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O que estou lendo: o fotógrafo generalista, a disputa pelas lentes e a fotografia diante da crise climática

  • há 4 horas
  • 6 min de leitura

As leituras de hoje passam por inteligência artificial em territórios reais, mudanças no modelo profissional dos fotógrafos, disputas entre fabricantes, memória tecnológica e projetos que usam a imagem como instrumento ambiental



A seleção desta segunda-feira mostra como a fotografia continua se expandindo em direções muito diferentes.


De um lado, o Google precisou retirar uma ferramenta de inteligência artificial do Google Earth praticamente um dia depois do lançamento. De outro, um estudo sugere que os fotógrafos com maior faturamento já não dependem de uma única especialidade.


Também aparecem nesta edição uma disputa de patente entre Nikon e Viltrox, a nova edição do Festival Hercule Florence, um projeto brasileiro que transforma fotografias em ações ambientais e uma lembrança de como a Polaroid SX-70 mudou a experiência cotidiana com a imagem.


Google descobre que nem toda superfície visual deveria virar um gerador de IA

O Google retirou do ar uma ferramenta que permitia gerar imagens diretamente dentro do Google Earth. O recurso havia sido lançado em 30 de julho e removido no dia seguinte, após jornalistas e pesquisadores mostrarem como ele poderia criar cenas falsas em lugares reais.


Entre os testes divulgados estavam imagens de uma cratera em Los Angeles, o Capitólio dos Estados Unidos inundado e uma ilha iraniana em chamas. A empresa afirmou que trabalha em proteções mais fortes antes de considerar o retorno da ferramenta.


A reação ajuda a separar duas questões que muitas vezes aparecem misturadas. O problema não está apenas na capacidade de gerar uma imagem falsa. Está no lugar em que essa imagem é produzida.


O Google Earth funciona como mapa, referência geográfica, memória urbana, ferramenta jornalística e fonte para investigações. Inserir geração sintética dentro desse ambiente transfere parte da confiança associada à plataforma para uma imagem que nunca existiu.


A presença de uma marcação digital como o SynthID pode ajudar na verificação posterior, mas não impede que uma captura de tela circule fora do contexto original. O episódio expõe uma pergunta que as empresas de tecnologia precisarão enfrentar com mais cuidado: só porque uma interface contém imagens, ela precisa oferecer geração por IA?

Leia a matéria no Decrypt. 


Nikon perde patente na China após contestação da Viltrox (mas ainda pode recorrer)

A autoridade chinesa de propriedade intelectual invalidou uma patente da Nikon relacionada ao encaixe mecânico entre câmeras e acessórios, como lentes intercambiáveis.

A contestação foi apresentada pela Shenzhen Jueying Technology, empresa conhecida comercialmente como Viltrox. A patente descrevia elementos como quatro saliências de travamento, suas posições angulares e a disposição dos contatos elétricos no encaixe.


Segundo a decisão, as características apresentadas pela Nikon seriam otimizações previsíveis de soluções já conhecidas, e não um avanço técnico suficientemente inventivo para justificar exclusividade. Todas as reivindicações da patente foram invalidadas na China, embora a Nikon ainda possa recorrer judicialmente.


Para o fotógrafo, nada muda imediatamente nas câmeras ou lentes já disponíveis. O caso importa por outro motivo: mostra como a competição no mercado de objetivas também ocorre nos bastidores jurídicos.


Fabricantes chineses como Viltrox, Sigma, Tamron e outros produtores independentes ocupam um espaço crescente no mercado porque oferecem mais alternativas de preço, distância focal e abertura. A disputa por patentes pode determinar até onde essas empresas conseguem desenvolver produtos compatíveis com os sistemas das grandes marcas.

Leia a análise no DIY Photography. 



O fotógrafo diversificado deixa de ser exceção

Um artigo publicado pelo PetaPixel discute a ascensão do fotógrafo diversificado (generalista): aquele que atende casamentos, retratos corporativos, famílias, eventos e outras demandas em diferentes dias da mesma semana.

A análise cita um estudo da HoneyBook com mais de 455 fotógrafos. Entre os profissionais que faturam mais de US$ 100 mil por ano, quase 86% oferecem quatro ou mais tipos de serviço. Segundo os dados apresentados, fotógrafos diversificados teriam uma probabilidade 50% maior de alcançar as faixas superiores de receita.


Os números são relevantes, mas pedem uma leitura cuidadosa. Diversificar não significa necessariamente oferecer qualquer tipo de fotografia para qualquer cliente.

Existe uma diferença entre ampliar fontes de receita a partir de capacidades relacionadas e construir um cardápio tão extenso que o mercado já não consegue entender pelo que o profissional deseja ser reconhecido.


A diversificação mais consistente costuma preservar algum eixo comum. Um fotógrafo pode atender famílias, eventos e retratos profissionais mantendo uma mesma abordagem de direção, experiência ou linguagem. Também pode criar produtos educacionais, licenciar imagens, trabalhar com vídeo ou oferecer consultoria sem abandonar o núcleo de sua identidade.


O artigo toca em uma mudança importante: a especialidade talvez deixe de ser definida apenas pelo assunto fotografado. Ela pode estar no modo de olhar, na experiência oferecida ou no problema que o fotógrafo aprendeu a resolver.

Leia o artigo no PetaPixel. 


Festival Hercule Florence conecta fotografia, território e crise climática

Campinas recebe, entre 5 e 23 de agosto, a 16ª edição do Festival Hercule Florence de Fotografia. O tema deste ano é “Territórios em Transformação: da Expedição Langsdorff à crise climática”.

A programação reúne exposições, oficinas, caminhadas fotográficas, projeções, intervenções urbanas e debates. A proposta parte dos territórios registrados por Hercule Florence durante a Expedição Langsdorff para observar o que aconteceu com paisagens, rios, florestas, cidades e povos originários quase dois séculos depois.


Uma das escolhas mais interessantes está na ocupação do espaço urbano. Parte da fotografia deixa as galerias e aparece em fachadas, muros, tapumes e ruas de Campinas.

Esse movimento reforça uma dimensão pública da imagem. Ao aproximar fotografia e crise climática, o festival não usa a paisagem apenas como tema estético. O território passa a funcionar como documento das transformações ambientais, sociais e urbanas.


Também existe uma ligação histórica importante. Hercule Florence realizou em Campinas, em 1833, experiências independentes que integram a história da invenção da fotografia no Brasil. A edição atual usa essa memória para olhar menos para a celebração de uma descoberta e mais para as mudanças que a imagem pode ajudar a revelar.


Fotografias financiam ações de preservação ambiental

O Projeto Água Vida, criado pelo fotógrafo Mario Barila, usa a venda de imagens para promover e financiar ações ambientais.

Foto: Mário Barila | Divulgação
Foto: Mário Barila | Divulgação

A iniciativa surgiu em 2014 e inicialmente concentrou parte de sua atuação na Amazônia. Hoje, alcança diferentes biomas brasileiros e também realizou atividades fora do país. Barila, economista de formação, passou a se dedicar à fotografia depois da aposentadoria e teve Araquém Alcântara como mentor.


No Amapá, o projeto apoiou viveiros de mudas, reflorestamento e educação ambiental. Em Pernambuco, trabalhou com o povo indígena Xukuru do Ororubá na recuperação de áreas da Caatinga. No Cerrado, participou da ampliação de viveiros e da distribuição de sementes e insumos. Também colaborou com uma iniciativa de recuperação ambiental na Patagônia argentina depois de incêndios florestais.


O caso chama atenção porque a fotografia não aparece apenas como registro ou denúncia. Ela também integra o modelo que sustenta a ação.

A venda das imagens ajuda a financiar o trabalho ambiental, criando um circuito entre produção visual, sensibilização do público e intervenção concreta. É uma lembrança de que um projeto fotográfico pode produzir valor cultural, social e econômico ao mesmo tempo, desde que sua estrutura seja pensada para isso.


A câmera que fez a fotografia parecer imediata

Uma reportagem da NPR relembra a chegada da Polaroid SX-70, lançada em 1972. A câmera dobrável produzia automaticamente uma fotografia colorida que se revelava diante do usuário em poucos minutos.


Desenvolvida com a participação do designer industrial Henry Dreyfuss, a SX-70 combinava engenharia, design e simplicidade de uso. O corpo revestido em couro preto e marrom, os elementos metálicos e o botão vermelho ajudaram a transformar o aparelho em objeto de desejo e símbolo visual de sua época.

A importância da SX-70 vai além da nostalgia analógica. Ela alterou a relação entre fotografar e ver.


Antes dela, o resultado normalmente dependia do laboratório e de um intervalo maior entre o disparo e a imagem pronta. A Polaroid colocou produção, revelação e compartilhamento dentro da mesma experiência.


É possível enxergar ali uma antecipação da lógica que mais tarde se tornaria central na fotografia digital e nos smartphones: fazer uma imagem e poder vê-la quase imediatamente.

A diferença é que a espera de alguns minutos também fazia parte do encantamento. A fotografia surgia fisicamente, diante das pessoas, como um pequeno acontecimento.


O que conecta estas leituras

As seis histórias falam de tecnologias, mercados e projetos muito diferentes, mas compartilham uma questão: o valor da fotografia depende cada vez mais do contexto em que a imagem é criada, apresentada e utilizada.


Uma imagem sintética dentro do Google Earth produz um problema diferente da mesma imagem em um gerador criativo. Uma lente alternativa ganha importância quando amplia o acesso a um sistema. Um fotógrafo pode diversificar serviços sem perder direção. Uma fotografia ambiental pode deixar de ser apenas registro e ajudar a financiar uma ação concreta.


Até a Polaroid SX-70 continua relevante porque mostra que as transformações mais duradouras raramente acontecem apenas pela qualidade técnica. Elas acontecem quando uma tecnologia muda a experiência das pessoas com a imagem.


IA na fotografia: criação, mercado e valor profissional

No dia 8 de agosto, em São Paulo, teremos um encontro presencial para discutir como a inteligência artificial está alterando a produção visual, o mercado e as decisões profissionais de quem vive da fotografia.

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São Paulo, SP

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