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João Ripper fotografa há mais de 50 anos. Seu método começa antes de levantar a câmera

há 7 horas
3 min de leitura

Exposição que abre hoje em Belém reúne 30 imagens do fotógrafo e recoloca em pauta uma prática baseada em convivência, escuta e participação de quem é fotografado.



Abre nesta quinta-feira, 24 de setembro, no Sesc Ver-o-Peso, em Belém (PA), a exposição Viva o Povo Brasileiro, de João Roberto Ripper. A mostra reúne 30 fotografias selecionadas de uma trajetória de mais de cinco décadas, com curadoria de Dante Gastaldoni, e permanece aberta gratuitamente até 7 de março de 2027.


O conjunto atravessa parte importante da produção documental de Ripper, marcada por trabalhos com trabalhadores em situação análoga à escravidão, povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos e outras comunidades brasileiras. Mais do que uma retrospectiva, porém, a exposição ajuda a observar um aspecto central de seu trabalho: a maneira como essas fotografias são construídas.


Ripper trabalha há anos com o que chama de fotografia compartilhada. A prática envolve convivência, escuta, confiança e participação das pessoas fotografadas no processo de representação. Em diferentes projetos, isso inclui mostrar imagens às próprias comunidades, ouvir suas impressões e devolver parte desse material para que também possa ser utilizado como memória e registro.


A diferença parece pequena quando descrita apenas como método, mas muda a relação entre fotógrafo e fotografado.


Fotografar alguém não é o mesmo que construir uma imagem com essa pessoa


Grande parte da fotografia profissional trabalha com algum tipo de autorização, explícita ou implícita, para registrar e publicar uma pessoa. A proposta de Ripper acrescenta outra camada: não basta perguntar se a fotografia pode ser feita. Também importa como aquela pessoa será representada.


Isso não significa que toda fotografia documental precise seguir o mesmo processo. Fotojornalismo de acontecimentos, fotografia de rua, retrato encomendado e projetos documentais de longo prazo operam em condições diferentes.


O trabalho de Ripper mostra, no entanto, que existe uma diferença entre possuir o direito de publicar uma imagem e construir uma representação na qual o fotografado também participa da forma como será visto.


Essa preocupação aparece também no Imagens do Povo, projeto criado na Maré, no Rio de Janeiro, que Ripper ajudou a fundar em 2004. A iniciativa nasceu com a proposta de formar fotógrafos dentro das próprias periferias e ampliar as representações produzidas sobre esses territórios.


O acesso também faz parte da fotografia


Há outro aspecto dessa prática que ganhou nova atualidade.


Produzir a aparência de uma pessoa ficou tecnicamente mais simples. Câmeras automatizam cada vez mais etapas do processo e ferramentas de inteligência artificial já conseguem criar rostos, cenários e personagens inteiros sem que ninguém tenha estado diante da câmera.


Nesse contexto, o trabalho de Ripper chama atenção para elementos que não podem ser reproduzidos apenas no acabamento da imagem: tempo, acesso, convivência e relação com quem está sendo fotografado.


Essas condições não aparecem como informação técnica nos metadados do arquivo, mas interferem diretamente na fotografia que pode ser feita. Determinam onde o fotógrafo consegue chegar, o que as pessoas estão dispostas a mostrar, como se comportam diante da câmera e até quais imagens continuarão existindo depois da edição.


É uma diferença importante num momento em que qualidade técnica deixou de ser uma barreira tão alta quanto já foi.


Uma discussão antiga que ganhou novo contexto


A fotografia documental discute há décadas questões como poder, representação, consentimento e a distância entre quem produz uma imagem e quem aparece nela.


O trabalho de Ripper não oferece uma resposta universal para essas questões, mas apresenta uma prática concreta construída ao longo de décadas no Brasil.


Em vez de tratar a pessoa fotografada apenas como assunto, sua metodologia procura colocá-la também como participante da construção da imagem.


A abertura de Viva o Povo Brasileiro permite olhar novamente para essa trajetória em um momento em que a fotografia enfrenta uma transformação tecnológica acelerada. A exposição mostra que algumas das questões mais atuais do meio não dependem necessariamente de uma ferramenta nova.


Algumas começam antes mesmo de levantar a câmera.


Viva o Povo Brasileiro — João Roberto Ripper

Sesc Ver-o-Peso — Belém (PA)

Abertura: 24 de setembro de 2026

Visitação: até 7 de março de 2027


Exposições, projetos e trabalhos que ajudam a entender os movimentos da fotografia brasileira também fazem parte da Curadoria Essencial, onde acompanho referências e oportunidades que merecem entrar no radar de quem trabalha com imagem.


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