As DSLRs “morreram”, mas as lentes continuam vendendo. O que isso revela sobre o mercado fotográfico
- Leo Saldanha

- há 10 horas
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Enquanto o discurso da indústria aponta para a obsolescência, o mercado real mostra um ecossistema mais híbrido, pragmático e resistente a rupturas forçadas

Durante anos, a narrativa dominante da indústria fotográfica foi clara: as câmeras DSLR estavam com os dias contados. A ascensão dos sistemas mirrorless, combinada a campanhas agressivas de marketing e à descontinuação de linhas tradicionais, ajudou a consolidar a ideia de que a era reflex havia terminado.
Na prática, porém, o mercado vem contando uma história mais complexa.
Apesar do discurso de obsolescência, as vendas de lentes para DSLRs seguem em alta em diversos mercados. Fabricantes como a Sigma já reconheceram publicamente que a demanda por esse tipo de equipamento continua crescendo, mesmo em um cenário onde novas câmeras reflex praticamente deixaram de ser lançadas.
O paradoxo chama atenção: se o sistema “morreu”, por que seus componentes seguem tão relevantes?
Parte da resposta está no próprio ritmo de adoção tecnológica. Muitos fotógrafos construíram seus kits ao longo de anos, investindo em lentes de alto valor e desempenho. A migração para sistemas mirrorless, em especial para montagens proprietárias e fechadas, exige não apenas a troca do corpo, mas a substituição de todo o conjunto óptico.
Esse custo de transição, muitas vezes, não se justifica do ponto de vista prático. Lentes DSLR continuam entregando qualidade técnica elevada, especialmente quando utilizadas com adaptadores ou em fluxos de trabalho já consolidados.
A migração para sistemas mirrorless, especialmente aqueles baseados em montagens proprietárias e ecossistemas fechados, exige não apenas a troca do corpo da câmera, mas a substituição de todo o conjunto óptico.
Ao controlar essas montagens, empresas como Canon e Nikon acabam limitando a oferta de alternativas mais acessíveis. O resultado é um mercado em que o equipamento novo se torna mais caro e menos flexível, enquanto o ecossistema anterior segue funcionando.
Nesse cenário, o mercado de usados ganha ainda mais relevância. Lentes reflex passam a circular com maior intensidade, não por nostalgia, mas por eficiência econômica e operacional.
A contradição entre discurso e prática também expõe um aspecto recorrente da indústria fotográfica: a tendência de anunciar rupturas que, na realidade, acontecem de forma lenta, híbrida e desigual. Sistemas não desaparecem de um dia para o outro. Eles se transformam, convivem e, muitas vezes, resistem mais do que o marketing sugere.
A distância entre o discurso oficial da indústria e o comportamento real do mercado tem se tornado cada vez mais visível na fotografia.
Na comunidade Fotograf.IA + C.E.Foto, esse tipo de contradição é analisado de forma crítica, especialmente quando envolve decisões de compra, atualização de equipamento e estratégia de longo prazo.
Enquanto isso, debates sobre “morte” e “renascimento” de tecnologias seguem alimentando podcasts, vídeos e comparativos, como os episódios recentes do Bokeh Face, que discutem justamente esse desalinhamento entre narrativa e realidade.
No fim, o mercado se mostra menos binário do que os slogans fazem parecer. Nem tudo que é novo substitui o que veio antes. Nem tudo que é declarado obsoleto deixa de ser funcional.
Esse tipo de conversa também tem sido levado para encontros presenciais, como o evento Fotografia Humana em Tempos de IA, onde o foco é analisar o que está mudando na prática e o que continua fazendo diferença para quem vive da imagem.



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