Enquanto a IA acelera a imagem, a Kodak aposta no grande formato
- 6 de mai.
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A chegada de novos filmes de grande formato e rolos bulk de 100 pés mostra que o analógico não voltou apenas como nostalgia, mas como uma resposta mais lenta, técnica e deliberada à automação visual.

A Eastman Kodak ampliou sua nova linha de filmes distribuídos diretamente pela empresa. O anúncio inclui filmes de grande formato e rolos bulk de 100 pés, em mais uma etapa do retorno gradual de emulsões Kodak em novas embalagens e, em alguns casos, com novos nomes.
A linha passa a incluir Ektapan 100 e Ektapan 400 em 4x5, Ektacolor Pro 160 e Ektacolor Pro 400 em 4x5 e 8x10, Tri-X 320 em 4x5, 5x7 e 8x10, além de Ektapan 100, Ektapan 400 e Tri-X 400 em rolos bulk de 100 pés para 35mm.
A notícia é técnica, mas o sinal de mercado é claro. Grande formato e rolo bulk não são produtos de consumo casual. São formatos ligados a fotógrafos que ainda trabalham com controle de processo, ritmo mais lento, escolha de material, revelação, ampliação e domínio técnico.
O movimento acontece em um momento curioso. Enquanto a imagem digital se torna cada vez mais rápida, automatizada e abundante, a Kodak reforça uma linha voltada justamente a uma prática mais deliberada. Não é uma volta ao filme como mercado de massa. É a consolidação do analógico como nicho de valor.
Há também uma reorganização industrial por trás do anúncio. A Eastman Kodak vem retomando a distribuição direta de parte de seus filmes fotográficos, depois de anos em que essa operação esteve ligada à Kodak Alaris. Essa mudança explica a chegada de novas embalagens e também a reorganização de alguns nomes.
Portra e TMax, por exemplo, não aparecem com esses nomes na nova linha distribuída pela Eastman Kodak, já que essas marcas seguem associadas à Kodak Alaris. Na nova lógica, Ektacolor Pro ocupa o território dos negativos coloridos profissionais, enquanto Ektapan assume a família de filmes preto e branco pancromáticos.
Para a maioria dos fotógrafos profissionais, o anúncio não muda a rotina imediata. Poucos vão migrar para câmeras 4x5 ou 8x10. Poucos vão carregar rolos de 100 pés em casa. Mas essa não é a melhor forma de ler a notícia.
O ponto está no contraste. A fotografia vive uma expansão acelerada da imagem sintética, dos fluxos automatizados e da produção visual em escala. Ao mesmo tempo, produtos lentos, físicos e exigentes continuam encontrando demanda suficiente para justificar investimento de uma marca histórica.
Isso não significa que o analógico seja superior ao digital ou à IA. Processo lento não garante boa imagem. Filme não substitui repertório. Grande formato não transforma, sozinho, uma fotografia comum em algo relevante.
Mas o mercado também é feito de percepção. E, em um cenário de excesso visual, aquilo que exige tempo, técnica e presença pode voltar a comunicar valor.
A Kodak não está dizendo que o mundo voltará a fotografar como antes. Está apenas reforçando que ainda existe espaço para uma fotografia mais material, controlada e menos automática.
Na era da imagem instantânea, o lento também virou linguagem.
Na era da automação, o processo voltou a ser parte da mensagem.
Para fotógrafos, marcas, labs e negócios da fotografia, a pergunta prática não é se vale voltar ao filme. Para muitos, não vale. A pergunta é outra: que parte da experiência oferecida ainda carrega intenção, cuidado e presença?
O futuro da fotografia não será decidido apenas por quem produzir imagens mais rápido. Também será disputado por quem conseguir fazer a imagem voltar a parecer importante.
Grande parte do que publico aqui fica aberta porque acredito que o mercado fotográfico precisa de mais leitura e menos ruído. A Fotograf.IA+C.E.Foto é onde esse trabalho continua com mais profundidade. Se esse tipo de leitura faz sentido para você, o próximo passo é entrar.



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