O que estou lendo: filme, compactas, arquivos e memória em uma fotografia que não anda numa direção só
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Kodak reorganiza a distribuição de filmes, Ricoh prepara uma nova compacta, a National Geographic usa IA para tornar 138 anos de arquivo pesquisáveis e, no Brasil, centenas de zines lembram que o físico continua vivo.

Se alguém tentar resumir o momento atual da fotografia dizendo que tudo está ficando digital, provavelmente vai errar. Se disser que tudo está voltando ao analógico, também.
As leituras que se acumularam por aqui nos últimos dias apontam para um mercado bem mais contraditório e interessante: filmes continuam circulando, compactas voltam ao centro das atenções, arquivos históricos ganham novas camadas com inteligência artificial e pequenas publicações físicas seguem encontrando espaço.
Não existe uma direção única.
Ricoh prepara uma nova GR com lente equivalente a 40 mm
A Ricoh anunciou o desenvolvimento da GR IVx, nova integrante de uma das linhas de câmeras compactas mais reconhecidas entre fotógrafos de rua e fotografia cotidiana.
O modelo terá lente equivalente a 40 mm, sensor APS-C de aproximadamente 25,7 megapixels, estabilização de cinco eixos e gravação em 4K.
A informação mais curiosa, porém, talvez esteja fora da ficha técnica: mesmo cinco anos depois do lançamento, a GR IIIx ainda registra demanda suficiente para que a Ricoh tenha adotado, no Japão, um sistema de vendas por sorteio.
É mais um sinal de que câmeras pequenas, discretas e construídas em torno da experiência de fotografar recuperaram espaço em um mercado que durante anos correu atrás de corpos maiores e especificações cada vez mais agressivas.
Kodak: filme também precisa de distribuição
A Eastman Kodak ganhou um novo distribuidor para seus filmes no Reino Unido.
A notícia pode parecer pequena, mas ajuda a colocar o atual interesse pela fotografia analógica em perspectiva.
Não basta existir demanda ou nostalgia. Para que o filme continue sendo um produto viável, é preciso reconstruir distribuição, abastecimento, laboratórios, varejo especializado e toda uma cadeia que perdeu escala durante a transição para o digital.
A nova parceria coloca filmes Kodak novamente em circulação sob uma estrutura comercial mais organizada no mercado britânico.
É uma boa lembrança de que o retorno do analógico não depende apenas de estética.
Depende de infraestrutura.
138 anos de National Geographic agora entram na era da IA
No outro extremo dessa história está um dos maiores arquivos visuais do mundo.
A National Geographic está trabalhando com a AWS para transformar aproximadamente 138 anos de conteúdo histórico em uma biblioteca digital pesquisável com ajuda de inteligência artificial.
O projeto envolve bilhões de ativos e quase 15 petabytes de conteúdo.
A proposta é utilizar IA para transcrição, enriquecimento de metadados e pesquisa em linguagem natural, tornando materiais que antes dependiam de processos mais lentos de catalogação muito mais acessíveis para pesquisadores, editores e equipes da própria instituição.
Aqui a IA não está sendo usada para criar uma fotografia.
Está sendo usada para reencontrar fotografias.
E essa diferença é importante.
Quanto maior fica o volume de imagens produzidas e preservadas, maior passa a ser também o valor das ferramentas capazes de localizar, relacionar e interpretar esse material.
No Brasil, 300 zines colocam a fotografia novamente nas mãos
Enquanto um arquivo gigantesco ganha novas ferramentas digitais de pesquisa, em São Paulo acontece quase o movimento inverso.
A exposição ZineZona, no IMS Paulista, reúne cerca de 300 zines fotográficos produzidos no Brasil.
Há trabalhos relacionados a arquivos familiares, território, raça, gênero, memória e diários visuais.
Mais do que uma mostra de publicações, existe algo interessante no formato: são objetos feitos para serem vistos, folheados e manipulados.
Em uma época dominada por feeds, nuvens e bibliotecas digitais praticamente infinitas, o zine continua propondo outra relação com a fotografia: limitada, física, sequencial e deliberadamente pequena.
Talvez seja justamente por isso que continue relevante.
Uma fotografia que ficou maior do que o momento
Também li sobre a morte de Sal Veder, fotógrafo da Associated Press, aos 99 anos.
Veder ficou conhecido sobretudo pela fotografia “Burst of Joy”, registrada em 1973 durante o retorno de um prisioneiro de guerra americano do Vietnã.
A imagem recebeu o Pulitzer e se tornou um símbolo visual daquele período.
Décadas depois, ela também continua sendo um bom exemplo de como uma fotografia pode adquirir um significado público muito mais simples do que a história que existia ao redor dela.
A cena transmite a ideia perfeita de reencontro e felicidade familiar. A realidade daquela família era mais complicada.
Esse intervalo entre aquilo que a fotografia mostra e aquilo que ela passa a representar talvez seja uma das razões pelas quais certas imagens atravessam gerações.
E uma imagem minimalista sobre algo que pode desaparecer
Outra fotografia que me chamou atenção veio do Minimalist Photographer of the Year 2026.
O fotógrafo polonês Marcin Giba venceu com o projeto The Last Winter, produzido com drone sobre paisagens congeladas.
O trabalho parte da geometria e da abstração vistas de cima, mas carrega também outra camada: registrar paisagens que podem se tornar cada vez menos frequentes com as mudanças climáticas.
É um caso interessante de como uma linguagem visual extremamente limpa pode carregar um assunto bastante concreto.
A fotografia não está escolhendo entre passado e futuro
O que conecta todas essas histórias não é uma tendência única.
É justamente o contrário.
A fotografia continua encontrando valor em filme, câmeras compactas, arquivos históricos, inteligência artificial, zines, imagens icônicas e novas formas de publicação e circulação.
Algumas tecnologias voltam. Outras desaparecem. Certos formatos ganham valor justamente porque ficaram raros. E ferramentas novas começam a revelar utilidade em lugares que vão muito além da geração de imagens.
Para quem trabalha com fotografia, talvez o desafio não seja tentar descobrir qual dessas direções vai vencer.
É entender quais delas fazem sentido para o próprio trabalho, público e modelo de negócio. Essa é uma das discussões que estão no centro do Desafio R.U.M.O., que começa em 31 de agosto.
Durante cinco dias, vamos trabalhar comunicação, oferta, valor e decisões práticas para quem precisa rever o rumo do negócio fotográfico diante de um mercado que muda em várias direções ao mesmo tempo.



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