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POV | Ponto de Vista: O instante que ninguém mais pode fingir ter visto

  • há 1 dia
  • 5 min de leitura

Leitura estratégica dos movimentos que estão reposicionando a fotografia entre a cultura, o mercado e a tecnologia.



por Leo Saldanha


Se você olhasse para as notícias desta semana de forma isolada, veria fotógrafos sendo premiados, câmeras sendo lançadas e filmes concorrendo ao Oscar. Eventos separados. Mas quando os pontos se conectam, fica visível uma tensão que organiza tudo: em um mercado onde qualquer ferramenta pode gerar uma imagem, o que passa a ter peso real é o que só o fotógrafo presente pode produzir. O instante. O território. A assinatura de quem estava lá.


A fotografia não está em crise. Ela está sendo forçada a se mostrar inteira.


1. O gol de mão que ninguém conseguiu fingir ter fotografado

Dennis Calçada estava do lado errado do estádio. Pelo menos era o que pareceria para qualquer editor que pensasse em cobertura padrão. Mas foi exatamente esse posicionamento, aparentemente equivocado, que garantiu a ele a imagem do toque de mão de Neymar no jogo contra o Botafogo pelo Brasileirão 2025. A foto, intitulada "A Mão do Príncipe", foi selecionada para o AIPS Sport Media Awards, a terceira indicação consecutiva do fotógrafo santista nessa premiação, trabalhando de forma independente.



O que essa história diz sobre o mercado de 2026 não é sobre sorte. É sobre atenção constante e sobre o valor insubstituível de estar presente. Neymar, nas palavras do próprio Dennis, é imprevisível. Um algoritmo não posiciona um fotógrafo no lugar certo. Um banco de imagens não registra o instante exato. A captura foi possível porque havia um profissional humano, atento, tomando decisões em tempo real.


A comparação com a "Mão de Deus" de Maradona, usada pelo próprio fotógrafo para nomear e contextualizar a imagem, também não é casual. Ela ancora a foto em uma memória coletiva, dando peso histórico ao registro. Isso é leitura autoral. É o que separa uma imagem de um arquivo.



2. A fotografia brasileira está produzindo em todas as direções ao mesmo tempo

Enquanto um fotógrafo baiano, Jordan Vilas, levava o Carnaval de Salvador para o Museu da Imagem e do Som de São Paulo dentro do projeto Adobe Borogodó, doze fotógrafas paraenses circulavam pelo Brasil com a exposição Vetores-Vertentes no CCBB do Rio de Janeiro. O projeto, viabilizado pela Lei Rouanet, reúne décadas de produção de mulheres amazônicas e termina sua temporada carioca em 30 de março.


São movimentos paralelos, mas que apontam para a mesma direção: a fotografia brasileira está descentralizando sua narrativa. Não é mais apenas o eixo Rio-São Paulo validando o que é relevante. A Amazônia está afirmando que não é um tema exótico a ser fotografado de fora, mas um território que produz seu próprio olhar. O Carnaval de Salvador está sendo mostrado pelo ângulo das ladeiras e dos gestos de fé, não pelo circuito comercial dos trios.


Para quem trabalha com fotografia no Brasil, esse movimento importa estrategicamente: o mercado está valorizando perspectivas que não podem ser replicadas. Território, ancestralidade e pertencimento não são replicáveis por IA.



3. No Oscar, a câmera que filmou em IMAX pode mudar a história das premiações

No audiovisual, a disputa pela categoria de Melhor Fotografia no Oscar 2026 ganhou um contorno histórico. Autumn Durald, diretora de fotografia de Pecadores, concorre ao lado do brasileiro Adolpho Veloso (Sonhos de Trem) e, se vencer, será a primeira mulher a ganhar nessa categoria. Ela já fez história ao se tornar a primeira mulher a filmar em IMAX.


O detalhe técnico não é cosmético. Filmar em IMAX é uma decisão que afeta fisicamente a produção, exige domínio sobre equipamentos de grande porte e resulta em uma experiência visual que só existe na tela grande. É mais um sinal de que a autoria técnica continua sendo um diferencial concreto, não apenas simbólico.


O Brasil também está bem posicionado nessa corrida: além de Adolpho Veloso, O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, concorre em quatro categorias, incluindo Melhor Filme Internacional.



4. O hardware responde à IA com mais inteligência, não com menos

Na frente do equipamento, a semana trouxe sinais interessantes. A GoPro anunciou seu novo processador GP3, com o dobro da capacidade de processamento de pixels do antecessor, prometendo desempenho em baixa luminosidade que a empresa classifica como "cinema grade" para câmeras compactas. O lançamento está previsto para o segundo trimestre de 2026, abrangendo câmeras de ação, 360 e câmeras de vlogging.


O movimento da GoPro ilustra algo que se repete em toda a indústria: a IA não está substituindo o hardware, está sendo incorporada a ele. Detecção de cenas, rastreamento de sujeitos, otimização automática de exposição, essas funções antes dependiam do fotógrafo interpretar as condições manualmente. Hoje são camadas adicionais de suporte, não substituições do olhar.


Também entrou em cartaz a nova câmera recarregável da Lomography com o filme LomoChrome Classicolor, por US$ 28. A coexistência de um lançamento assim com processadores de ponta para GoPros não é contradição. É o retrato de um mercado que valoriza simultaneamente a experimentação analógica e a performance técnica, dependendo do que a imagem precisa ser.



5. Roman Akulov: trajetória improvável, fotografia inegociável

De orfanato na Rússia a exposição solo na Europa, passando por fotografia de moda. A história de Roman Akulov, repercutida essa semana pelo DIYPhotography, é o tipo de narrativa que resiste a qualquer tentativa de categorização simples. Não é história de superação genérica. É sobre alguém que transformou a câmera em instrumento de autonomia real.

O que interessa strategicamente nessa história é o seguinte: fotografia autoral continua sendo um dos poucos mercados onde o ponto de partida pode ser irrelevante se o ponto de vista for suficientemente singular. Não é garantia, mas é possibilidade concreta. Isso conta em um momento em que muitos fotógrafos sentem que o mercado está se fechando.



6. O próximo passo: formação, estratégia e as decisões que não dão pra adiar

O mercado se move. A pergunta que fica é o que você faz com o movimento.

Para quem quer aprofundar a leitura sobre como a IA está sendo usada de forma combinada por fotógrafos, não como ferramenta única, mas como ecossistema de ferramentas, o artigo Como usar Claude, ChatGPT e Gemini juntos na fotografia oferece uma visão prática do que já está funcionando.


Para quem atua na fotografia esportiva, vale acompanhar os encontros promovidos pela Fotto com fotógrafos em atividade: o próximo acontece em Garibaldi, no RS.

E se você quer estar cercado de profissionais que estão pensando o mercado com seriedade todos os dias, a Comunidade Fotograf.IA + C.E.Foto é o espaço onde essa conversa acontece de forma contínua.


Últimos dias da promo de Dia do Consumidor: acesse os benefícios da campanha aqui antes que encerrem.


A fotografia não está encolhendo. Ela está se tornando mais específica. E especificidade, neste mercado, é vantagem.

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