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Fernando Lemos nunca precisou escolher entre ser fotógrafo, designer, poeta ou artista

há 16 horas
2 min de leitura

Retrospectiva que abre no IMS Paulista reúne cerca de 400 objetos e mostra uma trajetória em que fotografia, desenho, design, poesia e política nunca estiveram realmente separados.



O Instituto Moreira Salles abre neste sábado, 19 de setembro, no IMS Paulista, a exposição Quanto mais desejo, mais invento o que vejo, retrospectiva dedicada ao centenário de Fernando Lemos. São aproximadamente 400 objetos produzidos ao longo de sete décadas, entre fotografias, desenhos, projetos gráficos, poemas e trabalhos ligados à moda, à publicidade e à atividade política.


A exposição parte principalmente do arquivo de Lemos adquirido pelo IMS em 2019 e posteriormente inventariado e catalogado. Mais do que organizar a produção de um fotógrafo, o conjunto ajuda a mostrar uma trajetória difícil de encaixar em uma única profissão.


Lemos nasceu em Lisboa, em 1926, e realizou entre o fim dos anos 1940 e o início dos 1950 um dos conjuntos mais importantes do surrealismo fotográfico português. Suas imagens exploravam enquadramentos, luz, sobreposições, manipulação da prata e performances dos próprios retratados. A fotografia já aparecia ali menos como registro e mais como material para construção visual.


Ao se mudar para o Brasil, em 1953, sua atuação se ampliou ainda mais. Lemos trabalhou como designer gráfico, publicitário, professor, editor, cenógrafo, jornalista, poeta e gestor cultural. Participou da formação do design brasileiro, colaborou com empresas e instituições e atuou em espaços como a FAU-USP e o Centro Cultural São Paulo.


Uma trajetória que parece especialmente atual


Vista em 2026, a retrospectiva ganha uma camada adicional. A fotografia atravessa novamente uma discussão sobre seus limites, agora impulsionada por ferramentas generativas, imagens híbridas, vídeo, design e produção sintética.


A carreira de Lemos mostra que esse trânsito entre linguagens é muito anterior à inteligência artificial. Fotografia, desenho, poesia e design coexistiam em sua produção sem a necessidade de definir onde terminava uma disciplina e começava a outra.


O próprio Lemos usava a expressão “operário visual” para se definir. Hoje, ela soa particularmente atual para uma geração de profissionais que fotografa, filma, dirige, edita, cria campanhas e incorpora novas ferramentas ao trabalho.


Isso não significa que a fotografia esteja perdendo identidade. A retrospectiva sugere justamente outra leitura: alguns autores construíram relevância porque a fotografia funcionava como ponto de partida, e não como limite de atuação.


Quanto mais desejo, mais invento o que vejo fica em cartaz no IMS Paulista até 7 de fevereiro de 2027, com entrada gratuita.


A exposição recupera uma trajetória histórica, mas chega num momento em que sua pergunta parece bastante contemporânea: até que ponto ainda faz sentido exigir que quem trabalha com imagem escolha apenas uma linguagem?


A Curadoria Essencial acompanha exposições, prêmios, bolsas e movimentos da cultura visual que ampliam o repertório de quem vive da fotografia.


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