Charly Techio cria o universo visual de “Mar de Poemas” com inteligência artificial
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Os vídeos acompanharam quase 40 minutos de dança e poesia no palco. Para alcançar o resultado imaginado, cada minuto exigiu cerca de quatro horas de experimentação e produção.

Esta semana, dança contemporânea, poesia e inteligência artificial dividiram o mesmo palco em Curitiba. No espetáculo Mar de Poemas, inspirado na obra de Cecília Meireles, a artista visual Charly Techio desenvolveu com IA os vídeos projetados durante quase 40 minutos de apresentação.
O resultado visto pelo público nasceu de um processo muito menos automático do que a expressão “feito com inteligência artificial” pode sugerir.
Segundo Charly, cada minuto de vídeo exigiu, em média, quatro horas de trabalho. Considerando a duração total do espetáculo, isso representa algo próximo de 160 horas entre experimentação, geração, seleção, ajustes e montagem.
“Foi um desafio e um aprendizado sobre as ferramentas. Nada é simples quando você quer que o resultado seja o que você imagina”, afirmou a artista em uma publicação sobre o projeto.
A velocidade de geração não é a velocidade da criação
Ferramentas de inteligência artificial conseguem produzir uma imagem em poucos segundos. Essa rapidez, porém, não significa que um trabalho autoral esteja pronto no mesmo intervalo.
Existe uma diferença importante entre gerar uma imagem interessante e construir uma sequência visual com quase 40 minutos de duração.
Em um projeto como Mar de Poemas, cada cena precisa conversar com a anterior e preparar a próxima. As imagens devem manter alguma coerência de atmosfera, movimento, cor e linguagem. Também precisam acompanhar o ritmo dos poemas, da dança, da iluminação e da interpretação no palco.
Isso exige testar diferentes caminhos, descartar resultados, corrigir inconsistências e adaptar a proposta inicial às possibilidades e aos limites das ferramentas.
A IA acelera algumas partes do processo. Ao mesmo tempo, cria novas etapas de trabalho.
Quanto mais específica é a visão do artista, maior tende a ser o esforço para conduzir a tecnologia até aquele resultado.
Quando a imagem precisa servir ao espetáculo
Os vídeos criados por Charly não foram pensados para existir isoladamente em uma tela.
Eles faziam parte de uma experiência presencial, ao lado dos corpos dos intérpretes, da iluminação, da projeção, do som e do espaço cênico.
Nesse contexto, uma imagem visualmente impressionante nem sempre é a melhor escolha. Ela pode competir com a dança, desviar a atenção do público ou romper a atmosfera construída em cena. O desafio não era apenas criar imagens bonitas. Era criar imagens que servissem ao espetáculo.
Essa diferença ajuda a compreender um dos caminhos mais interessantes para o uso artístico da inteligência artificial: a tecnologia não aparece necessariamente como substituta de outras linguagens, mas como mais uma camada dentro de uma criação coletiva.
O valor não está somente no que a ferramenta consegue gerar. Está na capacidade humana de decidir o que deve permanecer, o que precisa ser alterado e como cada elemento contribui para o conjunto.
IA também é direção visual
Projetos como Mar de Poemas ampliam a discussão sobre o papel de fotógrafos, artistas visuais e profissionais da imagem diante da inteligência artificial.
A atuação não precisa ficar restrita à produção de imagens individuais para redes sociais, campanhas ou portfólios. Há um campo crescente envolvendo projeções, espetáculos, instalações, exposições, cenografia digital, apresentações musicais e experiências de marca.
Não significa que dominar uma ferramenta de geração seja suficiente para entrar nesse mercado.
Produzir uma sequência audiovisual longa exige organização, continuidade, interpretação de briefing, noção de ritmo e capacidade de trabalhar em diálogo com outros profissionais.
O repertório fotográfico pode ser uma base valiosa. Composição, luz, cor, textura e construção de atmosfera continuam importantes. Mas passam a ser aplicados em um contexto no qual a imagem se movimenta, ocupa um espaço físico e se relaciona com outras linguagens.
O profissional deixa de atuar apenas como produtor de imagens e passa a assumir também uma função de direção visual.
O trabalho invisível continua existindo
Parte da resistência à inteligência artificial nasce da percepção de que a tecnologia eliminaria o trabalho envolvido na criação.
O relato de Charly mostra um cenário mais complexo. A máquina produz possibilidades em grande quantidade. O artista precisa avaliar essas possibilidades, reconhecer o que se aproxima da proposta, identificar problemas e encontrar maneiras de manter uma identidade visual ao longo do projeto. É um trabalho frequentemente invisível para o público, assim como já acontece em outras áreas da produção cultural.
Quem assiste aos 40 minutos de projeção não vê as tentativas descartadas, os movimentos que não funcionaram, as imagens inconsistentes ou as horas gastas tentando aproximar o resultado da intenção original.
Mas esse processo existe. E pode se tornar ainda mais intenso quando o artista busca algo específico, em vez de simplesmente aceitar a estética sugerida pela ferramenta.
A inteligência artificial reduz determinadas barreiras técnicas. Ela não elimina a necessidade de visão, repertório e persistência.
Uma criação construída por muitas pessoas
Mar de Poemas também reforça que produções culturais continuam sendo resultados coletivos. O espetáculo teve roteiro e direção de produção de Jul Leardini, direção artística de Lia Comandulli e participação dos bailarinos Joy Eduarda e Samuel Jumonji. Lia também respondeu pela coreografia, interpretação, voz off, trilha sonora e figurinos.
Charly Techio desenvolveu as imagens e os vídeos com inteligência artificial, enquanto Orlando Brasil assinou a sonoplastia e o vídeo. A iluminação ficou a cargo de Maria Eduarda, Madu, e a acessibilidade em Libras foi realizada pela Lustoza Comunicação Acessibilidade, com Bela Lustoza.
A realização foi da ÊXEDRA – Pesquisa e Experimentação Teatral.
A tecnologia teve um papel importante no espetáculo, mas não trabalhou sozinha. O resultado surgiu da combinação entre roteiro, direção, interpretação, dança, poesia, luz, som, projeção, acessibilidade e criação visual.
Um sinal para quem trabalha com imagem
Charly Techio é integrante da comunidade Fotograf.IA + C.E.Foto, que reúne fotógrafos e profissionais interessados em compreender como a inteligência artificial está transformando a criação, o mercado e as possibilidades de atuação.
Sua experiência em Mar de Poemas oferece uma lição prática. A oportunidade não está apenas em gerar imagens mais rapidamente. Está em descobrir onde essas imagens podem ser aplicadas, como podem dialogar com outras linguagens e que tipo de problema artístico ou profissional conseguem ajudar a resolver.
Os quase 40 minutos de vídeo não representam somente uma demonstração tecnológica. Eles mostram a abertura de um novo território para profissionais capazes de combinar repertório visual, sensibilidade, direção e domínio das ferramentas.
A IA gerou as imagens. Mas foi o trabalho humano que transformou essas imagens em parte de um espetáculo.
Ficha técnica
MAR DE POEMAS
Roteiro: Jul Leardini
Direção artística: Lia Comandulli
Coreografia, dança, atuação e voz off: Lia Comandulli
Dançarina: Joy Eduarda
Dançarino: Samuel Jumonji
Imagens e vídeos com inteligência artificial e fotografia: Charly Techio
Sonoplastia e vídeo: Orlando Brasil
Iluminação: Maria Eduarda, Madu
Intérprete de Libras: Lustoza Comunicação Acessibilidade, com Bela Lustoza
Trilha sonora e figurinos: Lia Comandulli
Direção de produção: Jul Leardini
Realização: ÊXEDRA – Pesquisa e Experimentação Teatral
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A inteligência artificial já está ampliando o campo de atuação de fotógrafos e profissionais da imagem. Vídeo, projetos culturais, experiências presenciais, direção visual e novas formas de prestação de serviço começam a fazer parte desse cenário.
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