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Ron Howard revisita Richard Avedon e lembra que a grande fotografia nunca foi apenas técnica

  • há 9 minutos
  • 3 min de leitura

Novo documentário sobre o fotógrafo mostra como Avedon construiu parte da linguagem visual do século 20 lendo pessoas, movimentos e silêncios diante da câmera

Veruschka von Lehndorff, vestido de Robert David Morton, Nova York, janeiro de 1967 (contatos) (Crédito da imagem: © Fundação Richard Avedon)
Veruschka von Lehndorff, vestido de Robert David Morton, Nova York, janeiro de 1967 (contatos) (Crédito da imagem: © Fundação Richard Avedon)


Richard Avedon fotografou algumas das figuras mais marcantes do século 20. Marilyn Monroe, Pablo Picasso, Lauren Hutton, Twiggy, Brooke Shields e o jovem Lew Alcindor, antes de se tornar Kareem Abdul-Jabbar, passaram por sua câmera. Mas a força de sua obra nunca esteve apenas nos nomes diante dele.


Agora, essa trajetória volta ao centro da conversa com Avedon, novo documentário dirigido por Ron Howard, que estreou em Cannes. O filme, realizado em colaboração com a Richard Avedon Foundation, percorre uma carreira de 60 anos com imagens de arquivo, contatos, entrevistas antigas, filmes domésticos e depoimentos de nomes ligados à moda, à cultura e à própria história visual construída por Avedon.


Talvez o dado mais interessante do filme esteja numa frase simples, lembrada por um ex-assistente de estúdio: Avedon “não era técnico”.


A frase soa estranha quando aplicada a alguém que ajudou a definir a linguagem visual do século 20. Mas talvez explique justamente por que Avedon continua tão atual.


Sua força estava em ler pessoas. Em criar uma situação. Em esperar. Em provocar. Em perceber quando a pose começava a cair. Ele entendia que o retrato mais revelador muitas vezes aparece depois do sorriso ensaiado, depois do gesto esperado, depois da imagem que o fotografado gostaria de entregar ao mundo.


Marilyn Monroe, Nova York, 6 de maio de 1957 (Crédito da imagem: © Fundação Richard Avedon)
Marilyn Monroe, Nova York, 6 de maio de 1957 (Crédito da imagem: © Fundação Richard Avedon)

O fundo branco, uma de suas marcas mais reconhecíveis, não era pobreza visual. Era método. Ao retirar cenário, objetos e distrações, Avedon deixava quase nada entre a câmera e a pessoa. O que sobrava era presença, desconforto, vaidade, cansaço ou alguma mistura difícil de nomear.


A famosa sessão com Marilyn Monroe, em 1957, ajuda a entender esse ponto. O contato mostra variações de expressão, energia, defesa e queda. Há a Marilyn expansiva, performática, luminosa. Mas também há a Marilyn cansada, suspensa, menos protegida pela personagem pública. A fotografia escolhida não nasce apenas da exposição correta. Nasce da edição. Da inteligência de perceber qual milésimo de segundo carregava mais verdade.


O mesmo aparece nos contatos de Veruschka von Lehndorff, em 1967. Avedon estimulava movimento. Queria que a modelo dançasse, deslocasse o corpo, saísse da pose fixa. Hoje isso parece natural em muitos ensaios de moda, retrato e publicidade. Mas essa naturalidade foi construída por fotógrafos que entenderam que o corpo parado também pode mentir.


Richard Avedon, estúdio de Paris, 1948 (Crédito da imagem: © Fundação Richard Avedon)
Richard Avedon, estúdio de Paris, 1948 (Crédito da imagem: © Fundação Richard Avedon)

O documentário, segundo a reportagem original, parece entregar algo importante: o retrato de um fotógrafo que era, antes de tudo, uma pessoa interessada em pessoas. A câmera era ferramenta. A relação era o instrumento principal.


Essa leitura importa agora porque o mercado fotográfico está cada vez mais cercado por automação, inteligência artificial, presets, câmeras melhores em celulares e discursos técnicos repetidos. Avedon reaparece como lembrança incômoda: o equipamento nunca foi irrelevante, mas também nunca foi suficiente.


O que fez Avedon ser Avedon não foi a câmera que ele usou. Foi a forma como criou situações nas quais algo humano podia emergir diante dela. Técnica se aprende, se treina, se atualiza. Mas leitura humana, presença, repertório, direção, edição e coragem de escolher um instante menos confortável são outra camada.


Richard Avedon, autorretrato, Nova York, 1963 (Crédito da imagem: © Fundação Richard Avedon)
Richard Avedon, autorretrato, Nova York, 1963 (Crédito da imagem: © Fundação Richard Avedon)

O novo filme de Ron Howard parece chegar num momento oportuno. Não apenas para celebrar uma lenda da fotografia, mas para recolocar uma pergunta antiga no centro da prática fotográfica: o que, exatamente, um fotógrafo entrega quando aperta o botão?


Avedon, pelo visto, entregava muito mais do que uma exposição bem resolvida. Entregava uma leitura.


No fim, a pergunta não é apenas qual câmera usar ou qual técnica dominar. É o que o seu trabalho comunica antes mesmo da proposta chegar. Essa é uma das leituras que faço no Mapa R.U.M.O., uma análise externa do negócio, da percepção de valor e da presença visual de fotógrafos profissionais.


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