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Frame IA - Scorsese está usando IA para visualizar filmes. O que fotógrafos podem aprender com isso?

  • há 22 horas
  • 4 min de leitura

Ao entrar como adviser da Black Forest Labs, o diretor mostra um uso menos óbvio e mais estratégico da IA: transformar intenção visual em linguagem compartilhada antes da produção.



Martin Scorsese não entrou na conversa sobre inteligência artificial pela porta mais barulhenta.


Ele não apareceu dizendo que a IA vai substituir atores, roteiristas, fotógrafos, diretores de arte ou equipes inteiras. O ponto mais interessante é outro: Scorsese está usando IA para visualizar melhor o que já existe na cabeça dele.


A Black Forest Labs, empresa por trás dos modelos FLUX, anunciou o cineasta como adviser em um momento simbólico para a indústria audiovisual. Em vídeo divulgado pela própria empresa, Scorsese aparece em uma sessão de trabalho com a ferramenta, usando IA para criar storyboards e comunicar melhor uma cena à equipe criativa.


Essa diferença importa.


Storyboard não é o filme. É pensamento visual organizado. É uma ponte entre a ideia e a execução. Serve para que diretor, diretor de fotografia, designer de produção, direção de arte, elenco e equipe entendam a intenção antes de chegar ao set. No cinema, isso economiza tempo, reduz ruído e ajuda a transformar uma visão subjetiva em linguagem compartilhada.



Scorsese citou sua experiência anterior com 3D em “A Invenção de Hugo Cabret” e rejuvenescimento digital em “O Irlandês” para defender que o cinema sempre evoluiu com novas ferramentas. A frase mais importante da declaração não é sobre tecnologia em si, mas sobre abertura: o cinema tem cerca de 125 anos e precisa estar aberto às formas como pode evoluir.


Para fotógrafos, essa notícia vale menos como curiosidade sobre Hollywood e mais como método.


A maioria ainda pensa na IA como algo que entra depois da imagem: para editar, retocar, expandir fundo, trocar cenário, criar uma arte ou gerar uma imagem final. Mas talvez o uso mais sofisticado esteja antes do clique.



A IA pode ajudar o fotógrafo a visualizar uma sessão antes de realizá-la. Pode testar referências de luz, construir moodboards, simular atmosferas, explorar poses, pensar na relação entre cenário e personagem, organizar uma narrativa e comunicar melhor uma proposta ao cliente. Em vez de chegar ao ensaio apenas com ideias soltas, o fotógrafo pode chegar com uma intenção visual mais clara.


Isso não substitui repertório. Pelo contrário, exige repertório.


Scorsese não usa IA porque não sabe imaginar uma cena. Ele usa porque sabe muito bem o que quer e precisa comunicar isso com precisão para outras pessoas. Essa é a diferença entre usar IA como muleta e usar IA como linguagem de direção.


Por 70 anos, crio meus próprios storyboards. Sempre houve esse problema de como comunicar o que vê na sua cabeça para o elenco e a equipe. Existem coisas que você precisa ver e sentir. Tenho interesse na interseção entre tecnologia e narrativa, e em ver como isso pode ultrapassar os limites da criatividade para criar experiências mais profundas e ricas para o público. Lembre-se, o cinema é um meio jovem, com apenas cerca de 125 anos, então precisamos estar abertos a como ele pode evoluir. Utilizei 3D com Hugo e tecnologia de rejuvenescimento para The Irishman. Agora, com essa ferramenta, posso compartilhar o que estou visualizando de forma mais clara e eficiente com minha equipe criativa — o designer de produção, o designer de arte e o diretor de fotografia — para que eles possam construir e enriquecer a inteligência cinematográfica. Recentemente testei isso em uma cena e a capacidade de visualizar e compartilhar imediatamente o storyboard foi criativamente libertadora. Durante o processo de pré-produção, o tempo custa dinheiro, e isso nos permitiu avançar mais rápido sem sacrificar qualidade ou artesanato.

Martin Scorsese sobre o uso da IA no cinema


Na fotografia, o mesmo princípio vale. Um fotógrafo sem visão pode usar IA para produzir imagens genéricas. Um fotógrafo com visão pode usar IA para testar caminhos, refinar escolhas e explicar melhor aquilo que pretende construir.


A questão, portanto, não é se a IA entra ou não no processo criativo. Ela já entrou. A questão é em que lugar ela entra e com qual nível de intenção.


Quando usada apenas para gerar efeito, a IA pode empobrecer a fotografia. Quando usada para pensar antes, visualizar melhor e alinhar expectativa, ela pode fortalecer a autoria.


Esse talvez seja o ponto mais importante do caso Scorsese. A ferramenta não está no centro. A visão continua no centro. A IA entra como tradução, não como origem.


Para fotógrafos, a pergunta prática é simples: antes do próximo ensaio, da próxima campanha ou do próximo projeto autoral, o que poderia ser visualizado com mais clareza? A luz? A paleta? O cenário? A postura do retratado? O clima emocional? A narrativa?


Se um dos maiores diretores vivos está usando IA para comunicar melhor o que vê antes de filmar, talvez fotógrafos também possam parar de pensar na IA apenas como acabamento.


Ela pode ser parte da pré-produção.


E, nesse lugar, talvez esteja um dos usos mais inteligentes da ferramenta.


Na comunidade Fotograf.IA + C.E.Foto, eu tenho aprofundado esse tipo de leitura: não apenas quais ferramentas de IA surgiram, mas como elas mudam a forma de pensar, planejar, vender e executar trabalhos fotográficos. Para quem vive da imagem, o diferencial não está em apertar botões novos. Está em usar essas ferramentas para construir intenção, repertório e valor percebido.

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