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Frame IA: quando a imperfeição vira resposta à imagem artificial

  • 8 de jun.
  • 3 min de leitura

Enquanto Scorsese vê a IA como ferramenta para visualizar ideias, Kane Parsons e outros criadores apontam para outro caminho: recuperar o prazer, o processo e a textura humana da criação.



Kane Parsons tem 20 anos e já deixou de ser apenas “o jovem diretor vindo do YouTube”. Criador de Backrooms, ele transformou uma estética nascida na internet em um dos fenômenos recentes mais improváveis do cinema. Um filme barato para os padrões de Hollywood, original, estranho, de atmosfera própria, que virou bilheteria forte pela A24.


Por isso sua fala sobre IA generativa chama atenção. Parsons não é um veterano defendendo o passado. Ele vem da cultura digital, dos vídeos online, dos efeitos feitos com poucos recursos, dos espaços virtuais e das imagens estranhas que circulam antes de virar produto de estúdio.


Mesmo assim, disse que, se pudesse, faria a IA generativa desaparecer. Para ele, usar esse tipo de ferramenta no centro da criação tira o propósito do cinema. A frase pesa porque toca em algo que muitos artistas sentem, mas nem sempre conseguem formular.

Para alguns criadores, a imagem final não é tudo. O caminho até ela importa. Montar uma cena, testar uma luz, errar, improvisar, construir textura, lidar com limite, esperar o momento certo. Quando a IA entrega a imagem pronta rápido demais, ela não corta apenas trabalho.

Pode cortar também a parte que dava sentido ao trabalho.


Do outro lado está Martin Scorsese. Ao se aproximar da Black Forest Labs, ele defendeu a IA como ferramenta de pré-produção, para visualizar ideias e conversar melhor com equipes de fotografia, direção de arte, figurino e design de produção. É outro uso. Menos substituição direta, mais tradução visual de intenção.


A tensão está aí. A IA pode ajudar a pensar uma cena, acelerar uma etapa e organizar referências. Mas também pode empurrar a criação para uma estética média, lisa, brilhante e sem atrito. Uma imagem bonita, mas sem corpo. Correta, mas sem presença.


É nesse contexto que aparece a reação chamada de “anti-slop”. Em vez da imagem perfeita demais, alguns criadores estão buscando o feito à mão, o stop-motion, o rabisco, o cartaz torto, a textura de fanzine, o objeto físico, o cenário real, a falha visível. Não é descuido. É uma resposta estética ao excesso de imagem artificial.


A campanha de Natal da Coca-Cola feita com IA mostrou bem o problema. Foi rápida, eficiente, tecnicamente ambiciosa. Mas muita gente percebeu a artificialidade. Caminhões, ursos, brilhos e movimentos pareciam corretos, mas não pareciam vivos.


Isso importa para fotógrafos. Durante anos, muita fotografia profissional perseguiu uma imagem limpa demais: pele perfeita, fundo impecável, luz previsível, edição polida, entrega rápida. A IA levou essa lógica ao limite. Agora qualquer pessoa pode gerar uma imagem visualmente agradável sem câmera, sem locação e sem encontro real.


Então a pergunta muda. Se imagem bonita virou abundante, o que ainda torna uma fotografia necessária?


Na fotografia de família, pode ser a prova afetiva de que aquilo aconteceu. No retrato, pode ser a direção humana e a relação com a pessoa fotografada. No documental, pode ser a presença diante do fato. No produto, pode ser a luz física, a textura, o volume, a matéria. Na arte, pode ser o gesto, o erro assumido, o processo.


A imperfeição, nesse cenário, não volta como defeito. Volta como marca de presença. O grão, a sombra, o corte menos óbvio, a pele real, o bastidor, o objeto tocado, a foto que carrega tempo. Tudo isso pode ganhar valor justamente porque não parece ter saído de uma máquina tentando agradar todo mundo.


A questão não é rejeitar IA. Muitos fotógrafos, artistas e criadores vão usar IA para planejar, escrever, organizar, editar, testar ideias e até criar produtos híbridos. O problema começa quando a ferramenta passa a decidir o gosto, o ritmo e a linguagem no lugar do criador.

Kane Parsons, Scorsese e o movimento anti-slop mostram que o debate amadureceu. Não se trata mais de ser contra ou a favor da IA. A pergunta mais importante agora é outra: que parte do processo precisa continuar humana para que a imagem ainda tenha valor?


Essa pergunta vale para o cinema, para a publicidade, para o design, para artistas visuais e para fotógrafos profissionais. Talvez o futuro da imagem não pertença apenas a quem produz mais rápido. Talvez pertença a quem consegue mostrar que aquela imagem nasceu de presença, escolha e intenção.


Na Fotograf.IA + C.E.Foto, essa é uma das conversas centrais: como usar inteligência artificial sem perder linguagem, posicionamento e valor percebido.

A comunidade reúne fotógrafos e profissionais da imagem que querem acompanhar as mudanças do mercado com repertório, estratégia e visão crítica. Sem medo automático. Sem entusiasmo vazio.


Porque entender tecnologia importa. Mas entender o que ainda torna uma imagem humana, valiosa e necessária importa mais.

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