“Estou meio perdido”: o desconforto interno mais comum entre fotógrafos hoje
- Leo Saldanha

- há 22 horas
- 3 min de leitura
Tecnologia, mercado, IA e pressão por preço estão mudando o jogo mais rápido do que conseguimos acompanhar.

Estou meio perdido
Essa é uma frase que ouço de fotógrafos(as) desde 2024, mas que se intensificou claramente no último ano. Vale contextualizar: minha audiência é, em geral, mais “madura”, com tempo de mercado, embora o blog tenha alcance amplo e diverso. Ainda assim, essa repetição em mensagens de WhatsApp, conversas informais e abordagens de clientes não me parece mero acaso.
Antes de qualquer julgamento, precisamos olhar para o contexto. O mercado da fotografia sempre passou por ondas de transformação. Mudanças nunca foram novidade para quem vive da imagem. O que muda agora é a velocidade e a sobreposição dessas mudanças.
Tecnologia é parte do motivo, mas não explica tudo sozinha. A fotografia ocupa um lugar curioso: cruza ego, vaidade, memória, documentação e narrativa. Se mistura com música, vídeo, experiências. Vive entre o físico e o digital. Foi engolida por canais online, redes sociais de todo tipo e, mais recentemente, pela Inteligência Artificial.
É fácil se culpar. E mais fácil ainda apontar o dedo para o “mercado”. A palavra mercado, aliás, às vezes parece uma entidade abstrata, quase uma divindade.... talvez Hermes, o deus dos comerciantes. Mas a realidade é menos mística e mais complexa.
O setor é formado por muitas camadas. Existem nichos fortes em foto e vídeo, embora nenhum esteja livre de desafios. Existem plataformas de venda de imagem, como a Fotto. Existem profissionais com marcas estabelecidas em diferentes segmentos, que continuam ralando, se adaptando e ajustando rotas. Para ninguém está simples.
Um exemplo concreto: quando hoje tudo é digital, tem sim gente vendendo fotos impressas para decoração ou arte com preços altos. Isso tanto aqui quanto lá fora.
Então por que essa sensação tão recorrente de estar “meio perdido”?
A fotografia sempre teve pressão de preço, mas ela se intensificou especialmente para quem está no chamado preço médio. Quem cobra pouco costuma apostar em volume, vive de quantidade, trata como renda extra ou simplesmente não faz conta. Cada um tem seus motivos, e isso não é novo. O problema é o efeito colateral: essa dinâmica pressiona todo o entorno.
Esse não é um caso exclusivo da fotografia profissional. No livro Marketing 6.0 de 2021, Kotler explicou essa tendência. Quem está no meio está espremido em diferentes negócios.
Na outra ponta estão os chamados “premium”. Não são maioria, mas conseguem cobrar mais e, em muitos casos, justificar melhor o que entregam... ou ao menos tentam. Quem está no meio sente a pressão dos dois lados.
“Cobro mais? Como faço isso?”
“Cobro menos? E como sustento?”
A sensação constante é de que não dá para ficar parado.
A IA é a culpada? Em parte, sim. E talvez seja ainda mais no futuro, ninguém sabe ao certo. Ela favorece preço baixo e volume, atrai quem já não via valor ou não compreendia a proposta de um fotógrafo profissional. Vale lembrar: tudo que é digital tende ao menor valor possível. O “varejão do precinho” no ambiente online é real, e a fotografia não escapa disso.
Uma curiosidade: artistas de IA que conquistam clientes, marcas e vendas justamente por emularem a realidade feia...ou uma estética autoral que nem parece IA.
Mas a culpa não é só da IA. O ritmo de entrada e saída no mercado ficou mais frenético. Dois saem, cinco entram. Isso já acontecia antes, só que agora o ciclo que levava 18 meses acontece em seis...ou menos.
Relatórios e pesquisas de bancos de imagem e consultorias apontam caminhos claros: a IA vai avançar em todas as áreas. Ao mesmo tempo, o real, o autêntico, o estranho e até o imperfeito tendem a ganhar valor. O desafio será mostrar esse valor. E talvez isso não se resolva apenas no Instagram ou em outras redes sociais.
Ficamos mal acostumados. Tudo precisa caber no smartphone, gerar resposta rápida, engajamento imediato. Mas será que fotografia de valor combina com essa lógica? Talvez por isso marcas mais consistentes estejam apostando cada vez mais em experiências presenciais, relações de longo prazo e construção de significado.
Na outra ponta está o mercado formador e motivacional. Existem boas iniciativas, mas ainda são minoria. Tenho a impressão de que a educação na fotografia precisa de um sacode (não sei exatamente de quem) e certamente isso não passa apenas por um olhar financeiro. Uma nova fase do mercado exige um novo modo de operar, aprender, entender e praticar fotografia.
Da minha parte, sigo explorando essa fase com atenção às possibilidades. Seja com projetos como o Mapa R.U.M.O., iniciativas pontuais de aprofundamento, eventos presenciais ou a comunidade Fotograf.IA + C.E.Foto. Com a consciência de que a mudança sempre foi a única certeza. Só que agora ela acontece mais rápido do que conseguimos acompanhar.
Eu estou tentando entender esse cenário.
E você?



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