FRAME IA | Na era da IA, produzir imagem ficou barato. Escolher ficou caro
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Um estudo sobre o mercado de livros, uma provocação de Daniel Pink e uma nova ideia chamada “Creative Memory” apontam para a mesma mudança: quando produzir deixa de ser escasso, saber escolher pode valer cada vez mais.

Basta olharmos para a história da fotografia e notar que uma parcela importante do valor estava na capacidade de produzir a imagem. Na dificuldade e no processo. Era preciso conhecer exposição, luz, foco, revelação, equipamento, laboratório, tratamento.
Mesmo depois da chegada do digital, continuaram existindo barreiras técnicas relevantes entre imaginar uma fotografia e conseguir realizá-la.
A inteligência artificial está mexendo justamente nesse ponto.
Hoje é possível gerar dezenas ou centenas de alternativas em minutos. Trocar iluminação, cenário, enquadramento, tratamento, roupa, personagem e linguagem visual custa cada vez menos tempo. Em muitas situações, a dificuldade já não é chegar a uma imagem razoavelmente boa.
A dificuldade passa a ser outra: decidir qual delas realmente vale alguma coisa.
Daniel Pink chamou atenção para essa mudança recentemente ao defender que uma das habilidades mais valiosas da era da IA pode ser o “taste”, algo que podemos entender menos como “bom gosto” e mais como critério, julgamento e repertório.
Há dados interessantes por trás dessa provocação.

O que aconteceu com os livros depois do ChatGPT
Os economistas Imke Reimers, da Cornell University, e Joel Waldfogel, da University of Minnesota, analisaram milhões de livros publicados antes e depois da disseminação dos grandes modelos de linguagem.
O estudo, publicado como NBER Working Paper 34777 e revisado em julho de 2026, encontrou uma mudança impressionante: os lançamentos mensais de e-books passaram de aproximadamente 100 mil no período entre 2020 e 2022 para mais de 300 mil no final de 2025. Outro dado recente mostra que em 2026 1/3 dos textos da internet são 100% IA.
Produzir ficou mais fácil e a produção explodiu.
Só que a qualidade média, medida pelos pesquisadores a partir de indicadores como avaliações recebidas, posição de vendas e notas dos leitores, caiu.
Aqui aparece a parte mais interessante do estudo.

O aumento da quantidade não significou que bons livros deixaram de aparecer. Em determinadas posições absolutas dos rankings, a qualidade chegou a crescer. A expansão trouxe também trabalhos valiosos. O problema é que eles passaram a disputar atenção dentro de uma quantidade muito maior de lançamentos.
É uma diferença importante.
A IA não precisa destruir o trabalho bom para transformar profundamente um mercado criativo.
Basta mudar a proporção entre o que pode ser produzido e aquilo que realmente merece atenção.
E isso tem tudo a ver com fotografia
Imagine esse mesmo fenômeno aplicado ao mercado de imagens.
Uma ferramenta gera quatro alternativas. Depois vinte. Depois cem.
Outro modelo modifica todas elas. Um terceiro cria novas versões. Um fotógrafo pode produzir variações que antes exigiriam várias horas de captação e pós-produção. Um cliente também passa a ter acesso a parte dessa capacidade.
Nesse cenário, simplesmente conseguir produzir uma imagem deixa de representar a mesma escassez que representava antes.
Isso não significa que técnica deixou de importar. Tampouco significa que qualquer geração automática substitui uma produção fotográfica.
Significa que uma parte do valor começa a migrar.
Da execução para o julgamento.
Passando pela possibilidade para a decisão.
Da produção para a edição.
E do “eu consigo fazer isso” para “eu sei por que esta solução funciona e aquela não”.
É aí que gosto deixa de ser uma questão superficial.
Gosto não é simplesmente achar alguma coisa bonita
Existe um risco nessa conversa. Transformar “gosto” em uma qualidade quase mística que os humanos possuem e as máquinas jamais terão.
Eu não iria tão longe.
Modelos já reconhecem padrões estéticos, recebem referências, reproduzem linguagens, ordenam alternativas e podem aprender preferências. Uma IA pode ser instruída a aproximar seus resultados de determinado repertório.
A questão mais interessante é outra.
Gosto é construído.
Ele aparece no repertório que alguém acumulou, no que viu, no que fez, no que descartou, nos erros que cometeu e nas relações que consegue estabelecer entre coisas aparentemente distantes. E principalmente na capacidade de dizer não.
O fotógrafo exerce esse julgamento quando decide não apertar o botão. Quando escolhe uma fotografia entre cinquenta. Quando percebe que a imagem tecnicamente perfeita é menos interessante do que outra. Quando elimina uma sequência repetitiva. Quando abandona uma solução que virou clichê. Quando sabe que determinada tendência não combina com o trabalho que está construindo.
Gerar mais não necessariamente desenvolve essa capacidade.
Escolher desenvolve.
A próxima vantagem competitiva pode estar naquilo que você acumulou
Uma entrevista publicada nesta semana pela GoSee traz outra peça interessante para essa discussão.
A SIISTER.AI, empresa criada por Brivaelle Capitaine, está desenvolvendo uma plataforma para a indústria criativa baseada em um conceito chamado Creative Memory, ou memória criativa.
A proposta vai além de simplesmente guardar trabalhos antigos.

Essa memória incluiria briefs, tratamentos, referências, trabalhos finalizados, preferências de clientes e também algo normalmente invisível: o que foi aprovado, o que foi rejeitado, por que determinadas escolhas foram feitas, erros cometidos, correções realizadas e quais soluções funcionaram em cada projeto.
Segundo Capitaine, à medida que o acesso às ferramentas de IA se torna mais comum, a própria tecnologia tende a diferenciar menos as empresas. O que continua particular é aquilo que cada organização acumulou ao longo de sua experiência: conhecimento, decisões, correções, formas de resolver problemas e também gosto.
É uma ideia particularmente importante para fotógrafos.
Talvez seu arquivo não seja apenas um conjunto de imagens antigas.
Ali também está registrado o desenvolvimento do seu olhar.
Os trabalhos que você escolheu para o portfólio e os milhares que ficaram de fora. O tratamento que você abandonou. A referência que funcionou. A solução que um cliente rejeitou. A fotografia que aparentemente não deveria funcionar, mas funcionou. Os padrões que você passou anos aprendendo a reconhecer.
Isso também é patrimônio profissional.
A IA pode aumentar ainda mais o valor de saber editar
Até pouco tempo atrás, a tecnologia ajudou fotógrafos a produzir mais.
Agora estamos chegando a uma situação curiosa: talvez uma das competências mais importantes seja justamente produzir menos do que seria possível.
Não por resistência à tecnologia. Pelo contrário.
Quanto maior a capacidade de geração, maior a necessidade de julgamento.
Se podemos criar cem imagens, alguém precisa perceber que 93 são dispensáveis. Se praticamente qualquer estética pode ser simulada, alguém precisa decidir qual delas tem sentido para aquele projeto. Se todos recebem ferramentas parecidas, repertório, memória, contexto e critério passam a pesar mais.
É por isso que a discussão sobre IA na fotografia não deveria ficar limitada a perguntar qual ferramenta produz a imagem mais impressionante.
Uma pergunta talvez seja mais importante:
quando qualquer imagem se torna possível, como você decide qual imagem merece existir?
Essa capacidade de escolha sempre fez parte da fotografia.
Na era da IA, ela pode deixar de ser apenas uma etapa do processo e se tornar uma das partes mais valiosas dele.
Fotograf.IA Essencial
Este Frame IA toca em uma questão que vai muito além de aprender a usar a ferramenta da semana. A inteligência artificial está alterando o que é abundante, o que é escasso e, consequentemente, onde pode estar o valor do trabalho de quem vive de imagem.
No Fotograf.IA Essencial , acompanho essas mudanças com mais profundidade, separando hype de transformação real e buscando o que elas significam na prática para fotógrafos e profissionais da imagem.
Se você quer acompanhar a IA pela ótica da fotografia, do mercado e das decisões que realmente importam, venha para o Fotograf.IA Essencial



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