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O que estou lendo: a câmera descartável no celular, uma fotografia histórica de Sebastião Salgado e os riscos da IA para a ciência

  • há 7 horas
  • 4 min de leitura

Nesta edição, seis histórias mostram que o valor de uma fotografia continua dependendo do que acontece antes e depois do clique.



Há um aplicativo tentando devolver expectativa à fotografia feita pelo celular, uma imagem de Sebastião Salgado que atravessou três décadas, um registro viral planejado durante horas, os finalistas de uma das maiores premiações de astrofotografia, uma fotografia transformada em item único de coleção e um alerta sobre imagens de animais modificadas por inteligência artificial.


Um aplicativo transforma os celulares dos convidados em câmeras descartáveis

O POV recupera uma limitação das antigas câmeras descartáveis: quem fotografa não consegue conferir imediatamente o resultado.

O organizador cria um “rolo de filme” digital e compartilha um código QR. Os convidados usam os próprios celulares para registrar a festa, a viagem ou o encontro, mas as imagens permanecem escondidas até o encerramento do álbum.

A proposta chama atenção porque usa o smartphone para conter alguns hábitos criados pelo próprio smartphone. Em vez de revisar, apagar e repetir cada fotografia, as pessoas registram o momento e seguem vivendo.

Para fotógrafos de eventos, há ainda uma provocação comercial. O álbum coletivo dos convidados pode ser tratado como parte da experiência, sem disputar espaço com a cobertura profissional.


A história por trás de uma fotografia de Sebastião Salgado feita no Paraná

Em 17 de abril de 1996, Sebastião Salgado acompanhou uma marcha de aproximadamente 15 mil integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra até a Fazenda Giacomet-Marodin, no Paraná.

O fotógrafo havia passado os dias anteriores acompanhando famílias, reuniões e a preparação da ocupação. Na madrugada, atravessou a cerca antes da chegada da coluna e se posicionou para registrar a entrada no território.

A fotografia do trabalhador erguendo uma foice diante da multidão entrou no livro Terra, publicado em 1997 com textos de José Saramago e música de Chico Buarque. Os direitos das imagens foram doados ao MST e ajudaram na construção da Escola Nacional Florestan Fernandes.

Trinta anos depois, a imagem permanece porque registra um instante decisivo dentro de uma história maior. É um exemplo de fotografia que não nasceu isolada nem dependente apenas de sua força estética.


A Lua “sorrindo” para o Cristo exigiu planejamento e quase 700 fotografias

O fotógrafo carioca Bruno Gargaglione viralizou com um timelapse no qual a Lua parece formar um sorriso atrás do Cristo Redentor.


A cena durou poucos segundos, mas foi planejada com a ajuda de um aplicativo capaz de simular a posição da Lua, do Sol e da Via Láctea. Gargaglione estudou o ponto de captura, verificou possíveis obstáculos, acompanhou o clima e utilizou uma teleobjetiva para comprimir a perspectiva. O timelapse foi construído com quase 700 fotografias, registradas em intervalos de dois segundos.


Em uma época de desconfiança diante de imagens extraordinárias, revelar o processo também se torna parte do trabalho. Os bastidores ajudam a mostrar que aquilo que parece improvável pode ter sido produzido com observação, técnica e insistência.


Os finalistas do Astronomy Photographer of the Year 2026

O Astronomy Photographer of the Year anunciou 29 trabalhos finalistas de sua edição de 2026. A competição recebeu quase quatro mil fotografias de profissionais e amadores de 66 países.


Entre as imagens selecionadas estão auroras, cometas, galáxias, planetas e alinhamentos entre a Lua e paisagens urbanas. Algumas são exposições únicas. Outras resultam da combinação de milhares de registros feitos ao longo de dias ou meses.


O conjunto mostra uma área em que captura e processamento sempre estiveram próximos. A diferença está na transparência sobre como cada imagem foi construída e na preservação de uma ligação verificável com o fenômeno fotografado.


Os vencedores serão anunciados em 17 de setembro, e as imagens escolhidas entrarão em exposição no National Maritime Museum, em Londres.


A fotografia de Messi com Lamine Yamal bebê vira um cartão único

A Topps anunciou que transformará a conhecida fotografia de Lionel Messi com Lamine Yamal ainda bebê em um cartão colecionável de edição única.


A imagem foi feita pelo fotojornalista Joan Monfort em 2007, durante a produção de um calendário beneficente do Barcelona com o Unicef e o jornal Diario Sport. Na época, Messi tinha 20 anos e Yamal apenas seis meses.


Quase duas décadas depois, a coincidência histórica multiplicou o valor cultural da fotografia. O cartão será uma peça única, inserida aleatoriamente nas caixas de uma futura coleção da Topps.


A história mostra como o contexto pode alterar completamente o valor de uma imagem. Uma fotografia produzida para uma campanha institucional tornou-se documento, fenômeno de circulação e agora objeto físico de coleção.


Fotografias de aves modificadas por IA podem prejudicar pesquisas científicas

Pesquisadores alertam que imagens de animais alteradas por inteligência artificial podem contaminar bancos de dados usados para estudar espécies, habitats e deslocamentos.

O problema não envolve apenas animais completamente inventados. Uma ferramenta utilizada para retirar um galho ou “melhorar” uma ave pode modificar cores, penas e características importantes para sua identificação.


Um dos casos citados envolve uma fotografia feita no Brasil. Após o uso de IA para melhorar a imagem, o sistema acrescentou características de outra espécie, criando o que parecia ser um registro inédito de uma ave norte-americana no centro do país.


Plataformas como iNaturalist e Macaulay Library dependem de fotografias enviadas por observadores para construir registros científicos. Quando uma imagem documental recebe alterações generativas sem identificação, o dano ultrapassa a discussão estética.

A questão central passa a ser a finalidade da fotografia. Uma edição aceitável em uma peça artística pode ser inadequada quando a imagem funciona como evidência.


O que conecta essas histórias?

Uma fotografia pode virar memória coletiva, documento político, fenômeno viral, evidência científica, obra premiada ou objeto de coleção.


Mas esse destino raramente depende apenas da câmera utilizada. Ele nasce das decisões tomadas pelo fotógrafo: onde estar, o que observar, como editar, o que preservar e como apresentar o trabalho ao mundo.


Esse mesmo tipo de decisão também aparece na construção de um negócio de fotografia. Trabalhar muito e produzir boas imagens não resolve sozinho problemas de posicionamento, oferta, comunicação e percepção de valor.


A nova janela do Mapa R.U.M.O. fica aberta até domingo, 26 de julho. É uma leitura estratégica individual para fotógrafos que querem identificar o principal desalinhamento do negócio e ajustar a direção ainda em 2026.

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