O que estou lendo: da câmera que acompanha plantas à indústria interrompida por um terremoto
- 30 de jul.
- 5 min de leitura
Uma redação tentando proteger a confiança nas imagens, uma câmera criada para observar o crescimento de plantas, fábricas evacuadas no Japão e uma agenda brasileira que aproxima fotografia, memória, clima e inteligência artificial.

As notícias que estou lendo hoje mostram uma fotografia avançando em muitas direções ao mesmo tempo. A indústria cria câmeras para usos cada vez mais específicos. Os smartphones se aproximam de linguagens antes associadas ao cinema. Redações tentam verificar se as imagens que recebem ainda podem ser tratadas como documentos confiáveis.
Fabricantes enfrentam a vulnerabilidade de cadeias produtivas concentradas. E, no Brasil, exposições, festivais e encontros recolocam a fotografia dentro de discussões sobre território, memória, crise climática e inteligência artificial. Não existe uma única transformação em curso. Existe um ecossistema inteiro se reorganizando.
Quando uma redação precisa perguntar se a imagem é boa demais para ser verdadeira
Fiona Shields, responsável global pela fotografia do The Guardian, participou de uma conversa pública sobre seleção, encomenda e uso ético de imagens no jornalismo.
Uma das questões centrais foi a dificuldade crescente de verificar conteúdos diante da expansão da inteligência artificial generativa.

A redação depende de fontes confiáveis, processos internos de checagem e avaliação de contexto. Não se trata apenas de detectar defeitos visuais em uma imagem sintética. Quanto mais sofisticados ficam os sistemas, mais a confiança passa a depender da procedência da fotografia e das relações construídas com quem a produziu.
A conversa também trouxe um sinal positivo para fotógrafos. Shields afirmou que o jornal pretende ampliar o jornalismo visual e as encomendas fotográficas, embora precise equilibrar impacto editorial e orçamento.
A fotografia editorial continua sendo pressionada por custo, velocidade e abundância de imagens.
Ao mesmo tempo, justamente por causa disso, pode crescer o valor de profissionais capazes de oferecer origem verificável, repertório, responsabilidade e contexto.
Uma câmera criada para observar aquilo que cresce devagar
A PlantCam é uma pequena câmera desenvolvida especificamente para registrar o
crescimento de plantas.

Ela pode ser fixada em uma janela, produz uma fotografia a cada dez minutos e organiza o material em vídeos de time-lapse pelo aplicativo. O equipamento oferece resolução de 5 megapixels, opções de lente mais aberta ou fechada e recursos de redução de ruído e interpolação de imagens.
É um produto curioso, mas o interesse vai além da jardinagem.
Vale relembrar, as fabricantes tentaram criar câmeras capazes de atender
muitos tipos de usuário. A PlantCam representa uma lógica diferente: desenvolver um dispositivo para uma situação extremamente específica e automatizar todo o processo ao redor dela.
A câmera não exige que o consumidor domine intervalômetros, edição, armazenamento ou correção de variações de luz. Ela transforma uma técnica fotográfica em experiência pronta.
Essa tendência pode aparecer em outros nichos:
acompanhamento de obras, pesquisa científica, documentação de restaurações, produção agrícola, ensino, registro de processos artesanais e conteúdo para marcas.
A oportunidade talvez não esteja apenas em fabricar novas câmeras. Pode estar em criar sistemas que resolvam usos visuais específicos do começo ao fim.
O terremoto e o impacto na indústria da imagem
Sony e Fujifilm retiraram trabalhadores de instalações localizadas em Kumamoto, no Japão, após um terremoto de magnitude 6,8 atingir a região em 28 de julho.

As operações do centro de tecnologia da Sony em Kumamoto foram interrompidas enquanto a empresa avalia possíveis danos. A instalação tem papel importante na produção de sensores destinados a câmeras e smartphones. A Fujifilm também mantém na região uma unidade que produz componentes como filtros de cor usados em sensores.
A preocupação imediata deve estar com as pessoas afetadas.
Do ponto de vista do mercado, o episódio também revela como uma parte relevante da indústria fotográfica depende de áreas geográficas e instalações muito específicas.
Uma interrupção prolongada pode atingir:
produção de sensores, componentes para câmeras e smartphones, estoques, cronogramas de lançamento, preços e prazos de reposição.
Muitas vezes tratamos uma câmera como produto final e esquecemos a rede de fábricas, semicondutores, filtros, logística e fornecedores que existe antes dela.
A fotografia digital parece um mercado global. Sua infraestrutura continua bastante concentrada.
Um arquivo fotográfico revela a industrialização da Bahia
A Brasiliana Fotográfica publicou um novo estudo sobre imagens da Cooperativa Alcoólica da Bahia, fundada em Santo Amaro em 1906.

O conjunto preservado pela Biblioteca Nacional mostra chaminés, caldeiras, tanques, tubulações, oficinas, trabalhadores e espaços administrativos. As fotografias ajudam a desmontar uma representação limitada da Bahia do início do século XX como território exclusivamente agrário. Elas revelam uma estrutura industrial moderna, integrada e tecnologicamente avançada para a época.
O material também mostra como a fotografia institucional já funcionava como comunicação estratégica. As imagens eram impressas em gelatina de prata, montadas em cartões ornamentados e organizadas para transmitir prosperidade, eficiência, ordem e capacidade tecnológica. Não eram apenas documentos sobre uma empresa. Eram instrumentos de construção de reputação.
É uma lembrança importante para fotógrafos corporativos contemporâneos.
Muito antes das redes sociais, empresas já entendiam que fotografias poderiam organizar uma narrativa sobre inovação, trabalho e futuro.

A crise climática entra no centro da fotografia
Entre 5 e 23 de agosto, o Festival Hercule Florence reúne no Sesc Campinas fotógrafos, pesquisadores e convidados para discutir fotografia e crise climática.

A programação aproxima produção visual, território, meio ambiente e responsabilidade. Em vez de tratar a fotografia apenas como ilustração das mudanças climáticas, o festival a posiciona como linguagem capaz de investigar, documentar e construir novas formas de percepção.
Essa abordagem importa porque o tema climático costuma chegar ao público por números, relatórios e imagens de catástrofes.
O trabalho mais consistente pode estar na capacidade de acompanhar processos, ouvir comunidades e construir projetos de longo prazo.
Quando a luz vira tema, matéria e experiência
O FestA!, realizado pelo Sesc São Paulo entre 24 de julho e 2 de agosto, escolheu a luz como um de seus principais eixos nas artes visuais.

A programação reúne oficinas, cursos, encontros e experiências que atravessam fotografia e outras linguagens. A luz deixa de aparecer apenas como requisito técnico e passa a ser discutida como percepção, matéria, narrativa e fenômeno cultural.
É um assunto básico e, ao mesmo tempo, frequentemente abandonado quando a conversa fotográfica fica dominada por equipamento, software ou inteligência artificial.
Antes de qualquer câmera interpretar uma cena, existe uma relação entre luz, espaço, matéria e olhar.
Talvez seja justamente por isso que voltar a discutir luz continue tão atual.
Do analógico à inteligência artificial no Sesc Pinheiros
Nos dias 11, 12 e 13 de agosto, o Sesc Pinheiros recebe uma programação dedicada às transformações da fotografia.

A proposta atravessa processos analógicos, fotografia digital, inteligência artificial, criação, mercado e fotografia de cena.
Participo de duas atividades.
No dia 12, estarei na mesa Pioneirismo e Futuro: IA e a Nova Era da Fotografia, ao lado de Roger Sassaki, com mediação de Alice Yura.
No dia 13, conduzo a segunda parte da oficina Fotografia: do Analógico à Inteligência Artificial, avançando da transformação digital para as questões atuais de autoria, automação, repertório, ética e valor profissional.
A combinação é especialmente importante porque evita transformar passado e futuro em adversários.
A fotografia analógica não desapareceu com a chegada do digital. O digital também não eliminou intenção, escolha ou repertório. A IA acrescenta novas possibilidades, mas também exige novas decisões.
IA na fotografia: criação, mercado e valor profissional
No dia 8 de agosto, das 10h às 17h, conduzo no Foto Cine Clube Bandeirante, em São Paulo, um workshop presencial sobre inteligência artificial aplicada à fotografia.
A proposta não é apresentar uma maratona de ferramentas.
Vamos trabalhar criação visual, comunicação e negócio fotográfico para entender onde a IA pode fortalecer o trabalho e onde pode produzir padronização, ruído ou perda de identidade.
Cada participante também construirá um plano prático de sete dias para começar a testar o que foi discutido. A turma será pequena e as vagas são limitadas.



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