Quando o Super Bowl abre espaço para o cinema autoral
- Leo Saldanha

- há 1 dia
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Cinema autoral, filme 35mm e decisões estéticas radicais transformam um comercial do Super Bowl em comentário sobre identidade digital.

No meio do espetáculo publicitário mais caro e mais visto do planeta, um filme em preto e branco chamou atenção não pelo humor fácil nem pelo excesso de efeitos, mas pela decisão estética. A Squarespace levou ao Super Bowl uma campanha dirigida por Yorgos Lanthimos, estrelada por Emma Stone, filmada em 35mm analógico e exibida em um formato pouco comum para a publicidade contemporânea.
A campanha, apresentada como A Requiem of Unrequited Anguish, acompanha a tentativa da atriz de registrar o domínio emmastone.com, já ocupado. A narrativa transforma um problema banal da vida digital em um comentário visual sobre identidade, pertencimento e frustração online. Tudo isso embalado por uma estética que se distancia radicalmente do padrão das campanhas exibidas durante o Super Bowl.
O projeto foi rodado em filme Kodak 2302, um material raramente usado como negativo de câmera. Trata-se de um filme de baixíssima sensibilidade, alto contraste e grão extremamente fino, mais associado à etapa de cópia do que à captação. A escolha reforça a dramaticidade das imagens e cria uma textura visual que remete mais ao cinema autoral do que à publicidade tradicional. As lentes Panavision completam o conjunto técnico.
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Segundo Mathieu Zarbatany, diretor criativo do projeto, a decisão foi deliberada: preservar o máximo de informação visual possível. Por isso, as cenas foram captadas em open gate, no formato 4:3, mantendo inclusive as bordas do negativo. A campanha será exibida nesse mesmo enquadramento, sem adaptação para formatos widescreen, reforçando a ideia de mostrar o material como ele foi concebido, não como o mercado espera vê-lo.
Para Emma Stone, o projeto tem um componente pessoal. A atriz afirmou que a campanha se baseia em experiências reais e que interpretar a si mesma, em sua própria casa, trouxe de volta emoções genuínas ligadas à perda de controle sobre sua identidade digital. A declaração reforça o tom híbrido da peça, que oscila entre ficção, autobiografia e comentário social.

A parceria entre Stone e Lanthimos não é novidade. Eles já trabalharam juntos em produções como Poor Things e Kinds of Kindness, além do recente Bugonia. O diretor, aliás, é conhecido por sua relação próxima com a fotografia analógica e por desafiar convenções de enquadramento e formato. No longa Bugonia, por exemplo, utilizou o enquadramento 3:2 do filme 35mm, algo incomum no cinema comercial. No caso da Squarespace, essa experimentação migra diretamente para a publicidade.
Em um evento como o Super Bowl, em que anúncios costumam apostar em fórmulas seguras para justificar investimentos milionários, a campanha se destaca justamente por assumir riscos. Não há punchline óbvia, não há excesso de informação, não há apelo imediato à conversão. Há atmosfera, conceito e uma escolha clara de linguagem.

Enquanto dezenas de marcas disputam atenção com humor, nostalgia ou celebridades em papéis caricatos, a Squarespace optou por algo raro no horário nobre da publicidade global: silêncio visual, tensão estética e uma narrativa que exige mais do espectador. É provável que seja o único comercial do Super Bowl deste ano filmado em 35mm preto e branco, e certamente um dos poucos que parecem mais próximos de uma instalação artística do que de um anúncio tradicional.
No fim, a campanha não fala apenas sobre domínios ou presença online. Ela sugere que, em um ambiente digital saturado, a forma como uma marca se apresenta importa tanto quanto o que ela vende. E, neste caso, a escolha foi clara: menos ruído, mais linguagem.
Essas decisões não são acidentais.
No dia 25 de fevereiro, em São Paulo, o encontro presencial Fotografia Humana em Tempos de IA propõe uma conversa direta sobre linguagem, tecnologia e presença num mercado cada vez mais automatizado.



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