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Rede fotografa hambúrguer com celular, usa IA e passa a depender menos de fotógrafos

há 8 horas
4 min de leitura

Uma rede canadense já usa fotos feitas pela própria equipe e ferramentas como o ChatGPT para produzir imagens de cardápio. No Brasil, o iFood permite imagens geradas e aprimoradas por IA. O caso mostra onde a automação já começa a disputar espaço com a fotografia comercial.



Uma rede de hamburguerias do Canadá encontrou uma maneira mais rápida e barata de produzir parte das imagens usadas em cardápios, cartazes e comunicação online: alguém da própria equipe fotografa o prato com o celular e depois utiliza inteligência artificial para melhorar textura, aparência e sensação de frescor.


Fez Mian, responsável pelo marketing da The Fancy Induced Burger, contou à CBC que utiliza ferramentas como o ChatGPT nesse processo. Segundo ele, a empresa passou a depender menos de fotógrafos profissionais e designers. Um fluxo que antes exigia agendamento, sessão e espera pela entrega pode produzir material utilizável em cinco ou dez minutos.


Não estamos falando apenas de gerar um hambúrguer inexistente a partir de um prompt. No caso da rede canadense, existe uma fotografia real do produto. A inteligência artificial entra depois para alterar sua apresentação.


Essa diferença torna o caso especialmente interessante para quem trabalha com fotografia comercial.


A IA está entrando justamente na parte mais simples da produção


Para um pequeno restaurante, contratar fotógrafo, montar produção, preparar pratos e esperar pelo material final representa custo e tempo.


Se o próprio estabelecimento consegue fotografar o produto com um celular e utilizar IA para aproximar aquela imagem do padrão que considera suficiente para um cardápio, uma parte do serviço profissional passa a enfrentar uma alternativa muito mais barata.


A The Fancy Induced Burger afirma manter revisão humana das imagens para verificar se a IA não acrescentou ingredientes ou modificou demais o produto. Isso importa porque uma imagem visualmente melhor pode deixar de cumprir sua função se prometer algo diferente do que chega à mesa.


A fotógrafa e food stylist Zoe Rousseau, ouvida pela CBC, chama atenção justamente para esse ponto. O trabalho profissional não consiste apenas em deixar a comida mais bonita: envolve selecionar ingredientes, trabalhar textura, composição, objetos e iluminação para apresentar de maneira atraente um produto que continua existindo na frente da câmera.



No Brasil, esse cenário já existe


Aqui, a discussão não é apenas hipotética.


O iFood permite que restaurantes utilizem imagens geradas ou aprimoradas por inteligência artificial, desde que sejam identificadas como ilustrativas e representem de forma fiel o produto vendido. A plataforma também alerta que imagens irreais podem prejudicar conversão, gerar cancelamentos e levar à moderação do conteúdo ou até à suspensão do estabelecimento.


Existe uma contradição interessante. No mesmo material em que explica as regras para IA, o próprio iFood afirma que fotos reais apresentam maior conversão e oferece treinamento para que donos de restaurantes aprendam a fotografar os pratos com o celular.


Em 2025, consumidores brasileiros já reclamavam de imagens produzidas com IA em cardápios da plataforma. Procon-SP e Idec destacaram que uma representação diferente do produto efetivamente entregue pode configurar propaganda enganosa.


E a infraestrutura para automatizar essa produção está ficando mais acessível. Em 2026, a startup brasileira Yooga, voltada ao setor de alimentação, passou a oferecer ferramentas capazes de gerar e aprimorar imagens de pratos para delivery.


Portanto, o mesmo movimento observado no Canadá já tem condições para acontecer no mercado brasileiro.


O problema para o fotógrafo não é a IA fazer uma foto perfeita


Talvez essa nem seja a principal disputa.

Para determinados clientes, a imagem produzida internamente não precisa superar uma fotografia profissional. Precisa apenas ser boa o bastante para publicar, vender o produto e custar muito menos.


É o conhecido problema do “bom o suficiente”, agora acelerado pela inteligência artificial.

Um restaurante que atualiza frequentemente cardápio e redes sociais pode preferir produzir dez imagens internamente em uma tarde a contratar uma sessão para cada mudança. A diferença de qualidade pode continuar existindo, mas deixa de ser o único critério da decisão.


Isso coloca pressão principalmente sobre serviços vendidos como execução: fotografar, tratar e entregar arquivos.


Então por que continuar contratando um fotógrafo?


A resposta precisa ser mais concreta do que “porque o olhar humano é insubstituível”.

Uma marca pode continuar contratando um profissional porque precisa de consistência visual entre dezenas de produtos, direção de campanha, fidelidade das cores e texturas, produção de cenas mais complexas, styling, fotografia para embalagem, peças publicitárias ou uma linguagem reconhecível em diferentes canais.


Também pode contratar porque não quer assumir internamente produção, revisão e responsabilidade por dezenas ou centenas de imagens.

Esses problemas são diferentes de “precisamos de uma foto bonita deste hambúrguer para o menu”.


É justamente essa diferença que começa a definir onde existe mais ou menos pressão da automação.


A pergunta mudou


Até pouco tempo atrás, um restaurante que precisava de imagens melhores tinha poucas alternativas: contratar alguém ou aceitar a qualidade das fotografias feitas internamente.


Hoje existe uma terceira opção: fotografar internamente e utilizar IA para tentar fechar parte dessa distância.


Isso não elimina o mercado profissional de fotografia gastronômica. Mas muda a comparação que acontece antes da contratação.


O fotógrafo já não concorre apenas com outro fotógrafo mais barato. Em determinados trabalhos, concorre com o próprio cliente usando um smartphone e uma ferramenta de inteligência artificial.


Por isso, talvez a pergunta mais útil não seja se a IA vai substituir fotógrafos.

A pergunta é mais imediata: quando o cliente olha para o que você oferece, existe motivo suficiente para ele contratar você em vez de fazer sozinho?


Laboratório de Posicionamento: Você seria contratado?


Essa é uma das perguntas que vamos trabalhar no Laboratório de Posicionamento: Você seria contratado?


No encontro, vamos analisar casos reais de fotógrafos olhando portfólio, comunicação, oferta e percepção do trabalho a partir da perspectiva de quem precisa decidir uma contratação.


Porque, quando a execução fica mais acessível, mostrar boas fotografias continua importante, mas pode não ser suficiente para explicar por que alguém deveria escolher justamente você.


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