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Eleições 2026: o que as regras do TSE sobre IA significam para fotógrafos de campanha

  • há 6 dias
  • 7 min de leitura

Conteúdos sintéticos exigem identificação, determinadas manipulações são proibidas e a preservação dos arquivos originais passa a ter ainda mais valor para quem produz imagens políticas.



Uma campanha nacional decidiu realizar um novo ensaio fotográfico depois de identificar que apoiadores estavam recorrendo excessivamente a imagens artificiais nas redes sociais.


O objetivo era ampliar o acervo de fotografias atuais, oferecer material real para a comunicação e reduzir possíveis conflitos com as regras eleitorais. O episódio envolve uma candidatura específica, mas revela uma questão muito mais ampla para 2026: quanto mais fácil se torna fabricar uma imagem política, maior pode ser o valor de uma fotografia com autoria, procedência e contexto verificáveis.


Para fotógrafos que trabalham com campanhas, assessorias, partidos, agências e mandatos, a discussão não se limita aos deepfakes mais evidentes. Ela alcança retratos, coberturas de agenda, peças publicitárias, montagens, preenchimentos generativos, remoção de elementos e adaptações feitas para as redes sociais.


A inteligência artificial pode continuar fazendo parte do fluxo. O cuidado começa quando ela deixa de apenas auxiliar o trabalho e passa a modificar aquilo que a imagem afirma ter acontecido.


A fotografia volta a funcionar como infraestrutura de campanha

Uma campanha eleitoral precisa de muito mais do que uma boa fotografia oficial.

Ela precisa de retratos verticais e horizontais, imagens para imprensa, bastidores, visitas, encontros, peças regionais, anúncios, vídeos, materiais impressos e publicações produzidas quase diariamente.


Quando esse banco é pequeno, antigo ou desorganizado, começa a pressão por soluções rápidas. Uma fotografia é estendida para caber em outro formato. Pessoas são removidas. O cenário é trocado. Uma multidão aparece onde havia espaços vazios. O candidato é inserido em ambientes nos quais nunca esteve.


A facilidade técnica não elimina o problema editorial.

Uma imagem pode parecer apenas ilustrativa para quem a criou e, ao mesmo tempo, circular como registro de um acontecimento verdadeiro para quem a recebe.


Por isso, o ensaio político de 2026 não deve ser visto apenas como produção estética. Ele se transforma em uma base de comunicação: um acervo amplo, atualizado, organizado e preparado para diferentes usos.


O que dizem as regras eleitorais sobre inteligência artificial

A Resolução nº 23.755, publicada pelo Tribunal Superior Eleitoral em março de 2026, atualizou as normas sobre propaganda eleitoral.


A regra determina que o uso de conteúdo sintético multimídia gerado por inteligência artificial ou tecnologia equivalente deve ser informado de maneira explícita, destacada e acessível quando a tecnologia for empregada para criar, substituir, omitir, mesclar, sobrepor ou alterar imagens e sons. A comunicação também deve indicar qual tecnologia foi utilizada.


O TSE procura impedir que conteúdos fabricados, falsos ou gravemente descontextualizados prejudiquem a integridade do processo eleitoral. A regulamentação também mantém a proibição do uso de deepfakes para favorecer ou prejudicar candidaturas.


Há ainda uma restrição específica para o período mais sensível da eleição. Nas 72 horas anteriores ao pleito e nas 24 horas posteriores ao encerramento da votação, fica limitada a circulação de novos conteúdos sintéticos que modifiquem imagem, voz ou manifestação de candidatos, candidatas ou pessoas públicas, mesmo quando identificados como produzidos ou alterados por IA.


Isso significa que a identificação não transforma automaticamente qualquer conteúdo em material permitido. A natureza da manipulação, o contexto, o momento da publicação e o possível impacto eleitoral também precisam ser considerados.


O que o TSE orienta sobre IA nas Eleições 2026

Conteúdos sintéticos usados em propaganda eleitoral precisam informar, de modo explícito, destacado e acessível, que houve fabricação ou manipulação e indicar a tecnologia utilizada. A regra abrange intervenções como criar, substituir, omitir, mesclar, sobrepor ou alterar imagens e sons.

A identificação, porém, não autoriza deepfakes, desinformação ou imagens gravemente descontextualizadas destinadas a beneficiar ou prejudicar candidaturas. Dependendo do caso, a conduta pode gerar retirada do conteúdo e outras consequências eleitorais.


Para quem fotografa campanhas, a orientação prática é preservar os arquivos originais, registrar alterações relevantes e consultar a assessoria jurídica antes de publicar imagens modificadas de maneira capaz de alterar o sentido factual da cena.



Nem toda utilização de IA tem o mesmo peso

Existe uma diferença importante entre usar inteligência artificial para organizar o trabalho e utilizá-la para fabricar uma representação política.


Uma ferramenta pode ajudar a localizar fotografias, identificar arquivos semelhantes, preencher metadados, transcrever informações, reduzir ruído ou acelerar etapas de seleção. Esses usos não produzem necessariamente uma realidade nova.


O risco aumenta quando a tecnologia interfere no conteúdo factual da cena.

Alguns exemplos ajudam a enxergar a diferença:


Menor risco editorial

Seleção de imagens semelhantes, catalogação, correções moderadas de exposição, equilíbrio de cor, redução de ruído, recorte e adaptação de proporção sem inserir informações novas.


Mesmo nesses casos, o fotógrafo precisa avaliar contratos, privacidade, armazenamento dos arquivos e políticas de treinamento das plataformas utilizadas.


Zona de atenção

Ampliação generativa do cenário, troca de céu, remoção de pessoas, reconstrução de objetos, alteração de roupas, mudança de placas e preenchimento de áreas inexistentes na fotografia original.


A intervenção pode parecer discreta, mas já modifica elementos reais da cena. Dependendo do uso, da relevância da alteração e da forma como o material será apresentado, pode ser necessário identificar a manipulação e consultar a assessoria jurídica da campanha.


Alto risco

Criação integral da cena, fabricação de encontros, inserção do candidato em lugares nos quais não esteve, aumento artificial de público, simulação de apoio popular, alteração depreciativa de adversários ou criação de acontecimentos que nunca ocorreram.


Aqui, a imagem deixa de ser uma simples fotografia editada. Ela passa a apresentar uma afirmação visual fabricada.



A pergunta decisiva não é apenas “foi usada IA?”

Esse pode ser o erro mais comum das equipes. Uma fotografia pode usar ferramentas baseadas em inteligência artificial e continuar preservando o acontecimento registrado. Outra pode resultar de um arquivo fotográfico verdadeiro, mas terminar profundamente alterada.


O critério mais útil para fotógrafos, editores e equipes de campanha é perguntar:

A intervenção mudou o significado factual da imagem?


Retirar uma pequena sujeira do sensor não tem o mesmo efeito que retirar uma pessoa da reunião.


Estender uma parede neutra para adaptar o enquadramento não produz necessariamente o mesmo risco que criar uma plateia maior. Corrigir uma dobra na roupa não equivale a colocar o candidato diante de um grupo com o qual ele nunca se encontrou.


A análise não pode depender apenas da ferramenta utilizada. É preciso observar o que mudou, por que mudou, como a fotografia será apresentada e que interpretação ela pode produzir.



O fotógrafo também precisa proteger seu trabalho

Em campanhas, uma fotografia raramente permanece apenas com quem a produziu. Ela pode passar por designers, editores, assessores, agências, equipes regionais, apoiadores e perfis não oficiais.


Isso cria uma questão profissional importante: uma imagem entregue corretamente pode ser alterada depois sem o conhecimento do fotógrafo. Por isso, o contrato e o fluxo de entrega precisam estabelecer responsabilidades.


É recomendável definir:

  • quem pode editar os arquivos;

  • quais alterações são permitidas;

  • quando a aprovação do fotógrafo será necessária;

  • como o crédito será mantido;

  • quem responde por versões manipuladas posteriormente;

  • como os originais serão preservados;

  • quais arquivos poderão ser encaminhados a terceiros;

  • se ferramentas generativas poderão ser usadas.


Os arquivos originais, as versões entregues, os metadados e o histórico de edição podem se tornar elementos relevantes para demonstrar a procedência da imagem.


O fotógrafo não controla toda a circulação posterior, mas pode criar um processo capaz de documentar aquilo que produziu e entregou.


O risco das imagens feitas por apoiadores

Campanhas não controlam apenas seus canais oficiais. Apoiadores podem criar montagens, memes, vídeos, retratos sintéticos e cenas heroicas usando o rosto de candidatos. Mesmo quando o conteúdo nasce fora da estrutura formal, ele pode ganhar grande circulação e ser confundido com material oficial.


Foi justamente a presença excessiva de representações artificiais publicadas por apoiadores que levou uma campanha a produzir um novo acervo de fotografias reais.

Isso abre uma frente de trabalho para os fotógrafos.


Um banco de imagens amplo e de fácil acesso reduz a necessidade de improvisação. A equipe pode disponibilizar retratos, fundos, recortes autorizados, arquivos para imprensa, diferentes expressões, roupas e enquadramentos preparados para os formatos mais utilizados. Quanto melhor for o acervo, menor tende a ser a pressão para inventar imagens.


A fotografia real também pode manipular

A discussão exige outro ponto de vista. A ausência de inteligência artificial não torna automaticamente uma fotografia neutra ou verdadeira.


Enquadramento, momento do disparo, seleção, iluminação, direção, legenda e edição também constroem significados. Uma fotografia real pode esconder um ambiente vazio, sugerir uma multidão maior ou retirar do quadro elementos que mudariam a interpretação.


A diferença é que, na fotografia documental, existe uma relação física entre câmera, pessoa, espaço e instante. A imagem pode ser parcial, dirigida ou interessada, mas parte de algo que esteve diante da lente.


A IA generativa consegue romper essa relação e ainda preservar a aparência de registro fotográfico. É por isso que procedência e contexto ganham importância. Não basta a imagem parecer real. Será necessário demonstrar de onde veio, quem a produziu e quais alterações recebeu.


Uma oportunidade para fotógrafos profissionais

A expansão das imagens sintéticas não significa necessariamente menos trabalho para fotógrafos de campanha.


Ela pode aumentar a procura por profissionais capazes de oferecer algo que os geradores não entregam sozinhos: presença real, acesso, contexto, responsabilidade e continuidade visual.


Entre os serviços que podem ganhar importância estão:

  • ensaios atualizados ao longo da campanha;

  • cobertura de agendas e bastidores;

  • banco de imagens organizado;

  • entrega rápida para diferentes equipes;

  • retratos adaptados a múltiplos formatos;

  • preservação de originais;

  • registro do histórico de edição;

  • orientação sobre usos permitidos;

  • padronização visual entre regiões;

  • política de autenticidade para as imagens.


O trabalho deixa de terminar no clique ou na entrega dos arquivos. O fotógrafo pode participar da construção de um sistema visual mais confiável, reduzindo improvisações, alterações sem controle e dependência de conteúdos fabricados.


Em 2026, fotografar também será produzir confiança

A inteligência artificial continuará presente na comunicação política. Ela será usada para acelerar processos, adaptar materiais, criar peças e disputar atenção.


A questão central será distinguir assistência técnica de fabricação de realidade.

Para fotógrafos, campanhas e agências, a resposta mais segura passa por três princípios: preservar os originais, documentar as intervenções e não modificar o sentido factual da cena sem identificação e avaliação jurídica.


Em uma eleição marcada pela facilidade de produzir pessoas, lugares e acontecimentos sintéticos, uma fotografia real pode representar mais do que uma boa imagem.


Ela pode funcionar como registro de presença, prova de contexto e ativo de confiança.

Este conteúdo apresenta uma análise jornalística e profissional das regras eleitorais. Decisões sobre peças específicas devem ser avaliadas pela assessoria jurídica da campanha à luz da legislação e do contexto de publicação.


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