não é a nostalgia, é o timing: o analógico está crescendo exatamente no momento em que a IA democratiza a produção de imagens. A WideluxX não compete com isso. Ela propõe outra coisa, outro ritmo, outra relação com o que você está fotografando. PetaPixel
13 anos depois: o STF deu razão a Sérgio Silva
A Primeira Turma do STF decidiu, por unanimidade, que o Estado de São Paulo deve indenizar o fotojornalista Sérgio Silva, que ficou cego do olho esquerdo após ser atingido por uma bala de borracha durante a cobertura de um protesto em 2013. A indenização foi fixada em R$ 100 mil por danos morais, mais uma pensão vitalícia. As instâncias anteriores haviam negado o pedido, com o entendimento de que o fotógrafo havia "assumido riscos ao se colocar entre os manifestantes e a polícia". Essa formulação é perturbadora. Documentar o que acontece em um protesto não é assumir um risco pessoal: é cumprir uma função pública. O STF corrigiu isso, mas 13 anos depois. Sérgio estava em frente ao tribunal horas antes do julgamento, com uma foto em que aparecia cobrindo a prótese que carrega no lugar do olho esquerdo, com a escultura "A Justiça" ao fundo. O relato do que sentiu quando a decisão saiu merece ser lido na íntegra. Brasil de FatoPonte Jornalismo
João Rangel e a fé como matéria fotográfica
O fotógrafo e pesquisador João Rangel percorreu Brasil, Cuba e Paraguai para documentar a devoção mariana latino-americana. O trabalho resultou em uma tese defendida no Programa de Integração da América Latina da USP, com o título "Louvado seja! Marcas de uma religiosidade latino-americana", pioneira no uso da fotografia como discurso narrativo. Para Rangel, a pesquisa carrega parte de quem a produz, porque toda leitura da realidade é mediada pela vida de quem olha. Isso é verdade para qualquer fotógrafo, mas no campo religioso a questão fica ainda mais exposta: é quase impossível fotografar fé com distância clínica. O fato de Rangel ser de Aparecida, berço do maior santuário mariano do mundo, não é um detalhe biográfico menor. É a raiz do projeto inteiro. Vatican News
Antes de ir
Se você leu até aqui, provavelmente pensa em fotografia de forma mais ampla do que só o disparo. O Mapa Rumo é um encontro ao vivo criado para fotógrafos que querem entender e construir o lado negócio da prática. Não é um curso. É uma conversa direta sobre como transformar fotografia em carreira sustentável.



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