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Como usar IA na fotografia sem perder a alma

Efeitos colaterais do avanço da IA na fotografia: quando todo mundo escreve, edita e pensa igual, algo saiu do controle

vsmilelx/Unsplash
vsmilelx/Unsplash

Três fotógrafos diferentes publicaram com praticamente a mesma legenda na semana passada. Não se conheciam. Cidades diferentes. Nichos diferentes. Mas o texto era o mesmo: tom corporativo, estrutura idêntica, aquele jeito polido que não parece de ninguém.


Não foi coincidência. Era ChatGPT.


E isso está acontecendo em escala. Não só com texto. Com seleção de fotos. Com edição. Com estratégia. Ferramentas de automação resolvendo problemas reais, acelerando trabalho, organizando caos. Tudo funciona e ajuda. Até o ponto em que para de ajudar e começa a substituir.


A diferença é sutil. Você não percebe quando cruza a linha.


Um dia você está usando IA para estruturar uma ideia que já tinha. No outro, está publicando texto que você não escreveu, sobre algo que você não pensou, num tom que não é seu. E funciona. Clientes curtem. Engajamento sobe. Você economiza tempo.

Só que tem um custo invisível.


Quando você terceiriza a escrita, para de treinar a própria voz. Quando delega a seleção das fotos, para de afinar o olhar editorial. Quando aceita sugestões estratégicas sem filtrar, começa a soar como todo mundo que está fazendo o mesmo.

E aí você vira genérico. E olha que nem foi de propósito. Mas porque a ferramenta que deveria te acelerar acabou te definindo.


Fotografia sempre foi escolha. Antes de apertar o botão, você escolhe enquadramento, luz, momento. Depois do clique, você escolhe qual foto fica, como edita, o que entrega. Esse processo de escolha não é burocracia. É autoria (lembra?).

Ferramentas como Aftershoot, Evoto, seleção automática baseada em IA prometem resolver isso mais rápido. E resolvem. Identificam desfoque, olho fechado, duplicata. Primeira triagem em segundos. Problema: quando você aceita a seleção final sem questionar, você para de exercitar o músculo que justifica por que uma foto é boa.


E quem não sabe justificar, não sabe defender valor. Entrega volume. Não entrega visão.

Isso, inclusive, já pode estar criando uma geração de fotógrafos que produz muito, entrega rápido, mas não consegue explicar por que escolheu aquela imagem. A resposta honesta seria "porque a IA sugeriu". Mas ninguém vai dizer isso. Vão improvisar uma justificativa depois. E isso, com o tempo, corrói a expertise de verdade. "Ninguém se importa mesmo!". Mas antes você se importava...


Cliente de fotografia não compra só imagem final. Compra processo e experiência. E sobretudo a sensação de ter sido visto por alguém que sabe o que está fazendo.

Quando você troca bastidor real por vídeo gerado por IA... aqueles com voz sintética narrando seu trabalho, imagens genéricas em movimento, tudo impecável, você perde autenticidade percebida. Não importa se o vídeo ficou bonito. Importa que não é real. E em mercado saturado de perfeição artificial, o real virou luxo.


Um vídeo tremido, você subindo numa escada, ajustando luz, errando e consertando, comunica muito mais competência do que qualquer animação polida. Porque mostra que você estava lá. Que você resolveu e especialmente que é humano.

E isso, hoje, vale mais do que parece.


Tem fotógrafo usando IA para ganhar tempo nas partes chatas (organização de arquivo, correção técnica em lote, resposta automática para perguntas repetidas) e investindo esse tempo em curadoria, relacionamento, presença. Esses estão bem.


E tem fotógrafo usando IA para tudo. Escreve por ele. Seleciona por ele. Edita por ele. Sugere estratégia por ele. Esses estão se tornando operadores de software. E nessa disputa, o software sempre vence. A visão crítica fica como?


O mercado está se dividindo rápido. De um lado, quem usa automação para amplificar identidade. Do outro, quem deixa a automação definir identidade. O meio-termo está sumindo.

A inteligência artificial não ameaça fotografia. O que ameaça é a terceirização da decisão. Porque decisão é o que te diferencia. Técnica todo mundo aprende. Equipamento todo mundo compra. Mas olhar, critério, presença... isso não se automatiza.


Se você quer usar IA sem virar genérico, a regra é simples: nunca publique nada que você não conseguiria reproduzir sem a ferramenta. Se você não sabe escrever aquilo sozinho, edite até saber. Se você não consegue justificar a escolha daquela foto, volte e escolha de novo. Se a estratégia veio pronta e você não entende por quê, não execute.


A IA deveria ser estagiária, não chefe. Ela executa. Você decide.

Quando isso inverte, você deixa de ser fotógrafo e vira operador. E operador é cargo que a própria IA vai eliminar nos próximos anos. Sem falar que o músculo da sua criatividade que se expressa na fotografia...pode estar atrofiando.


Esse texto é um alerta. O aprofundamento prático, com critérios claros de uso da IA, está disponível hoje para membros da comunidade Fotograf.IA + C.E.Foto.

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