Momento Rumo - Às vezes, ser o pior fotógrafo é melhor para uma marca
- 8 de jun.
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A Icelandair pagou US$ 50 mil para encontrar uma fotógrafa ruim. A campanha mostra como a fotografia pode vender uma ideia sem precisar parecer publicidade tradicional.

Às vezes, ser o pior fotógrafo é melhor para uma marca
A Icelandair acaba de transformar uma piada visual em uma campanha global de turismo. A companhia aérea islandesa procurou, literalmente, o pior fotógrafo que conseguisse encontrar. Não era concurso de técnica. Nem de busca por portfólio impecável. Muito menos premiação para quem dominava composição, luz, enquadramento ou edição.
A lógica da campanha era simples: a Islândia seria tão bonita que nem o pior fotógrafo do mundo conseguiria voltar de lá apenas com imagens ruins.
A vencedora foi Blanche Mortemard, de Paris, escolhida depois de uma seleção que recebeu mais de 127 mil inscrições de 178 países. A recompensa: uma viagem de 10 dias pela Islândia e US$ 50 mil para fotografar mal um dos lugares mais fotogênicos do planeta.
A história é engraçada, mas também é uma aula sobre como marcas podem usar fotografia de formas cada vez mais inusitadas. E sim, a fotografia é uma moeda digital e de branding muito forte...
Chega a ser curioso, não faz tanto tempo, a fotografia publicitária vivia perseguindo a imagem perfeita. Um mundo perfeito de propaganda de margarina e no turismo, isso ficou ainda mais evidente. Quase toda campanha parece dizer a mesma coisa: venha para cá, porque aqui tudo é lindo.
O problema é que, quando tudo parece lindo demais, a imagem começa a perder força.
A Icelandair entendeu isso. Em vez de contratar o melhor fotógrafo, escolheu o pior. Em vez de prometer a foto perfeita, abraçou a foto errada. Em vez de mostrar apenas a paisagem como cartão-postal, criou uma narrativa em torno da incapacidade de estragar a paisagem.
Foi uma inversão inteligente. A campanha não diminui a fotografia. Ela usa a fotografia como linguagem cultural. A graça está justamente no fato de que todo mundo entende o problema. Quem nunca fez uma foto torta, tremida, mal enquadrada ou decepcionante diante de uma cena bonita? Quem nunca voltou de uma viagem com imagens piores do que a lembrança?
A Icelandair pegou uma frustração comum e transformou em argumento de marca.
Essa é a parte que interessa para fotógrafos, criadores visuais e profissionais de imagem. A fotografia não serve apenas para mostrar o produto. Ela também pode criar contexto, humor, contraste, conversa pública e desejo. Às vezes, a imagem perfeita vende menos do que uma boa ideia visual. O processo e bastidores também servem e muito neste valor da imagem.
No caso da Icelandair, a má fotografia virou prova de valor. Se até alguém assumidamente ruim pode voltar com boas imagens, então o destino tem força própria. O “erro” deixou de ser defeito e virou conceito.
É claro que existe um paradoxo aqui. A campanha só funciona porque o público sabe diferenciar uma boa fotografia de uma fotografia ruim. A piada depende da existência de repertório visual. Ela depende da noção de que enquadramento, luz, composição e intenção ainda importam. Mas uma foto ser bela ou não tem lá seu paradoxo...por ser algo subjetivo.
Ao mesmo tempo, ela mostra que o mercado de imagem está mais complexo. Nem toda fotografia de marca precisa ser tecnicamente impecável. Algumas precisam ser memoráveis. Outras precisam ser compartilháveis. Outras precisam carregar uma ideia simples o bastante para virar assunto.
Para fotógrafos profissionais, a provocação é valiosa. A campanha também mostra que a foto real mesmo feia tem lá seu valor...ou talvez valha mais em tempos de IA generativa.
O cliente nem sempre está comprando apenas beleza. Muitas vezes, compra percepção e narrativa. Ou quem sabe uma lembrança. E, em alguns casos, a imagem mais eficiente não é a mais perfeita, mas a que melhor traduz a estratégia. Como foi o caso desta campanha.
Importante: isso não significa defender foto ruim. Significa entender que técnica, sozinha, não é mais o centro da conversa.
A Icelandair não contratou a pior fotógrafa do mundo porque precisava de fotografias ruins. Mas sim porque precisava de uma história boa o suficiente para fazer o mundo olhar para a Islândia de novo. E no fim conseguiu.
Mas o que fica de toda essa ação é que talvez a campanha diga menos sobre ser ruim em fotografia e mais sobre ser bom em percepção.
Porque, em um mercado saturado de imagens bonitas, até a imperfeição pode virar uma vantagem quando existe uma ideia forte por trás.
Percepção de como você é lido hoje ou como gostaria de ser percebido neste tempos estranhos virou questão estratégica.
É justamente essa leitura que faço no novo Mapa R.U.M.O., agora com a camada AURA, uma avaliação da assinatura visual do fotógrafo. A proposta é olhar para posicionamento, oferta, comunicação, percepção de valor e também para o que o conjunto das imagens está comunicando antes mesmo da conversa comercial.
Para fotógrafos que já atuam no mercado e sentem que o trabalho entrega mais do que o público percebe, o Mapa R.U.M.O. pode ajudar a enxergar onde está o ruído.



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