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Papa Leão XIV diz que é urgente distinguir arte humana do que é produzido por IA

há 7 horas
4 min de leitura

Em encontro com artistas e curadores no Vaticano, pontífice afirmou que existe uma diferença fundamental entre a criação humana e aquilo que máquinas produzem a partir de cálculos estatísticos e milhões de imagens criadas por outras pessoas.



O Papa Leão XIV entrou diretamente em uma das discussões centrais provocadas pela inteligência artificial no campo da arte. Em discurso realizado em 2 de outubro no Vaticano, afirmou que se tornou urgente distinguir a arte produzida por seres humanos daquilo que é gerado por máquinas.


A declaração foi feita durante o encontro “A arte da possibilidade: tecer juntos”, organizado pelo Dicastério para a Cultura e a Educação e dirigido a artistas e curadores. Ao falar sobre inteligência artificial, Leão XIV afirmou que existe uma “diferença ontológica”, anterior inclusive à questão estética, entre a arte e aquilo que uma máquina consegue gerar.


O argumento apresentado pelo pontífice não ficou restrito à capacidade técnica dos sistemas. Ele chamou atenção para o próprio processo utilizado pela inteligência artificial generativa, descrevendo máquinas que realizam cálculos estatísticos baseados em milhões de imagens produzidas por outras pessoas.


Para Leão XIV, falta aos algoritmos a “centelha do humano” presente na cultura e na arte. A partir dessa posição, defendeu uma renovação da aliança da Igreja Católica com artistas e instituições culturais para preservar aquilo que considera especificamente humano na criação.


A revista de arte Hyperallergic destacou as declarações nesta segunda-feira, 5 de outubro, com uma manchete que fala em “salvar a arte da IA”. A formulação é mais contundente do que o discurso oficial. Leão XIV não propôs uma proibição da inteligência artificial nem apresentou um programa contra seu uso na produção cultural. Sua fala concentrou-se na necessidade de estabelecer uma distinção entre criação humana e produção algorítmica.


A discussão não é apenas sobre a qualidade da imagem


A posição do Papa chama atenção porque desloca uma parte do debate sobre inteligência artificial que, nos últimos anos, esteve muito concentrada na capacidade das máquinas de produzir resultados visualmente convincentes.


Para fotografia, ilustração, cinema e outras atividades de produção visual, a pergunta mais comum foi se a inteligência artificial conseguiria produzir algo tão bom quanto o trabalho realizado por uma pessoa.


A fala de Leão XIV parte de outra questão. Mesmo que o resultado seja tecnicamente competente ou visualmente indistinguível, faz diferença saber se houve uma pessoa responsável por aquela criação?


É uma pergunta que ultrapassa religião e também não possui uma resposta consensual. A afirmação de que existe uma diferença ontológica entre arte humana e produção de máquinas expressa uma posição filosófica do pontífice. Não estabelece, por si só, uma definição universal do que pode ou não ser considerado arte.


O interesse da declaração está no fato de uma instituição de alcance global colocar essa distinção no centro da discussão cultural sobre inteligência artificial.


O autor volta para o centro da discussão


Há outro ponto particularmente relevante para fotógrafos e artistas visuais. Ao mencionar sistemas capazes de produzir imagens a partir de milhões de trabalhos criados por terceiros, Leão XIV toca em uma questão que acompanha a expansão da IA generativa desde o início: a relação entre os modelos, as obras utilizadas em seu desenvolvimento e os autores que produziram esse material.


Esse debate envolve direitos autorais, consentimento, remuneração e transparência sobre as bases utilizadas para treinar sistemas generativos. Mas também começa a influenciar a maneira como o público percebe uma imagem.


Durante boa parte da transformação digital, a discussão esteve concentrada no resultado. A fotografia precisava funcionar na tela, chamar atenção, comunicar e circular.

A inteligência artificial acrescenta outra camada. Origem, autoria e processo começam a participar da avaliação da própria imagem.


Isso não significa que uma obra produzida com inteligência artificial automaticamente tenha menos valor, nem que qualquer fotografia realizada por uma pessoa tenha maior relevância artística. Significa que a procedência deixou de ser uma informação secundária em parte da produção cultural.


Uma discussão que começa a aparecer em diferentes lugares


A declaração do Papa também chega em um momento no qual a distinção entre imagem produzida por pessoas e imagem sintética começa a ultrapassar o universo dos softwares e das empresas de tecnologia.


Museus, plataformas, concursos, veículos de comunicação, instituições culturais e profissionais da imagem precisam decidir como identificar, selecionar, creditar e apresentar trabalhos que utilizam inteligência artificial.


Não existe uma única resposta para essas questões. Há trabalhos híbridos, processos que utilizam IA apenas em determinadas etapas e obras inteiramente sintéticas. Colocar tudo na mesma categoria seria tão simplificador quanto ignorar as diferenças entre esses processos.


O que está ficando mais difícil é tratar a origem da imagem como algo irrelevante.


Para quem vive da fotografia, essa mudança merece atenção porque pode alterar também a percepção de valor. Se uma imagem visualmente eficiente pode ser produzida em segundos, características como autoria, acesso, experiência, processo, documentação e vínculo com acontecimentos reais podem ganhar importância em determinados mercados.


A fala de Leão XIV não resolve essa discussão. Ela mostra que o debate já deixou de pertencer apenas às empresas de tecnologia e aos profissionais diretamente envolvidos com inteligência artificial.


A pergunta sobre o que distingue uma criação humana de uma produção algorítmica está entrando definitivamente no campo da cultura.


E, para a fotografia, talvez essa seja uma discussão mais importante do que simplesmente descobrir se a próxima imagem impressionante foi produzida com uma câmera ou com um prompt.


Para quem acompanha essas mudanças de perto


A inteligência artificial não está transformando apenas as ferramentas usadas para produzir imagens. Ela começa a interferir em autoria, confiança, direitos, percepção de valor e nas próprias regras do mercado visual.


No Essencial, acompanho esses movimentos e procuro traduzir o que eles representam, na prática, para quem trabalha com fotografia.

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