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A fotógrafa que inspirou Sebastião Salgado tem 95 anos e continua trabalhando em seu arquivo

há 6 horas
3 min de leitura

Autora de um livro que influenciou a trajetória do brasileiro, Mirella Ricciardi prepara uma nova publicação para 2027, revisita fotografias feitas há décadas e participa de uma exposição em São Paulo.



Aos 95 anos, Mirella Ricciardi passa boa parte de seus dias diante do computador, editando fotografias produzidas ao longo de seis décadas. A fotógrafa, que vive atualmente em Londres, trabalha há quase cinco anos na organização de seu arquivo e prepara um novo livro, com publicação prevista para o primeiro semestre de 2027. A rotina foi revelada em entrevista à Folha de S.Paulo, publicada em 10 de outubro.


Nascida no Quênia em 1931, Ricciardi é autora de Vanishing Africa, publicado em 1971 com imagens realizadas principalmente entre 1967 e 1968. O livro ocupa um lugar importante na história da fotografia brasileira. Foi um presente de Lélia Wanick Salgado ao então economista Sebastião Salgado, que encontrou naquelas fotografias uma influência decisiva para sua mudança de carreira. Décadas depois, os dois fotógrafos se conheceram e desenvolveram uma relação de admiração mútua.


Ricciardi aprendeu fotografia em Paris, trabalhando com o fotógrafo de moda Harry Meerson, antes de retornar à África para desenvolver sua produção documental. Na entrevista, ela conta que fotografava movida principalmente pela busca da beleza, sem dirigir as pessoas retratadas. Seu domínio do suaíli também permitia uma comunicação direta com as comunidades que conhecia desde a infância.



Um arquivo que continua produzindo histórias


A relação de Ricciardi com o Brasil também passa pela Amazônia. Em 1990, a fotógrafa conheceu Ailton Krenak, que organizou sua viagem à região. Ela fotografou diferentes povos indígenas, incluindo Ashaninka, Marubo e Yanomami. O material deu origem ao livro Vanishing Amazon, lançado em 1991.


Mais de três décadas depois, Ricciardi voltou a essas imagens ao acompanhar notícias sobre as ameaças enfrentadas pelos povos indígenas, especialmente a crise Yanomami e a violência no Vale do Javari. A fotógrafa decidiu desenvolver um processo de devolução das fotografias às comunidades retratadas.


Essa decisão acrescenta uma questão importante ao trabalho de preservação dos arquivos documentais. Fotografias produzidas por visitantes estrangeiros podem ter valor histórico para as comunidades fotografadas, mas o retorno dessas imagens também envolve questões de acesso, participação e representação. A iniciativa de Ricciardi recoloca em discussão quem pode consultar, utilizar e atribuir novos significados a registros produzidos décadas atrás.


Uma exposição reúne os dois fotógrafos


Parte dessa trajetória pode ser conhecida na exposição A Elegância do Olhar, em cartaz na Galeria Mario Cohen, em São Paulo, até 11 de novembro. Com curadoria de Lilian Pacce, a mostra reúne 17 fotografias de Ricciardi e Sebastião Salgado, incluindo imagens da fotógrafa inéditas no Brasil.


A seleção aproxima trabalhos dos livros Vanishing Africa, de Ricciardi, e Amazônia, publicado por Salgado em 2021. A exposição também celebra os 25 anos da galeria e recupera a relação entre os dois autores, iniciada com aquele livro presenteado por Lélia nos anos 1970.


Enquanto seu trabalho histórico ganha novas exposições, Ricciardi permanece dedicada à edição de imagens. Sua trajetória oferece um exemplo concreto da continuidade de uma produção fotográfica: registros realizados há mais de 50 anos ainda podem resultar em publicações, projetos expositivos e novas relações com as pessoas fotografadas.


Serviço: A Elegância do Olhar, até 11 de novembro de 2026, na Galeria Mario Cohen, Rua Capitão Francisco Padilha, 69, Jardim Europa, São Paulo. Entrada gratuita.




Seu trabalho fotográfico pode encontrar novos caminhos.


Exposições, residências, bolsas e projetos editoriais são algumas das possibilidades para ampliar a circulação de uma produção fotográfica. No Essencial, acompanho oportunidades no Brasil e no exterior, analiso editais e ajudo fotógrafos a avaliar quais fazem sentido para seus trabalhos. A participação também inclui o Mapa R.U.M.O. individual.


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