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Momento R.U.M.O. | Fotografar famosos não basta

  • há 2 dias
  • 3 min de leitura

Celebridade pode gerar visibilidade, prova social e desejo. Mas, sem uma posição anterior, a imagem com alguém conhecido vira apenas um episódio bonito no portfólio.

Artistas, atores, músicos e atletas foram ao mesmo estúdio fotográfico na Oxford Street, em Londres, para tirar suas fotos de passaporte.
Artistas, atores, músicos e atletas foram ao mesmo estúdio fotográfico na Oxford Street, em Londres, para tirar suas fotos de passaporte.


A fotografia sempre teve uma relação ambígua com a fama. Retratar uma pessoa conhecida parece abrir uma porta simbólica e, em alguns mercados, abre mesmo. O nome circula, rende conversa, empresta prestígio. Às vezes vira sobrenome profissional: a fotógrafa que fez o casamento daquela atriz, o fotógrafo que registrou aquele empresário, a profissional chamada por uma influenciadora, um jogador, uma cantora.


Esse fascínio atravessa a história da fotografia inteira. Está no retrato editorial, no fotojornalismo, nos paparazzi, nos anúncios de gravidez, nos casamentos de figuras públicas, nos bastidores da moda e da música. Em algum lugar da cabeça do cliente, e muitas vezes do próprio fotógrafo, existe uma lógica simples: se essa pessoa escolheu esse profissional, talvez exista ali algo especial.


O problema começa quando essa lógica vira plano de negócio.


Um livro publicado em 2026 ajuda a pensar nisso. Passport Photo Service: An Unexpected Archive of Celebrity Portraits, lançado pela Phaidon, reúne mais de 300 retratos feitos entre 1953 e 2019 num estúdio de fotos para passaporte na Oxford Street, em Londres. Por lá passaram Madonna, Muhammad Ali, Mick Jagger, Angelina Jolie e centenas de outros nomes conhecidos, todos sem assistentes, sem maquiagem, sem produção. Fotos de documento. Flash, fundo branco, próxima pessoa.




O estúdio não construiu reputação porque decidiu mirar celebridades. Ocupava um ponto estratégico perto de consulados e embaixadas, resolvia uma necessidade objetiva e entregava rápido numa época em que isso fazia diferença. A autoridade nasceu de uma função concreta. Os artistas entravam pela mesma porta que qualquer outra pessoa, pagavam o mesmo preço e saíam com o mesmo tipo de imagem. A fama cruzava o balcão, mas o negócio não dependia dela para existir.


No outro extremo está a fotografia de Beyoncé grávida de gêmeos, feita por Awol Erizku em 2017. Em menos de 24 horas, a publicação chegou perto de 8 milhões de curtidas e virou uma das imagens mais comentadas daquele ano. A autoria nem apareceu no crédito inicial. Foi confirmada depois, por mensagem enviada a um galerista.


Awol Erizku. Na época a foto foi muito criticada, mas olhando a assinatura visual do artista estava tudo ali.
Awol Erizku. Na época a foto foi muito criticada, mas olhando a assinatura visual do artista estava tudo ali.

Erizku não era apenas alguém com acesso a pessoas famosas. Era artista, nascido na Etiópia, criado no Bronx, formado em Yale, com trabalho circulando entre fotografia, vídeo, escultura e arte contemporânea. Beyoncé não precisava de um profissional com uma lista de nomes no portfólio. Precisava de uma imagem com densidade simbólica suficiente para virar acontecimento cultural. Ele entrou no projeto com repertório e ponto de vista, não apenas com técnica.


Os dois casos têm formatos opostos, mas apontam para a mesma leitura: o nome conhecido não criou a força do trabalho. Ele encontrou algo que já existia.


Isso importa porque o mercado confunde acesso com valor. Atender alguém famoso pode abrir portas, gerar conversa, produzir prova social e deslocar a percepção sobre uma marca. Pode ser uma decisão inteligente, inclusive quando não há pagamento direto e a troca acontece por exposição. Mas só faz sentido quando o fotógrafo entende o que está aceitando nessa troca, que público aquela visibilidade atrai, que tipo de preço ela ajuda a sustentar e que direção ela reforça.


Quando a marca já tem direção, a celebridade amplia. Quando não tem, distrai.


A pergunta mais útil não é “como consigo fotografar alguém famoso?”. É outra: se amanhã um nome conhecido aparecesse no seu portfólio, ele confirmaria o que o seu negócio já comunica ou tentaria compensar o que ainda não foi construído?


O Passport Photo Service tinha função, localização e consistência. Awol Erizku tinha linguagem, repertório e posição artística. Em ambos os casos, a pessoa famosa não apareceu para inventar valor do zero. Apareceu onde já havia uma base reconhecível.


O mercado gosta da frase “fulano fotografou tal pessoa”. Ela funciona, chama atenção, rende post, cria curiosidade. Mas o cliente mais interessante não compra apenas proximidade com a fama. Compra confiança, estética, leitura de situação, segurança e percepção de valor.


A celebridade pode ser vitrine. Mas como bem sabemos, só vitrine bonita não sustenta o que não existe atrás dela.


Leo Saldanha | Mapa R.U.M.O.

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