Primeiro Plano: 58% dos fotógrafos perderam trabalho para IA?
- Leo Saldanha

- há 2 horas
- 3 min de leitura
O alerta que vem do Reino Unido e o que ele realmente diz para quem vive da fotografia

Se esse número passou pelo seu feed e deu aquele aperto no estômago, você não está sozinho.
Nos últimos dias, um relatório divulgado pela Association of Photographers, no Reino Unido, ganhou repercussão ao afirmar que 58% dos fotógrafos teriam perdido trabalhos para inteligência artificial generativa. A entidade chamou o fenômeno de “o maior roubo da história moderna”.
O número é forte. O tom também.
Antes de transformar isso em pânico, negação ou sentença definitiva sobre o futuro da fotografia, vale olhar com mais cuidado para o que sustenta esses dados e para o que eles significam na prática.
A pesquisa foi lançada junto a um movimento de lobby político por mudanças na legislação britânica de direitos autorais. Isso ajuda a entender a linguagem mais dura. Não invalida o alerta, mas lembra que ele não é neutro. Além disso, apenas cerca de 20% dos membros da associação responderam ao questionário, e a chamada “perda para IA” é baseada em percepção direta dos fotógrafos, não em contratos comparados ou auditorias independentes.
Em um mercado que já vinha passando por cortes de orçamento, migração de verba para vídeo curto e mudanças de comportamento nas plataformas, nem toda perda pode ser atribuída exclusivamente à IA.
Um dado do próprio relatório quase passou despercebido. Apesar da queda no volume de trabalhos, a renda média declarada subiu. Pouco, mas subiu. Isso muda bastante a leitura. Não parece um mercado em colapso, mas um mercado em processo de concentração. Menos profissionais atuando, menos oportunidades disponíveis, mas quem permanece tende a faturar mais ou operar com mais eficiência.
Não é o fim da fotografia. É o fim da média.
Outro movimento silencioso revelado pela pesquisa chama atenção. Quase metade dos fotógrafos afirmou ter reduzido sua presença online por medo de uso indevido das imagens em treinamentos de IA. A preocupação é compreensível. O efeito colateral é delicado. Em mercados criativos, visibilidade continua sendo parte central do valor profissional. Sumir do radar raramente é uma estratégia sustentável.
Quando trazemos essa discussão para o Brasil, o cenário muda de forma importante.
O recorte da pesquisa britânica está fortemente ligado à fotografia comercial e publicitária genérica, onde imagens repetíveis e intercambiáveis sempre tiveram mais peso. É também onde a IA avança primeiro.
Já áreas como casamento, família, newborn, eventos sociais e corporativos e retratos presenciais operam em outra lógica. Nesses campos, o valor não está apenas na imagem final, mas na presença, na leitura de ambiente, na relação construída e no registro de algo que acontece uma única vez. Nenhuma IA lê a sala no momento em que a avó da noiva se emociona. Nenhuma ferramenta antecipa a piada interna do CEO que rende a foto do evento. A tecnologia acelera processos, mas não substitui contexto, vínculo e experiência.
É exatamente esse tipo de diferença que tenho aprofundado também fora do ambiente online. No encontro presencial do dia 25/2, a ideia é olhar com calma para esse cenário, separar risco real de exagero e discutir posicionamento, mercado e decisões práticas para quem vive da fotografia hoje. Não como palestra motivacional, mas como leitura estratégica de cenário.
A IA não atinge todos os nichos da mesma forma nem ao mesmo tempo. Ela começa onde a fotografia já era frágil antes de existir.
Talvez o maior risco deste momento não esteja na tecnologia em si, mas nas decisões tomadas a partir do medo. Esconder portfólio, competir apenas por preço, copiar estéticas genéricas ou esperar que alguma solução externa resolva tudo.
O alerta vindo do Reino Unido é real e merece atenção. Mas ele não deve ser lido como sentença definitiva. O que está em jogo agora não é a sobrevivência da fotografia como linguagem, mas a clareza de posicionamento de quem vive dela.
Para continuar essa conversa com mais profundidade
Esse tipo de leitura não se esgota em um texto aberto.
Dentro da Fotograf.IA + C.E.Foto, uma análise mais profunda e valiosa na edição Premium do Primeiro Plano de hoje. Com mais profundidade, dados do mercado brasileiro, leitura por nicho e troca real entre quem está enfrentando esse cenário no dia a dia. É ali que essas discussões viram critério, decisão e ajuste prático de rumo.



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