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Como fotografar o que a câmera não consegue ver? Brasileira leva radiação e campos minados para a fotografia

há 4 horas
2 min de leitura

Alice Miceli abre hoje exposição em Boston com trabalhos em que contaminação radioativa, território e violência interferem na própria construção das imagens.



Como fotografar uma ameaça que existe, mas não pode ser vista?


A brasileira Alice Miceli parte dessa pergunta em trabalhos desenvolvidos em Chernobyl e em campos minados de países como Colômbia, Bósnia e Camboja. A partir de hoje, 25 de setembro, parte dessa produção está reunida em Impenetrable Landscapes, no Boston Center for the Arts, nos Estados Unidos. A exposição segue até 12 de dezembro.


Não se trata apenas de fotografar paisagens marcadas por violência ou desastre. Miceli modifica o próprio processo fotográfico para responder às condições encontradas nesses lugares.


Quando a radiação produz a imagem


No Projeto Chernobyl, a artista trabalhou na zona de exclusão afetada pelo desastre nuclear de 1986. O problema era evidente: a radioatividade transforma aquele território, embora permaneça invisível aos olhos e a uma fotografia convencional.


Miceli desenvolveu então um método radiográfico no qual a própria radiação presente no local deixa sua impressão no filme. O projeto foi desenvolvido com colaboração de instituições de pesquisa no Brasil, Alemanha e Belarus.


A fotografia deixa de apenas representar Chernobyl.


Uma condição física daquele território participa da construção da imagem.


Nos campos minados, até a posição do fotógrafo muda


Em In Depth (minefields), Miceli investigou áreas contaminadas por minas terrestres na Colômbia, Bósnia, Camboja e Angola.


Ali, o problema é diferente. O perigo continua praticamente invisível, mas está sob o solo e determina onde uma pessoa pode ou não pisar. Isso interfere diretamente na posição do fotógrafo, no enquadramento, na perspectiva e na maneira como aquela paisagem consegue ser registrada.


O Boston Center for the Arts resume essa lógica ao afirmar que duração, contaminação radioativa e terreno militarizado entram na própria mecânica material de construção das obras. A exposição também aborda o arquivo da prisão S-21, ligada ao genocídio promovido pelo Khmer Rouge no Camboja.


Fotografia expandida sem inteligência artificial


O trabalho de Alice Miceli é especialmente interessante agora porque ajuda a desfazer uma associação fácil: a de que expandir a fotografia significa necessariamente misturá-la com inteligência artificial ou geração sintética.


A fotografia pode ultrapassar seus procedimentos convencionais pela ciência, pelo suporte, pela instalação, pelo arquivo, pelo tempo ou pela própria relação física entre câmera, fotógrafo e território.


Miceli faz isso tornando parte do problema também parte do método.


É uma discussão particularmente atual em um momento no qual a fotografia volta a negociar seus limites diante das imagens generativas. Antes mesmo da IA, artistas já questionavam onde a fotografia começa, onde termina e quais ferramentas ainda podem ser incorporadas para tornar visível aquilo que uma câmera convencional não consegue registrar.


Site oficial da Alice Miceli: Alice Miceli — site oficial


Página oficial da exposição no Boston Center for the Arts: Alice Miceli: Impenetrable Landscapes


O trabalho de Alice Miceli ajuda a lembrar que a fotografia continua sendo expandida por caminhos muito diferentes: processo, ciência, território, arquivo, instalação e tecnologia.

No Essencial, acompanho referências como essa e outros movimentos da fotografia, da cultura visual e do mercado que ajudam a ampliar repertório e leitura profissional.

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