O último traço humano: o que a IA amplia na arte e comprime na fotografia
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Na arte, a IA amplia o território criativo. Na fotografia profissional, ela desloca onde o valor humano permanece.

Um artigo recente publicado na Forbes retoma um dos episódios mais curiosos da história recente da arte: o retrato gerado por IA “Edmond de Belamy”, vendido em leilão por quase meio milhão de dólares. A cena é descrita como um momento de descoberta em um museu, quando visitantes percebem que a obra diante deles não foi pintada por uma mão humana, mas produzida por um sistema treinado em séculos de pintura. A surpresa não está apenas no valor ou na técnica, mas na reação cultural que isso provoca. A IA não teria diminuído o interesse pela arte. Pelo contrário, teria ampliado o fascínio público pela criação, reacendido debates sobre autoria e aberto novas possibilidades para artistas que passam a usar algoritmos como parceiros criativos.
A leitura é sedutora e, em muitos aspectos, correta. No território das artes visuais, a IA de fato abriu possibilidades. Ideias podem ser experimentadas com rapidez inédita, linguagens podem ser testadas sem o longo percurso técnico que antes separava intenção e realização. Isso ampliou a participação e também a curiosidade em torno da imagem como linguagem cultural.
Quando essa mesma leitura é deslocada para o campo da fotografia profissional, porém, o efeito aparece menos como expansão e mais como redistribuição. A IA amplia o espaço simbólico da criação visual, mas altera de maneira direta o espaço econômico onde grande parte da fotografia aplicada se sustentava.
Historicamente, a fotografia profissional se organizou em territórios distintos. Há a produção claramente funcional, voltada a registro, catálogo e documentação. Há a fotografia comercial de comunicação cotidiana, que combina técnica consistente e estética suficiente para o mercado. E há a fotografia autoral, onde o valor não reside na função nem na padronização, mas na construção de linguagem, presença e ponto de vista. Foi sobretudo no território intermediário, entre o funcional e o autoral, que muitos profissionais construíram estabilidade ao longo das últimas décadas.
A geração de imagens por IA incide justamente nesse território intermediário. Não porque substitua toda a fotografia, mas porque passa a oferecer resultados visualmente suficientes para uma série de usos comerciais. Para muitas aplicações de marketing, e-commerce ou comunicação digital, a questão central deixa de ser quem produziu a imagem e passa a ser apenas se ela cumpre a função. Quando a aparência correta pode ser sintetizada com rapidez e baixo custo, a necessidade de produção humana deixa de ser pressuposta.
Isso não elimina a fotografia autoral nem a produção de alta complexidade. Superfícies difíceis, materiais específicos, direção de cena, contexto narrativo e resolução de problemas físicos continuam dependentes de experiência e decisão humana. O que se altera é a extensão do território onde essa presença era necessária. A camada média se comprime, e com ela parte do mercado que operava nesse intervalo entre técnica e diferenciação.
O argumento central do texto da Forbes é que o valor humano na arte reside na experiência vivida e no gesto. Na pintura, isso é imediatamente perceptível. A marca da mão, a matéria, o tempo incorporado ao objeto. Na fotografia comercial, o gesto quase sempre foi menos visível. O trabalho se legitimava pelo resultado correto, não pela evidência do processo. Luz adequada, cor fiel, enquadramento limpo. A presença humana estava implícita, não declarada.
Quando a IA passa a reproduzir essa aparência com eficiência crescente, a fotografia deixa de se sustentar apenas pelo efeito visual alcançado. O valor humano precisa se deslocar do resultado para a decisão que o antecede. O que permanece insubstituível não é a estética isolada, mas a escolha. O que mostrar, o que omitir, como posicionar, que narrativa sustentar, que contexto construir. A direção como ato intencional, não como ajuste paramétrico.
Esse deslocamento torna mais nítida uma separação que já começava a surgir. De um lado, uma economia visual automatizada, baseada na geração eficiente de imagens funcionais. De outro, uma economia deliberadamente autoral, em que visão, contexto e identidade são centrais. Entre ambas, o espaço intermediário perde densidade.
Esse deslocamento ajuda a entender também uma reação que tem surgido no próprio campo da imagem. Parte dos fotógrafos, tanto autorais quanto comerciais, passou a se posicionar contra a IA em termos quase defensivos, como se o debate estivesse restrito à substituição técnica. O ponto mais profundo, porém, talvez esteja em outro lugar. A fotografia não se distingue apenas por como é feita, mas por aquilo que implica: presença diante do real, encontro com o mundo, decisão no tempo e no espaço. Mesmo quando encenada ou construída, a fotografia parte de algo que existiu diante da câmera.
Curiosamente, essa afirmação do real não tem sido articulada apenas por fotógrafos tradicionais. Artistas que trabalham com IA e criadores que combinam geração e captura vêm explorando justamente essa tensão entre o que é produzido e o que é vivido. Em muitos casos, a fotografia reaparece como âncora de experiência dentro de práticas híbridas, não como oposição à IA, mas como aquilo que a IA não substitui: o fato de alguém ter estado ali, diante de algo, em um momento irrepetível.
A ideia de que a IA amplia o mundo da arte permanece válida. Mais pessoas criam, mais imagens circulam e o debate sobre autoria e valor se intensifica. No campo profissional da fotografia, porém, a mesma expansão opera como reconfiguração. A técnica se democratiza, o padrão se automatiza e o valor se desloca para zonas onde a decisão humana continua decisiva.
Na cena final descrita no artigo da Forbes, uma pintora de rua termina manualmente uma paisagem urbana e a obra é comprada não pela perfeição técnica, mas pela presença humana que nela se reconhece. Na fotografia, esse traço não está na pincelada. Está no ponto de vista. Não na execução visível, mas na escolha irrepetível que organiza a imagem antes que ela exista.
A IA pode gerar imagens convincentes. O que ela não produz é experiência. E é dessa matéria que o olhar ainda se forma.
A relação entre fotografia, presença e geração algorítmica tende a se tornar uma das questões centrais da imagem nos próximos anos.
Essas transformações vêm sendo analisadas continuamente dentro da comunidade Fotograf.IA+C.E.Foto, com foco no valor, no posicionamento e no futuro do trabalho fotográfico em um ambiente cada vez mais híbrido.



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