Google transforma fotos em mundos exploráveis e muda o papel da imagem
- Leo Saldanha

- há 2 dias
- 3 min de leitura
Project Genie permite criar ambientes interativos a partir de uma única fotografia e levanta novas questões sobre autoria, memória e experiência visual

Google começou a liberar nesta semana, de forma restrita, o Project Genie, um experimento que permite criar mundos interativos a partir de uma única fotografia. Não é vídeo tradicional, não é jogo no sentido clássico e tampouco uma simples animação gerada por IA. É um novo tipo de experiência visual: a imagem deixa de ser estática e passa a ser um espaço navegável.
Desenvolvido pelo Google DeepMind, o Project Genie utiliza modelos de geração de mundos que criam cenas em tempo quase real conforme o usuário se movimenta. Basta uma foto ou um prompt de texto. A partir disso, a IA constrói um ambiente que reage aos comandos do usuário, como se fosse um jogo, mas sem um mundo pré-modelado. O cenário se forma à medida que se avança.
Por enquanto, o acesso é limitado aos assinantes do plano Google AI Ultra, nos Estados Unidos, ao custo de US$ 250 por mês. Cada mundo gerado dura até 60 segundos, em resolução de 720p, e o próprio Google faz questão de alertar: o resultado ainda não é fiel à realidade, a física falha em alguns momentos e tudo deve ser encarado como um protótipo.
Ainda assim, o impacto conceitual é grande.
Durante décadas, a fotografia foi a arte de congelar o tempo. O Project Genie propõe o oposto: descongelar a imagem. Uma foto deixa de ser um ponto final e passa a ser um ponto de entrada. Não se olha mais para a imagem. Entra-se nela.
Isso muda profundamente a relação entre imagem, memória e experiência. Uma fotografia de um lugar real pode se tornar um espaço explorável. Uma cena encenada pode virar um ambiente narrativo. Uma imagem publicitária pode se transformar em território de marca.
Não se trata apenas de “ver mais”, mas de habitar a imagem, ainda que por instantes.
Para marcas, o caminho é evidente. A imagem publicitária deixa de ser vitrine e passa a funcionar como portal. Para artistas e fotógrafos, a questão é mais delicada. O valor não estará apenas na estética da imagem original, mas na intenção por trás dela. O que aquela imagem permite sentir, imaginar, percorrer.
Surge também uma tensão inevitável. O que acontece quando fotografias icônicas passam a ser usadas como ponto de partida para mundos gerados por IA? Quem é o autor da experiência? O fotógrafo, a plataforma, o modelo de IA ou o usuário que explora aquele espaço? O próprio Google já começou a limitar prompts envolvendo propriedades intelectuais conhecidas, sinalizando que esse será um campo de disputa real.
Há ainda uma camada mais profunda, e talvez mais inquietante. Se imagens pessoais, familiares ou históricas podem se tornar ambientes navegáveis, estamos entrando em uma nova fase da memória. Não mais apenas arquivada ou lembrada, mas simulada e percorrida. Isso não é nostalgia. É outra coisa. E ainda não temos vocabulário suficiente para descrevê-la com precisão.
O Project Genie não é uma ferramenta pronta para o mercado criativo. Ele é um sinal. Um aviso de que a imagem, cada vez mais, deixa de ser apenas representação e passa a ser experiência.
Para quem vive da imagem, o desafio não está em acessar esse tipo de tecnologia agora. Está em entender o que fazer com ela sem diluir valor, autoria e sentido.
Essa leitura estratégica, com cenários reais, riscos e oportunidades para fotógrafos, artistas e marcas, está sendo aprofundada nos encontros e conteúdos exclusivos da Comunidade Fotograf.IA + C.E.Foto, onde a conversa vai além da ferramenta e entra na decisão.
E no dia 25 de fevereiro, em São Paulo, esse debate ganha corpo no encontro presencial Fotografia Humana em Tempos de IA, um espaço para discutir, longe do hype, como imagem, tecnologia e sensibilidade podem coexistir sem que uma anule a outra.
O futuro da imagem talvez não esteja apenas em capturar o mundo, mas em projetar experiências que façam sentido habitá-lo.



Comentários