A “pior fotógrafa do mundo” entregou as fotos. A Icelandair transformou o resultado em exposição
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Depois de escolher Blanche Mortemard entre mais de 127 mil candidatos, a Icelandair revelou as imagens da viagem pela Islândia e prolongou a campanha com uma exposição em Londres. O case mostra como uma ideia pode continuar produzindo valor muito depois da entrega.

MOMENTO R.U.M.O.
uma série do R.U.M.O.
Em março, a Icelandair lançou uma campanha improvável: procurava alguém realmente ruim em fotografia para passar dez dias na Islândia e receber US$ 50 mil pelo trabalho.
A aposta da companhia aérea era simples e provocativa. O país seria tão fotogênico que nem o pior fotógrafo conseguiria estragá-lo completamente.
Mais de 127 mil pessoas se candidataram. A escolhida foi a francesa Blanche Mortemard, de 28 anos, que viajou pelo país com um iPhone 17 Pro e a missão explícita de não melhorar demais.
Agora chegou a parte que faltava: as fotografias da viagem foram divulgadas. E a Icelandair decidiu levar o projeto mais longe. As imagens serão exibidas nos dias 11 e 12 de setembro, em Londres, no White Rabbit Studios, com direito inclusive a uma conversa da própria Blanche sobre a experiência.

Algumas são realmente ruins
As imagens cumprem bem o papel prometido pela campanha.
Há paisagens sem um ponto de interesse claro, enquadramentos estranhos, fotografias inclinadas, elementos invadindo o quadro e erros que normalmente seriam eliminados durante uma seleção profissional.
O Digital Camera World resolveu inclusive analisar algumas delas tecnicamente e apontar como poderiam ter sido melhoradas. Em meio aos erros, aparece também uma fotografia de um papagaio-do-mar que funciona surpreendentemente bem.
Essa discussão é curiosa, mas talvez nem seja a parte mais interessante do projeto.
A Icelandair nunca precisou que Blanche produzisse as piores fotografias já feitas. Precisava que a ideia continuasse funcionando. E funcionou.


A campanha não terminou quando a fotógrafa foi escolhida
Esse é o detalhe que vale observar do ponto de vista de negócio.
A Icelandair poderia ter lançado o concurso, conseguido repercussão, anunciado a vencedora e encerrado a ação.
Em vez disso, criou uma sequência.
Primeiro veio a procura pelo pior fotógrafo. Depois, mais de 127 mil inscrições. Em seguida, a revelação da vencedora, a viagem pela Islândia, os bastidores, as fotografias produzidas e, agora, uma exposição em Londres.
Uma ideia relativamente simples foi transformada em vários momentos de comunicação distribuídos ao longo de meses.
O ativo principal da campanha, portanto, não são apenas as fotografias.
É a história construída ao redor delas.


Uma fotografia pode valer pelo que faz acontecer
Para quem trabalha profissionalmente com imagem, esse case ajuda a separar duas coisas que frequentemente são tratadas como se fossem iguais: qualidade da fotografia e valor produzido pela fotografia.
Uma imagem pode ter enorme qualidade técnica e pouca capacidade de circulação. Outra pode ser imperfeita e, dentro de uma ideia bem construída, gerar conversa, imprensa, compartilhamento e lembrança de marca.
Isso não diminui a importância da técnica. A própria brincadeira da Icelandair só funciona porque todos reconhecemos o que normalmente seria considerado um erro fotográfico.
O ponto é outro: a fotografia está dentro de uma estratégia maior.
Nesse caso, até o erro foi planejado como parte da experiência de marca.
O trabalho acabou. A história não precisa acabar.
Talvez essa seja a leitura mais útil dessa nova fase da campanha.
Fotógrafos costumam concentrar enorme energia na entrega: fotografar, selecionar, editar e enviar o material ao cliente. Comercialmente, porém, um trabalho pode continuar produzindo valor depois disso.
Pode virar bastidor, história, exposição, conteúdo, relacionamento, imprensa, nova oferta ou argumento para uma próxima ação.
A Icelandair pagou US$ 50 mil por uma fotógrafa deliberadamente ruim.
Meses depois, ainda estamos falando sobre isso.
É um bom lembrete de que, no mercado da imagem, o valor nem sempre termina quando a fotografia fica pronta.
E o seu trabalho: termina na entrega?
O Mapa R.U.M.O. é uma leitura individual de posicionamento, oferta, comunicação e percepção de valor para fotógrafos que querem entender melhor como o trabalho que já produzem pode ser percebido, apresentado e transformado em oportunidades.
A análise inclui também a camada AURA, voltada ao que o próprio conjunto de imagens está comunicando.



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