Momento R.U.M.O. | O que a Godox pode ensinar sobre crescer para os lados
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A marca conhecida principalmente por flashes começou a lançar câmeras e impressoras. Para fotógrafos, há uma lição importante nesse movimento: às vezes o crescimento não está em fazer mais do mesmo, mas em descobrir onde mais aquilo que você já sabe fazer pode gerar valor.

a Godox construiu sua presença no mercado fotográfico em torno de uma associação bastante clara: iluminação. Flashes, transmissores, tochas e modificadores fizeram a marca crescer entre fotógrafos profissionais e criadores, mas os lançamentos mais recentes mostram que a empresa parece interessada em ocupar outros momentos da experiência fotográfica.
Primeiro veio a C100, sua primeira câmera. Agora aparece a P100, uma pequena impressora fotográfica portátil criada para transformar imagens do smartphone em cópias físicas. São produtos bastante diferentes do núcleo tradicional da marca e, justamente por isso, ajudam a observar uma questão interessante de estratégia.
A P100 usa impressão por sublimação e foi pensada para funcionar diretamente com o celular, por Bluetooth e NFC, através do aplicativo da própria Godox. Pelo app, o usuário pode selecionar fotografias, aplicar filtros, molduras, stickers, criar colagens e imprimir pequenas cópias protegidas por uma camada contra água, poeira e marcas de dedos.
Não é exatamente uma categoria nova. Fujifilm, Canon e outras empresas já exploram há bastante tempo a impressão móvel e instantânea. O que torna o produto interessante é a origem: estamos falando de uma marca que ficou conhecida resolvendo problemas de iluminação profissional e que agora tenta entrar também no momento posterior à captura, quando uma imagem deixa a tela e vira objeto.
A comunicação do produto reforça essa mudança. A Godox não fala apenas de especificações técnicas; fala de fotografias que não deveriam permanecer esquecidas no rolo da câmera ou na nuvem, mas que podem ser impressas, compartilhadas, guardadas e exibidas. É uma mudança pequena no catálogo, mas grande na maneira de pensar o território da marca.
Em vez de perguntar apenas como vender mais iluminação, a Godox parece ampliar a pergunta: em quais outros momentos relacionados à fotografia a empresa consegue participar?
Essa lógica se aproxima de um conceito conhecido como marketing lateral.
No marketing tradicional, uma empresa tende a trabalhar dentro de uma categoria já definida, procurando melhorar o produto, aumentar a distribuição, ajustar preço ou conquistar participação dos concorrentes. No marketing lateral, a oportunidade pode surgir ao deslocar algum elemento do mercado, como a ocasião de consumo, o público atendido, o uso do produto ou a necessidade que está sendo resolvida.
Um exemplo simples aparece no setor de alimentação. Durante muito tempo, redes de fast-food estavam fortemente associadas ao almoço e ao jantar. Quando passaram a explorar o café da manhã, não necessariamente criaram uma nova competência central; encontraram uma nova ocasião para vender dentro de uma estrutura que já dominavam.
A lógica é parecida quando uma empresa conhecida por flashes passa a vender uma câmera ou quando começa a oferecer uma impressora que atua justamente depois que a fotografia foi feita. Ela não abandona necessariamente sua origem, mas amplia o território em que pode gerar receita e relacionamento com o consumidor.

Para fotógrafos, esse raciocínio merece atenção porque boa parte das tentativas de crescimento ainda acontece de maneira vertical. O fotógrafo de família tenta vender mais ensaios, o fotógrafo corporativo busca mais retratos executivos, o fotógrafo de eventos procura mais eventos e o profissional de arquitetura tenta conquistar mais escritórios.
Nada disso está errado, mas existe outra possibilidade: olhar lateralmente para o próprio negócio e observar necessidades que já estão próximas do serviço principal.
Um fotógrafo de família, por exemplo, pode perceber que seu valor não termina no ensaio. Álbuns, impressões, acompanhamento anual e documentação das diferentes fases de uma família podem transformar uma contratação pontual em uma relação mais longa.
No mercado corporativo, o fotógrafo que começou produzindo retratos pode descobrir demanda por bancos proprietários de imagens, documentação da cultura da empresa, employer branding e produção visual recorrente. O conhecimento continua sendo fotográfico, mas a oferta passa a responder a problemas maiores do cliente.
Na fotografia esportiva, a mesma cobertura pode gerar valor para diferentes públicos. Além do organizador do evento, existem atletas, familiares, clubes, patrocinadores e plataformas interessadas naquela produção. Não significa vender qualquer coisa para qualquer pessoa, mas compreender quantas necessidades podem existir em torno de um mesmo ativo.
Só que existe um contraponto importante: crescer para os lados também custa.
Toda nova oferta cria alguma carga operacional. É preciso comunicar, vender, entregar, precificar, organizar processos, atender dúvidas e manter uma experiência minimamente consistente. Uma nova frente pode trazer receita, mas também pode se transformar em mais um pratinho para girar.
Esse é um ponto que às vezes fica escondido quando se fala em diversificação. Uma empresa grande como a Godox pode testar novas categorias com equipes, fornecedores, distribuição e estrutura próprios. Para um fotógrafo independente ou um pequeno estúdio, acrescentar três ou quatro ofertas diferentes pode significar simplesmente aumentar a complexidade de um negócio que já estava difícil de administrar.
Por isso, marketing lateral não deveria ser confundido com montar um cardápio enorme.

A oportunidade mais interessante costuma estar próxima daquilo que o profissional já sabe fazer, atende um cliente que ele já conhece ou aproveita um ativo que já produz. Quanto maior a distância em relação ao negócio atual, maior tende a ser o esforço necessário para fazer a nova frente funcionar.
Antes de criar um novo produto, portanto, vale fazer outra pergunta: essa oportunidade aproveita minha estrutura atual ou exige que eu construa praticamente outro negócio?
Esse filtro muda bastante a decisão.
Um álbum para quem já fotografa famílias pode ser uma extensão natural. Criar uma escola, uma loja, uma produtora de vídeo e um estúdio de impressão ao mesmo tempo provavelmente já é outra história.
O mesmo vale para posicionamento. Se o cliente deixa de entender pelo que você é reconhecido, a expansão que deveria aumentar valor pode começar a enfraquecer a marca.
Esse é um exercício especialmente interessante porque o próximo produto de um fotógrafo talvez não precise nascer do zero. Muitas vezes ele já está escondido dentro do trabalho atual, em alguma necessidade do cliente que aparece antes, durante ou depois do serviço principal.
Vale observar quais conhecimentos o profissional já domina, que relações já construiu, que ativos produz regularmente e de que outras maneiras eles poderiam ser usados. Também importa perceber aquilo que os clientes pedem informalmente, porque alguns dos melhores sinais de novas ofertas aparecem justamente nessas demandas que ainda não foram transformadas em produto.
É cedo para saber se a expansão da Godox para câmeras e impressoras será relevante comercialmente ou se esses produtos permanecerão como experimentos dentro de um catálogo muito maior. O movimento, porém, já serve como bom exemplo de uma empresa que decidiu olhar para além de sua categoria mais óbvia.
Para quem vive de fotografia, talvez a provocação mais útil seja esta: antes de tentar fazer muito mais do mesmo, vale observar o que existe ao lado. Mas, antes de colocar mais um pratinho para girar, também é preciso saber se existe estrutura para mantê-lo no ar.
No Mapa R.U.M.O. Presencial, no dia 1º de setembro, em São Paulo, esse é um dos exercícios que vamos trabalhar: olhar para oferta, valor e novas possibilidades de negócio a partir do que cada fotógrafo já construiu, mas também separar oportunidade de distração. Nem toda nova frente merece virar produto. → Mapa R.U.M.O. Presencial | 1º de setembro | Avenida Paulista, São Paulo | grupo pequeno



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