Momento R.U.M.O. - Amamos odiar e odiamos amar o Instagram
- há 4 horas
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Canal, vício ou os dois

Toda semana alguém publica no Threads que o Instagram está morrendo. A ironia quase passa despercebida: a reclamação foi feita em outra rede da Meta, pelo celular, provavelmente depois de mais de uma hora rolando o feed que a pessoa diz odiar. A mesma pessoa que declarou que fotógrafo não é criador de conteúdo publicou onze vezes essa semana.
A relação é velha e torta. Publicamos esperando reação, construímos uma expectativa de que vai bombar, e quando não vai a culpa é do algoritmo. Quando vai, descobrimos que viralizar pode atrair gente que não tem nada a ver com o que fazemos. Trinta curtidas de quem compra valem mais do que três mil de quem só passa o dedo. Quinhentos seguidores que pagam são um negócio melhor do que dez mil que não abrem o direct.
Isso não é opinião. É aritmética.
A Meta lançou o Instants, que recupera o espírito dos primórdios: foto que some em 24 horas, sem edição, sem captura de tela, sem upload do rolo. Metade odeia. A outra metade ama. E todo mundo continuou lá. Porque a plataforma tem mais de dois bilhões de usuários e nenhum concorrente chegou perto. O Irys cresce, mas atrai fotógrafos cansados do Instagram. Os clientes continuam no Instagram.
Mais de dois trilhões de fotos foram tiradas em 2025. 5,3 bilhões por dia. Mais de 60 mil por segundo. A maior parte nunca será vista por ninguém. Vai sumir no deslize de um dedo sem deixar rastro. E o cliente que você quer alcançar também está lá, também sobrecarregado, também rolando sem parar. O problema não é só aparecer no feed. É o que faz alguém parar o dedo quando você aparece.
Tem mais: gente ficando seis horas por dia na plataforma. Seis horas. Se um ensaio de família de seis horas fatura três mil reais, cada hora vale quinhentos. Seis horas no Instagram não é engajamento. É uma decisão financeira disfarçada de hábito.
Sebastião Salgado, quando perguntado sobre rede social, mal sabia o que era. Existia uma conta com cem mil seguidores em homenagem a ele. Isso significa algo: quem é icônico pode estar lá sem saber. Nós, que não somos icônicos ainda, temos que curtir, comentar, repostar, responder nos Stories e torcer para que o algoritmo se lembre de nós essa semana.
O Instagram importa e vai continuar importando. Vende, dá visibilidade, às vezes menos do que deveria, mas ainda está de pé. O problema não é a plataforma. O problema é a relação que construímos com ela: dependência emocional de métricas de vaidade e estratégia de atenção dispersa.
A resposta mais honesta talvez esteja no menor mercado viável. Crescer para poucos que te valorizam e te indicam. Atender cem pessoas com excelência antes de sonhar com mil. Se você não consegue criar com consistência para uma sala pequena, o volume maior só vai amplificar o problema.
O Instagram é um canal. Valioso, propositalmente caótico, em mudança permanente porque isso nos mantém checando a cada dez minutos. Contar histórias para poucos que de fato se importam com o que você tem a dizer talvez seja a única forma sã de estar lá.
E talvez a pergunta mais importante não seja se o Instagram ainda funciona. A pergunta é se o seu negócio consegue funcionar sem depender emocionalmente dele.
É esse tipo de leitura que faço no Mapa R.U.M.O.: olhar de fora para o negócio fotográfico, entender onde o posicionamento está confuso, onde o valor não aparece e onde a comunicação virou esforço repetido sem direção.
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